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A chuva que acompanha a banda em sua última turnê, a dor invisível que se move entre a voz e o microfone, o refrão que se canta junto entre duas pessoas que não mais se escutam. Kim Gordon decide começar seu livro pelo fim e brinda a esse desfecho com uma bandeja de taças quebradas. "O barulho e a dissonância extremos", ela diz, "podem ser algo incrivelmente purificante". As primeiras páginas de A garota da banda são espelhos da tempestade emocional que perseguiu os últimos shows do Sonic Youth em sua turnê de despedida pela América do Sul: sua autora só escreve porque precisa se molhar e, quem sabe, se limpar ali, na água e nos ruídos das guitarras, de toda dissonância que ela mesma se tornou.
 
Essa introdução do livro demarca o lugar de onde Kim Gordon fala. O relato não apenas do fim do Sonic Youth, banda seminal para entender a narrativa disruptiva de um certo rock feito nos Estados Unidos, mas do desfecho de um casal que havia se tornado uma das principais marcas dessa mesma narrativa, fala de alguém que escreve para exorcizar, para fazer a plateia finalmente escutar o "filho da puta" que ela falou no palco, longe do microfone. Seu casamento com Thurston Moore é como aquele grampeador que não estava funcionando e que o ex-marido jogou um dia bruscamente pela janela, estilhaçando tudo pelo caminho. Por tudo que se espera das autobiografias de grandes estrelas do rock, não poderia haver melhor ponto de largada.
 
Mas Kim Gordon faz algo mais proveitoso disso tudo. Nesse exercício de esconjuro, ela termina por descamar peles coladas ao corpo não apenas dessa entidade conhecida como os bastidores da música, como de qualquer outro campo da indústria cultural. Pele que ela própria vestiu durante muito tempo, por vezes entendendo, por vezes sublimando, o papel que ela desempenhava nessa trama escrita por homens. O machismo se faz presente em sua vida desde o protagonismo que seu irmão mais velho assume dentro de casa, passando pelo momento em que ela vê um amigo se tornando "um artista masculino usando mulheres para interagir com o público, e no processo se transformando em um voyeur", até quando ela precisa responder à incansável pergunta dos jornalistas britânicos: "como é ser a garota da banda?", cuja ironia dá título agora à sua história.
 
"Toda mulher sabe o que eu quero dizer quando digo que as meninas crescem com um desejo de agradar, de ceder seu poder para outras pessoas. Ao mesmo tempo, todo mundo conhece os modos às vezes agressivos e manipuladores com os quais os homens muitas vezes exercem poder no mundo, e como, ao usar a palavra empoderamento para descrever as mulheres, os homens estão simplesmente mantendo seu próprio poder e controle. Anos depois de sair de L.A., eu ainda podia ouvir a voz do louco do meu irmão no meu ouvido, sussurrando: Eu vou dizer a todos os seus amigos que você chorou", ela escreve.
 
Pode-se mesmo dizer que, se há um tom predominante no livro, ele não é o da amargura (ainda que ela esteja presente) ou mesmo da autoanálise. O tom é de negar a todo instante a personagem engessada que tentaram dar a ela nessa grande ficção do glamour da contracultura. 
 
O livro, portanto, funciona tanto para quem sempre foi fã ou acompanhou um pouco a carreira do Sonic Youth - estão lá os relatos de como cada disco surgiu e de como algumas músicas diziam mais ou menos respeito ao que ela e a banda viviam - quanto para quem de alguma forma se interessa pelo universo do qual o livro diz respeito, seja a música em si e seu backstage (o momento em que ela recorda carinhosamente de Kurt Cobain e descreve Courtney Love como uma egocêntrica descontrolada é particularmente envolvente), seja algo mais amplo como a curiosidade pela visão de uma artista mulher com voz própria em um ambiente onde a guitarra é a extensão fálica de uma certa forma de poder. 
 
Quanto ao texto em si, não esperem a poesia de Patti Smith nessas páginas, mas há algo cru e às vezes até ingênuo nas palavras de Kim Gordon que faz da autora alguém com quem facilmente conseguimos nos corresponder.

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