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A literatura nos ensina que, entre as vias aquáticas intermináveis e a ideia de família, existe uma disfunção progressiva. Contemplamos os marinheiros conradianos, a coragem doentia de Ishmael, os núcleos familiares apresentados por Philip Roth em Complexo de Portnoy e When she was good, com a flutuante sensação de curiosidade, temor, repulsa. Tanto no mar, como na construção de um afeto supostamente óbvio e natural, estamos diante do estranhamento. Nesses dois grandes espaços narrativos, o sujeito pode perder-se por completo, não importa quantos mapas, bússolas e diários de bordo estejam disponíveis. 
 
No encalço de temas tão labirínticos estão as escritas de Toine Heijmans, Arnon Grunberg, Tommy Wieringa e Arjen Duinker, todos autores holandeses recém-traduzidos no Brasil. Os quatro nomes fazem parte da lista de convidados do Café Amsterdã, evento organizado pela Fundação Holandesa das Letras (Nederlands Letterenfonds), que promoverá debates e encontros em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. O festival surge como certo tipo de comemoração para marcar o montante de títulos contemporâneos, produzidos nos Países Baixos, que serão encaminhados para lançamento e distribuição ao longo dos próximos meses. 
 
O mercado literário brasileiro parece apostar, com atento envolvimento, no boom holandês que se aproxima. O número de editoras é expressivo: sete estão participando da maratona proposta pelo Café, algumas com mais de um livro a ser lançado – Cosac Naify, Editora 34, Rádio Londres, L&PM Editores, Editora Rocco, Confraria do Vento, Martins Fontes. Outras, como Hedra e Intrínseca, também possuem projetos focados em autores provindos das terras do Mar do Norte. Segundo Joaci Pereira Furtado, consultor editorial da Fundação no Brasil, um dos pontos que ainda dificultam a chegada da literatura holandesa por aqui é o processo de adaptação linguística. 
 
Ele explica que, desde 2012, emissários da instituição visitam o Brasil e encontram-se com editores e jornalistas para apresentar programas de fomento à tradução. “A Fundação e, sobretudo, as editoras brasileiras enfrentam um problema grave: há poucos tradutores do holandês no Brasil, onde não há nenhum curso universitário desse idioma. Espera-se que alguma universidade se interesse em criar um, quiçá, em parceria com o governo da Holanda. Enquanto isso, a literatura holandesa continua desconhecida para a grande maioria dos leitores daqui. A iniciativa do Café Amsterdã é interessante para chamar a atenção para esse universo – mas será inócua se não se repetir ou expandir-se, formando público leitor e estimulando potenciais tradutores”, reflete Furtado. 
 
Apesar da distância idiomática que persiste, e, para além das organizações oficiais, incentivos independentes também ajudam na recente disseminação da literatura e da cultura holandesa. O tradutor Daniel Dago, entusiasta da língua e responsável por um trabalho focado na produção clássica do país, mantém um blog (www.literaturaholandesa.blogspot.com.br/) e uma página no Facebook intitulada Literatura Holandesa, nas quais divulga artigos da década de 1950 – obtidos na Biblioteca Nacional – e notícias recentes que envolvam a conexão Brasil-Países Baixos. 
 
De acordo com levantamento feito por Dago, cerca de 80 livros foram traduzidos para o português brasileiro nos últimos dois séculos. A quantidade é ínfima, de fato, e reforça os embaraços linguísticos perpetuados até o momento atual. Na oportunidade do contato, enfim, estabelecido, os leitores irão deparar-se com mares afoitos, homens perturbados, famílias destruídas, a paternidade como sinônimo de obsessão e a irritante busca pela fuga infinita – atitude de quem sabe não ter nada a perder. 
 
A literatura contemporânea holandesa tem como personagem central a dissimulada hiena invisível que nomeia o quadragésimo nono capítulo de Moby Dick. Escreve Melville: “Há certas circunstâncias e ocasiões bizarras neste estranho e caótico negócio que chamamos de vida nas quais um homem considera todo o universo uma grande piada, ainda que mal perceba a sua graça, e mais do que suspeita que a piada seja feita à sua custa. No entanto, nada o desanima, e nada parece valer o esforço de uma disputa”. Nos livros que serão analisados a seguir, cartuchos e pedras de fuzis são engolidos por homens que possuem, como diz Melville, um “tipo estranho de humor caprichoso”: aquele estado de espírito que permite compreender, nos momentos de tribulação extrema, a enorme piada coletiva cuja saída jamais existiu. 
 
Gigante de força descomunal 
 
“Penso que muita gente vê o mar como uma rota de fuga – pelo menos, Donald vê. Ele pensa que será livre enquanto estiver velejando sozinho. Mas claro, isso é uma fata morgana (espécie de delírio que se conjura no horizonte). No mar, principalmente quando sozinho, muitas regras precisam ser obedecidas se você quiser, no mínimo, sobreviver. Na verdade, o cotidiano familiar é muito mais liberto do que estar em solidão marítima”, escreve Toine Heijmans, de Amsterdã, para o Suplemento Pernambuco. O escritor e jornalista assina No mar (Cosac Naify, tradução de Mariângela Guimarães), romance no qual podemos seguir os intervalos entre magnitude aquática e convívio doméstico através de Donald, personagem que empreende navegação solo em seu veleiro vermelho – nomeado Ishmael. 
 
Para Heijmans, o livro é sobre um homem que se debate, freneticamente, no desejo de tornar-se uma espécie de super-herói em todas as áreas: afetiva, profissional, paterna, náutica. “Donald leva essa ideia para o mar apenas para jogá-la, repetidas vezes, em sua própria cara”, pontua o escritor. No ensaio intitulado É possível pensar o mundo moderno sem o romance?, Mario Vargas Llosa grafa: “Não a ciência, mas a literatura foi a primeira a examinar os abismos do fenômeno humano e a descobrir o apavorante potencial destrutivo e autodestrutivo que também o conforma”. Em No mar, o holandês trabalha sempre com essas duas possibilidades de ruína.
 
O velejador permanece, durante toda a narrativa, pressionando um tipo de “controle” metafórico no qual a tensão ora cai sobre a tecla correspondente ao seu fluxo psicológico angustiado, ora sobre o botão que se destina à disciplina necessária para manter-se navegando. Um movimento anula o outro; Donald balança conforme a dança destrambelhada de seus dedos. O que se projeta em ambos os lados do controle é a paternidade e seus desdobramentos.
 
Um dos fios condutores do romance é a ansiedade que o personagem lança em direção ao relacionamento com sua filha. A linguagem utilizada para construir esse discurso denota uma agonia ainda no gatilho, como uma bomba pronta para explodir, mas não agora. A impressão é de que, mesmo se o barco afundar, não haverá arrebentamento suficiente. Sobre o exercício de seu estilo ao longo do texto, Heijmans conta que estava ciente da dificuldade em tratar de uma temática às vezes associada ao sentimentalismo excessivo e, por isso, tentou trabalhar com essa linguagem mais contida. “Por outro lado, eu queria construir um suspense atrelado à história e às indagações que emergem a partir da função paterna. Acredito que os escritores não devem ter medo de explorar técnicas que resultem em expectativa por parte do leitor”, conclui. 
 
De acordo com o holandês, as frases curtas também são decorrentes da influência do local onde escreveu quase todas as páginas de No mar: seu pequeno barco, atracado num porto holandês. “Eu gostava de ouvir, durante o processo de criação, o barulho da água. As pausas entre as sentenças são como as ondas batendo no casco do barco”, observa. Deveras, Heijmans não ficou apenas no romantismo que ronda a sua afirmação. O jornalista alcança um ritmo de escrita refreado, que golpeia sem machucar e, ao mesmo tempo, embala sem gerar enfado, como no início do terceiro capítulo: “Thyborøn ficou para trás há quarenta e quatro horas. São duzentas e trinta milhas náuticas de distância. O percurso de lá até aqui já não importa. O importante agora é manter tudo inteiro. Tudo ainda está intacto. O barco está lindo. Convés arrumado. Velas altivas. A cabine é baixa; consigo ficar em pé por pouco. Pelas pequenas vigias vejo o mar, como se eu fizesse parte dele. Como se estivesse nadando”. 
 
Talvez, o principal acerto do livro seja abraçar, de forma benevolente, o narrador excessivo em seu desejo por preencher-se com todos os mínimos detalhes do modelo patriarcal. Êxito esse que não se trata de escolha segura, mas sim do propósito em manter uma história aberta a partir da flutuante sensação que definimos no início deste texto – curiosidade, pânico, repulsa. Ao colocar Donald como sujeito imerso num alerta incurável, não importa seu cansaço ou delírio, Heijmans deixa o leitor diante de inúmeros preenchimentos (situações que acontecem entre uma mudança narrativa e outra). 
 
Existe uma bela contradição em No mar. Apesar de o romance ser o resultado da tentativa de Heijmans de reger grandes temáticas, a construção do discurso é formada, na verdade, por “ações humanas significativas”, expressão desenvolvida pelo teórico Franco Moretti no ensaio O século sério. Sim, temos o mar e as suas criaturas mirabolantes; sim, a paternidade pode ser tanto impostura social quanto dedicação infinda de afeto. Mas aqui, como num quadro de Johannes Vermeer, a “narrativa não é feita apenas de grandes cenas”. Uma espécie de cotidiano sobrepõe-se à catástrofe; o que consideramos antes como ápice do perigo é apenas o seu entorno. 
 
Mas só nos damos conta dessa sobreposição nas páginas finais. Ao longo do livro, o lugar de leitura converte-se em incerteza menos pelo fato de estarmos todos em deriva imaginária no meio do Mar do Norte do que por percebermos, desde as primeiras linhas, a falta de sensatez do narrador. Heijmans demonstra entendimento da voz que ecoa na escrita como mecanismo primeiro na ideia de exercício literário. Afinal, é através desse discurso que se estabelece qualquer geografia, loucura ou glossário náutico diante dos olhos de um leitor.
 
Bom [disse o doutor]. Agora a gente pode começar.
 
Antes de pensarmos em Complexo de Portnoy como exemplo de obra relacionada ao conceito de distúrbio, podemos criar uma associação daquelas que só a bruxaria da literatura nos permite. A premissa da maravilhosa piada desprezível apresentada por Melville em Moby Dick encontra no relato de Alexander Portnoy o paralelo certeiro. Se o fazer literário consiste em escrever sempre um final para algo do passado, como afirmou o bósnio Saša Stanišić durante a última edição da Flip, a novela de Roth é uma das sequências possíveis para essa premissa do clássico norte-americano. 
 
Nesse desenrolar perpétuo da literatura – ação que proporciona, sem nenhuma justificativa, o embate entre passado, presente e futuro – chegamos a Tirza (Rádio Londres, tradução de Mariângela Guimarães), de Arnon Grunberg. No romance, considerado um dos maiores destaques da literatura contemporânea holandesa, Grunberg monta a equação composta por paternidade e angústia do homem branco cujo algoritmo final é Jörgen Hofmeister, personagem que se mantém entre a neurose, a normatização e o machismo.
 
Construída através de um processo gradual de revelações, a força do protagonista é inquestionável, porém, dolorosa. Se em No mar, Donald é acolhido, durante sua expedição esquizo, pelas alternativas de abertura da trama, em Tirza ficamos à frente de um outro passivo-agressivo, pronto para atacar de maneira silenciosa. A frase de abertura do livro é um simples e eficiente truque: “Jörgen Hofmeister está na cozinha cortando atum para a festa”. Grunberg foca nas alusões fáceis (peixe e cozinha, sinônimos de aconchego; festa, sinônimo de celebração) e camufla o corte, a faca, substantivos que têm o poder de síntese tanto do tom, quanto do enredo que será desenvolvido a partir dali.
 
Assim como Heijmans, o escritor faz uso das “ações humanas significativas”. Mas, aqui, elas acontecem com o intuito de suscitar pequenas dilacerações. A rotina familiar em Tirza é violenta, não importa o grau de amenidade que a linguagem pretenda nos oferecer. Escreve Grunberg: “Hofmeister apanha uma bacia cheia de arroz morno, amassa um bolinho e, enquanto está ocupado com isso, observa o caixilho da porta da cozinha como se nunca tivesse usado a bancada da pia antes. Vê a tinta descascando, um ponto fosco no papel de parede junto ao caixilho, onde uma vez bateu um sapato que Tirza tinha jogado em sua cabeça. Antes disso ela havia gritado ‘babaca’. Ou depois, ele já não sabe ao certo. Foi sorte a vidraça ter ficado intacta”. 
 
Na mimada figura de Tirza, sua filha mais nova, Hofmeister colide com desejos obsessivos disfarçados de adoração e extremo cuidado. Já nos primeiros parágrafos, Grunberg explana sobre a ausência maternal naquela família, situação essa que tragou todos os membros – o pai, Tirza e filha mais velha, Ibi – para o espiral depreciativo de autoflagelação que só um fantasma ainda vivo pode gerar. “O tempo não cura todas as feridas, descobriu. O tempo rasga e abre ainda mais as feridas, provocando intoxicações e infecções”, afirma o narrador observador. 
 
Enquanto revive uma briga de seus pais, Portnoy empreende as perguntas sem respostas geradas pelas lacunas de uma memória do susto. “A cena em si é como um móvel pesado, na minha mente, impossível tirar do lugar – o que me leva a crer que a coisa aconteceu, sim”, diz o advogado. Desse modo também nos atinge o estilo de Grunberg: não conseguimos arrastar a incômoda mobília com incontáveis farpas de madeira cortando a nossa pele. 
 
Caçadas e marinheiros
 
Tanto nas perseguições por qualquer recompensa quanto na decisão de alinhar uma iole de cruzeiro, com a âncora, sem que as suas velas batam ao vento, sobrevive a concepção de exílio. No romance de Tommy Wieringa, chamado Joe Speedboat (Rádio Londres, tradução de Cristiano Zwiesele do Amaral), e na coletânea poética da Antologia provisória, de Arjen Duinker (Confraria do Vento, tradução de Arie Pos), as vozes narrativas – mesmo acompanhadas de outros personagens e envoltas em relacionamentos afetivos – estão absortos em seus respectivos isolamentos. 
 
Em Joe Speedboat, o narrador anuncia sua situação, após voltar para casa de um acidente que quase o deixou paralisado por inteiro, da seguinte maneira: “[...] eu, Fransje Hermans, com apenas um braço funcional suportando quarenta quilos de carne morta. No passado, já me vi em melhores condições. [...] Tenho de me mandar deste lugar o mais rápido possível. Eles estão me enlouquecendo com tanto vaivém ao redor da cama e com toda essa conversa mole sobre comércio e tempo”. O então garoto mora na cidade fictícia de Lomark, uma região que aprisiona, por motivos aleatórios, todos os seus moradores. 
 
Na vontade da caça está intrínseca a urgência pelo retorno. Os personagens de Wieringa perduram naquele lugar; clamam pela volta eterna e não sabem nem o porquê de almejá-la com tamanho afinco. “Nós ainda continuamos aqui”, conclui Hermans na derradeira sentença do livro. Algo próximo à insistência, sem razão de ser, do alucinante comandante Ahab. No fim, a tripulação do baleeiro, assim como os habitantes de Lomark, são devorados, e isso vai além do significado de entrega. Joe Speeboat é sobre pessoas que não acharam a saída por que, talvez, sentem deleite na teimosia de fincar os pés mesmo quando não existe mais navio ou casa que os sustentem. 
 
De forma semelhante a No mar, os versos de Duinker também possuem uma ode aos pormenores náuticos, como no trecho do poema E, presente na Antologia provisória: “O mistério não fala para mim / A mística não fala para mim / E tampouco a metafísica / Prefiro as intenções da proa / E as certezas pacientes da âncora”. 
 
Nessa temática, o destaque fica para Sailor’s home, um dos títulos mais extensos do livro, que expõe bonitos fragmentos, aos quais fica difícil passarmos incólumes: “De repente, os elementos soltam as entranhas. / Relâmpagos formidáveis marcam a rota para o porto. / O cheiro de cabelos soltos é implacável e fabuloso. / O navio avança ao encontro da cisão de realidades, / Navega através de fatos insonoros e fatos ruidosos. / Todos os fatos se reúnem aqui para escolher palavras, / Todas as palavras se juntam para fazer sonhos, / Tão bem que o bater das velas deixa de existir.
 
Porém, a despeito do eu lírico dirigido a referências que poderiam denotar um aspecto afável – flores, percepções oníricas, lágrimas, nuvens – podemos reconhecer uma frieza latente. Essa identificação não afasta, mas sim produz certo desvelo tardio; a conquista que ultrapassa a simples beleza da escrita e estimula, aos poucos, a invasão do leitor no texto. Em alguns poemas, o holandês abusa das repetições e a metrificação pode trazer impaciência para a leitura. Mas, de todos os escritores aqui citados, Duinker surge como uma boa surpresa do Café Amsterdã. Sua poesia prende consigo qualquer coisa do contemporâneo que nos faz entrar no cobiçado vórtice literário da memorização; mais ou menos como um carimbo sem falhas no meio de nossa página preferida. Ou ainda, como no momento em que parecemos saber o exato local de um livro nas prateleiras da biblioteca de Babel – quando, na verdade, não sabemos até encontrá-lo novamente. 
 
Apêndice
 
Não sou Mariana / e tu não és Chamilly // A minha história / é outra / e começa agora // Estou sempre / a começar. (Adília Lopes em Dobra: poesia reunida 1983-2007)
 
Este anexo propõe investigar, brevemente, a presença feminina na literatura contemporânea holandesa recém-traduzida no Brasil. Uma observação antes de continuarmos no universo da escrita: Três autoras do país europeu estarão presentes no evento oferecido pela Fundação Holandesa das Letras. São elas: Janny van der Molen – jornalista e teóloga, autora de livros infantojuvenis, entre eles, O mundo de Anne Frank (Editora Rocco) –; Barbara Stok, autora de Vincent (L&PM Editores),história em quadrinhos na qual um período turbulento da vida do pintor é retratada; Marjolijn Hof, também escritora YA (young-adult), que assina Um fio de esperança (Martins Fontes). 
 
Na biografia dessa última, disponível no site oficial da instituição, está grafado: “é um dos autores mais bem-sucedidos em livros infanto-juvenis (...)”. Até este momento – manhã do dia 17 de agosto – o erro não foi corrigido. De volta à produção ficcional. Como vimos ao longo dos intertítulos anteriores, os romances holandeses que chegarão por aqui são protagonizados por homens brancos, heterossexuais e com algum tipo de neurose, psicose ou problema de saúde grave. Enfim, personagens doentes e egoístas que procuram contar sua história como expurgo da maldição que os assola. Até aí, nada de muito novo no front. 
 
No entanto, na base de cada uma das narrações, está a mulher que se alterna entre: a) não ser ouvida ou levada a sério; b) mãe protetora, complacente com as imaturidades do marido; c) malévola, fria e sem coração; d) alienada; e, em última instância, a personagem que se submete aos pensamentos patriarcais constantes nos textos de No mar, Tirza e Joe Speedboat. Dos três, o que chama mais atenção e abrange mais letras expostas acima é o drama de Arnon Grunberg.
 
A família Hofmeister possui o clássico protótipo do homem como dominador absoluto. Jörgen é o maestro da casa e, claro, nem sempre estará em sua melhor performance. Mas, não importa, a visão dele é a que vai prevalecer. Seus medos, dúvidas e anseios serão captados sem parar, até o fim. Os romances manifestam – Tirza em especial – a ideia da personalidade perturbadora que encobre a violência (seja ela qual for) e reforça a mudez censurada do outro. São enredos que reforçam o “calo porque não quero desestabilizar você” e nunca a autonomia do “calo porque não tenho o que te dizer”.
 
A escolha de Adília Lopes como citação de abertura deste apêndice foi devido a sua relação direta com as tais “ações humanas significativas” que tanto falou Moretti e que parece eclodir na literatura holandesa contemporânea. Ao lermos a poeta portuguesa, lembramos: não só a história pode ser outra, como também os personagens que caminham pelas beiras narrativas devem, sim, participar dela. Afinal, a marginalidade dos que não se submetem aos enfadonhos e insensíveis padrões é tão cotidiana quanto nadar na imensidão do mar gelado.

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