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“Ela compreende o perigo por instinto. Quer escapar. Tarde. Já enlacei o pescoço que torço com facilidade até ouvir o troc! Agora ela está inerte, mole. Nem deu trabalho. Deu vontade. Abro a braguilha. Ouço os gritos. Não tenho tempo de correr. São muitos. Me batem na cabeça. Muito. Me amarram em um tronco. Me metem a faca”.

Se tem uma coisa que aprendi desde que comecei a escrever sobre livros, escritores, literatura e coisas do tipo, é identificar quando alguém te indica um livro por obrigação ou por convicção. No segundo caso, os olhos dizem algo, a voz fica mais enfática e o discurso, original.

Quando a editora da Boitempo, ao final de uma feira, logo depois de nos conhecermos, em uma conversa totalmente despretensiosa, falou de Edyr Augusto, seu semblante deixava claro que ela não me empurrava um autor da casa, mas indicava alguém que eu deveria prestar atenção. Nunca tinha ouvido falar do cara e logo descobri que eram poucos os que conheciam o seu trabalho, praticamente uma falha coletiva da cena literária nacional.

Então li o livro que me foi dado, Casa de caba. Brutal! Tal qual outras obras do autor, viria a descobrir. Drogas, corrupção, violência marginal, violência policial, violência policial-marginal, gangues, sexo com amor, sexo com putaria, sexo comprado, sexo com criança, uma linguagem seca, direta, implacável. Excelente! Aquele tipo de livro que, quando acabamos, agradecemos por ter tido contato, por ter nos apresentado um grande escritor.

A feira na qual a editora me apresentou o livro de Edyr aconteceu em Paris, onde ele tem feito algum barulho. Se ainda falta ser amplamente reconhecido por aqui, por lá o paraense de 60 e poucos anos já foi premiado graças às traduções de seus livros e considerado “Um dos seis autores brasileiros incontornáveis”, sendo colocado ao lado de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Milton Hatoum e Luiz Ruffato.

Depois de Casa de caba vieram as leituras de Os éguas – um livro de quase 200 páginas, algo gigante para os padrões de Edyr -, a magnífica novela Moscow, de onde retirei o trecho que abre este texto, e Pssica, seu trabalho mais recente. Mais violência, mais sexo, mais drogas, mais tudo. Os livros de Edyr são variações semelhantes de uma mesma nota. Nota essa que sempre soa pelo Pará, com as características inerentes a cenários urbanos encravados no meio da floresta, algo que se repete em suas crônicas, poesias e peças de teatro, frentes nas quais também atua.

“Como sou um ávido leitor, descobri muitos lugares e cidades a partir dos livros que leio. Então, achei que podia apresentar aos leitores de outros lugares o meu cenário, a minha aldeia. Quanto aos leitores locais, quero que identifiquem as ruas, os acontecimentos, se vejam em cena. Por sua localização geográfica, Belém é uma cidade multifacetada, uma selva de concreto fincada na selva amazônica. Desde seus primeiros dias, entreposto para a Europa, Caribe, América do Norte. Para mercadorias lícitas e ilícitas. Apartados pelas distâncias dos nossos vizinhos, recebemos uma invasão de pessoas quando riquezas foram descobertas em minérios. O Pará é o estado potencialmente mais rico do Brasil e, ao mesmo tempo, um dos mais pobres economicamente. Da janela de meu prédio, vejo o rio e a floresta. Temos todos os presentes que a modernidade pode oferecer e, ao mesmo tempo, a selva com seu próprio tempo. Esse contraste me interessa”, diz ele em uma longa entrevista que preferiu me conceder por e-mail.

Violência fascinante

Uma das referências que insistentemente martelava em minha cabeça enquanto lia os livros de Edyr era Laranja mecânica, de Anthony Burgess, mas apenas a primeira parte da obra, enquanto a violência do estado não atua sobre Alex, o protagonista. Não que o braço bruto de nossas organizações oficiais esteja ausente na prosa do paraense, contudo, quando aparece, quase sempre o faz também como criminoso, não como algo que age conforme interesses da sociedade – o que também costuma ser um enorme problema, diga-se. Depois, pesquisando, descobri que a comparação não era original, outros já o tinham feito, inclusive chamando os livros de Edyr de “Laranja mecânica à brasileira”. Paciência. Ainda que não seja inédito, o paralelo é realmente válido.

Em nossa conversa, Edyr lembra que, para estrear nos romances, se inspirou em um outro escritor, contudo: Mario Puzo e o seu O poderoso chefão. A ideia do paraense era também construir uma narrativa na qual a cada capítulo os personagens aos poucos se cruzassem, o que acabou forjando o seu estilo literário. “O resultado já saiu com frases curtas e ritmo forte. Aprimorei isso no meu segundo livro, e as histórias, cada vez mais, foram ficando assim. A forma, para mim, é o essencial de minha literatura. No fim, as histórias são as mesmas, das pessoas. O que faz diferença é a forma.”

Sobre a violência, tanto a física quanto a psicológica, garante que não sabe como ela, em seus livros, bem como o sexo, ainda pode chocar, já que atualmente as maiores barbáries são apresentadas e reapresentadas com uma frequência enorme nas mais diversas mídias. “Marcelo Mirisola disse uma vez que os ficcionistas deviam tomar cuidado, porque a realidade estava invadindo e tomando conta de tudo”, lembra, completando que o que faz é escrever palavras, e que cabe a cada leitor formar, em sua cabeça, a imagem do que está sendo narrado.

Entretanto, não nos iludamos com as palavras atenuantes de Edyr. Por mais que a barbárie midiática esteja à disposição de todos, mostrar-se frio ou indiferente ao ler Pssica, por exemplo, pode evidenciar o caso de alguém que já esteja em avançado processo de desumanização – algo cada vez mais comum em tempos de pessoas autorizando trens a passarem sobre corpos e de imagens de mortos ou moribundos estraçalhados sendo compartilhadas por Whatsapp, diga-se.

Edyr parte de reportagens de jornais e entrevistas para tratar em uma ficção de dois assuntos bastante atuais no Pará. “Eu realmente queria denunciar a ação dos ratos d’água e do tráfico de escravas brancas”, afirma. Essa contemporaneidade fica explícita logo na cena de abertura do livro, com Janice, uma menina de 14 anos, sendo expulsa de casa porque um vídeo no qual transava com o namorado já estava nos celulares de boa parte da cidade.

Daí vem a história que se desenrola por Belém, Marajó e Caiena, capital da Guiana Francesa, com todo o arsenal habitual de Edyr que já elencamos. “Há um clima úmido. Todos estão sempre suados. Mistura de tecnologia e primitivismo. Cercados pela floresta, dentro de uma floresta concreta. A lei é diferente, ajustada ao que acontecer. Autoridade constituída às vezes é a chave para reinar com suas próprias leis. Segurança é algo que não existe. Belém é uma das cidades mais violentas do mundo. Isso se estende a todos os outros municípios do Pará. Belém do Pará é depois do depois, do depois”, relata o autor, falando ainda sobre o seu cenário, mas também ajudando a delinear mais alguns contornos da narrativa.

Vidas normais

Outra referência que me veio à cabeça enquanto lia Edyr foi a banda Velhas Virgens. Tudo bem, sei que está longe de ser uma alusão erudita, literária ou ao menos edificante, mas também faz parte do meu repertório. Ao menos a música em questão tem um nome oportuno: “Fernando Pessoa Blues”. Em certa parte a letra diz “eu tenho raiva desses falsos heróis, que não conhecem o gosto da lona”. Não há heróis nos livros de Edyr, contudo, até os personagens que de alguma forma se aproximam desse arquétipo não apenas conhecem o gosto da lona, mas também vivem muito próximos dela.

“Talvez eu tenha aversão a esses heróis da ficção que tudo podem, sem sofrer nada a não ser a possibilidade de perder o amor da mocinha. Escrevo sobre as pessoas normais, afetadas duramente por algum fato. Todos nós somos corajosos e medrosos. Heróis e covardes. Somos humanos. Depende da situação. Como escritor, sou um observador das reações humanas. A fala, gestos, esgares das faces. Gente de todas as faixas socioeconômicas. Amigos às vezes se aborrecem porque personagens queridos morrem ao final. É o que a história pede. Final feliz, somente em alguns livros.”

Se não há heróis, ao mesmo tempo, praticamente todos os personagens, até os mais cruéis, parecem ser, de alguma forma, vítimas – e também culpados – de algo significativo. Quando lhe passei essa impressão, ele concordou com algum entusiasmo até. “É isso! Somos nós, humanos e nossas contradições. O homem e sua circunstância. Mais do que a violência, sexo, ritmo, lugar, a chave para o que escrevo é o ser humano e sua circunstância. Ninguém é somente bom ou ruim. Depende da circunstância, dos acontecimentos, dos fatos que agridem as pessoas. Como irão reagir? Isso me interessa. Pessoas que saem de sua zona de conforto e fazem coisas inimagináveis.” Exemplificando, cita, dentre outros, o personagem de Pssica que fugiu da guerra de Angola para ter uma vida em paz no Brasil, onde viu sua mulher ser esquartejada, o que o levou a uma guerra particular por vingança, mas acabou tentado a ajudar uma menina perdida que encontrou pelo caminho.

É apenas uma das grandes histórias contadas com maestria brutal por Edyr, um autor que ainda precisa ser amplamente conhecido e reconhecido, um nome incontornável em nossa literatura contemporânea, como bem apontaram os franceses.

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