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O romance policial clássico, como arquitetado por Edgar Alan Poe, é a maior definição possível do mundo da inteligência, da razão ainda íntegra e altiva num entorno que começa a se despedaçar. Num texto sobre o problema de tamanha radicalização, a pesquisadora Bella Josef escreveu: “Por uma necessidade própria do gênero, o autor policial sabe demais, o que o conduz a conclusões por vezes apressadas. A infalibidade do detetive vem do fato de que é o mesmo cérebro que imagina a história e inventa as provas, quando, na vida, há o criminoso de um lado e o policial do outro. É um dos paradoxos do romance policial. Corre o risco de ser muito científico, porque a coisa a provar e a prova são concebidos juntos. Apresenta um excesso de lógica e pode dar a impressão de artifício”.

 

E é justamente essa impressão de artifício que emperra a leitura de Um lugar perigoso, mais novo integrante da saga interminável do detetive Espinosa, imaginado pelo escritor Luiz Alfredo García-Roza. Desde que decidiu fazer da carreira de autor policial seu principal foco, após uma carreira de livros sobre psicanálise e filosofia, o autor nunca largou mão de alguns preceitos clássicos do gênero: um detetive fixo a nos acompanhar pelos crimes, uma cidade que acaba se tornando personagem da trama (no caso, o Rio de Janeiro, vertida em cenário noir) e a certeza matemática de que o mistério será resolvido nas últimas páginas. Aconteça o que acontecer.

 

Essa última característica talvez seja a mais questionável: nas últimas décadas, mais e mais autores vêm buscando desconstruir as prerrogativas do romance policial, provando que mistérios não precisam mais ser solucionados. A certeza da modernidade não faz mais sentido. A dúvida é a nossa marca. A questão não é mais quem cometeu o assassinato, mas quem criou a memória dessa morte, quem persiste com essas mesmas cenas na cabeça, apesar de terem passado tantos e tantos anos? O assassino é tanto uma aparição fantasmagórica quanto o próprio morto e, quem sabe, até mesmo o detetive em questão. Papéis que se misturam, porque não há a certeza de um grand finale clássico. Afinal, a investigação se dá em torno de lembranças e fantasias.

 

Em Um lugar perigoso, García-Roza até tenta subverter nossas expectativas. Sabemos logo de cara quem é o assassino, mas a engrenagem construída para que entendamos o funcionamento da sua mente, acaba sendo previsível. Essa busca por explicações detalhadas, racionais, inclusive, levou a grandes furos de trama nas aventuras recentes de Espinosa. Aqui, no entanto, o problema maior é o déja vù da dúvida, que nos vitima logo de cara. Talvez, após anos de série, o melhor que possa acontecer para o herói (e Espinosa é um “herói”) seja um caso insolúvel. Um crime que, de tão perfeito, possa talvez nem ter acontecido de fato.

 

 

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