Ilustração por Hallina Beltrão

 

Há alguns meses, foi lançado o aplicativo Secret, que oferece a você a oportunidade de revelar aos contatos do Facebook seus segredos mais íntimos — desde que encobertos pelo anonimato, tanto seu quanto os de seus seguidores. No mundo proposto pelo romance O círculo, de Dave Eggers (Companhia das Letras, 521 págs.), esse aplicativo datou: Eggers imagina um mundo em que a transparência seja total. Nesse mundo é impossível fazer segredos. Ali, segredos são mentiras. Compartilhar é cuidar. Privacidade é roubo.

 

Caso você tenha lembrado os slogans de George Orwell, está em casa: O círculo é uma distopia tão terrível quanto 1984, e também usa a linguagem como centro catalisador da tirania e da opressão. A grande sacada de Eggers, no entanto, está em temperar Orwell com o Aldous Huxley de Admirável mundo novo. Ao contrário da horrorosa realidade de Orwell (que bebeu muito em Kafka), Huxley imaginou uma distopia invertida — em que todos fossem felizes, geniais, lindos e poderosos. E é o que faz Eggers nesse romance, a começar pela primeira linha: “Meu Deus, pensou Mae. É o paraíso”.

 

O paraíso é o Círculo, uma mistura de Google, Apple e Facebook, poderosa corporação ambientada em San Vincenzo, fictícia cidade da Bay Area californiana. É a empresa em que todos sonham trabalhar, pois lá os limites entre trabalho e lazer estão dissolvidos (como na Google); é liderada por uma trinca de gênios messiânicos (como foi a Apple em relação a Steve Jobs); e seu foco é o estabelecimento de uma rede social global (como a Facebook). A corporação cria gadgets como a câmera SeeChange, do tamanho de um pirulito, tão poderosa, barata e de tão baixo consumo de energia, que as pessoas a espalham por livre vontade por todo o planeta (pense nos smartphones da Apple); impele-se a desafios aparentemente inverossímeis, como contar todos os grãos de areia do Saara (hoje mesmo li que o Google Maps está documentando o Saara usando camelos); e monetiza as postagens dos usuários de sua rede social, aumentando os lucros do próprio negócio, impelindo as pessoas a espontaneamente trabalhar de graça (olá, Mark Zuckerberg). Em suma, o Círculo é uma reunião das mais poderosas corporações do Vale do Silício, que ainda aglutinaram as start ups mais arrojadas e as mentes mais empreededoras. Entrar no Círculo é fazer parte da elite planetária, é como ser aluno de Oxford ou Harvard; não por acaso, a empresa também é chamada de campuse oferece a seus funcionários mais esforçados alojamentos deliciosamente confortáveis — porque uma hora é natural que se pense: “Mas pra que vou pra casa mesmo?”.

 

Mae é uma garota de vinte e poucos anos que entra no Círculo tanto por seu brilhantismo escolar quanto por ser amiga de Annie, que integra o grupo dos 40 profissionais mais ambiciosos do Círculo. Doce, ingênua, esforçada, egressa de uma cidade do interior, talentosa, porém frágil emocionalmente, Mae é o espelho inverso de Annie — rica, ambiciosa, sarcástica, de personalidade autocrática e descendente dos primeiros imigrantes que vieram da Inglaterra aos EUA no Mayflower, portanto membro da elite criadora do Destino Manifesto. Annie é tudo o que Mae quer ser, e, para isso, não hesitará em dobrar sua psicologia ao avesso. Ela vai trabalhar em um setor chamado Experiência do Cliente, em que fala com centenas de pessoas o dia todo, e é o tempo todo analisada através de pesquisas de satisfação — logo na sua primeira semana, sua média é 97, o que a torna uma estrela em potencial. Enquanto faz sucesso junto aos chefes e à sua amiga Annie, a bela Mae passa a ser disputada por dois homens, em tudo antagônicos. Um é Francis, um órfão inseguro que, por ter sido abusado na infância, criou um sistema para monitoramento de crianças. O outro é Kalden, um misterioso grisalho com quem tem transas selvagens. Mae reserva sentimentos ambivalentes para com os dois: Francis lhe causa repulsa e pena; Kalden, atração e medo.

 

Além desse núcleo de personagens, existem aqueles seres que habitam o exterior do Círculo. Os pais de Mae, um humilde e simpático casal, que, depois de venderem um estacionamento, vivem de renda e se ocupam basicamente do tratamento do câncer do pai. São visitados regularmente por Mercer, um ex-namorado de Mae que virou um artista plástico meio hippie. Hippie é também um casal que vive em um barco, com quem Mae travou amizade ao praticar seu solitário hobby: a travessia da Bay Area a bordo de um caiaque. Quer dizer, o hobby era solitário até que fosse capturado por câmeras SeeChange.

 

Estruturado dessa maneira, o romance poderá parecer ao leitor algo esquemático — e é mesmo. Na verdade, o esquematismo dessa ficção científica especulativa (subgênero em que a realidade imediata é exagerada e ambientada em um futuro próximo) é seu trunfo e seu problema. É o esquematismo, aliado à energética prosa de Eggers e sua poderosa capacidade de descrição, que faz do romance uma máquina narrativa. A prosa carrega algo do funcionamento dos games: vamos acompanhando a vida de Mae conforme ela muda de fase, sempre torcendo para que sua ascensão não pare nunca, como SuperMario em busca de sua princesa. A identificação que Eggers estabelece entre o fictício Círculo e nossa realidade (Google, Apple, Facebook) também é engenhosa, e esse tipo de falso documentário nos parece tão sedutor e intimista quanto o filme Her, de Spike Jonze, outra ficção científica especulativa que trata de nossa tecnodependência.

 

No entanto, o romance de Eggers parece vítima de sua perspectiva. Ele é todo narrado na terceira pessoa, com sutis e breves mergulhos no discurso indireto livre (em que o narrador se cola tão de perto à personagem enfocada, que parece mesmo uma câmera pousada em seu ombro). De William James a Ian McEwan, esse é o recurso dos grandes narradores, só que não é fácil usá-lo — e por isso Eggers sempre retorna à onipresente, mas confortável terceira pessoa. Lá pelo meio do romance, a metáfora da câmera-no-ombro é, aliás, concretizada de modo muito original, quando Mae se torna a primeira pessoa “transparente”: como cobaia do Círculo, ela passa a usar uma câmera em um pingente pendurado no pescoço, e se torna uma supercelebridade global. Na verdade, o pingente é um computador vestível (termo inventado pelo cientista Steve Mann; hoje é aplicado tanto ao Google Glass quanto ao iWatch, relógio da Apple) que transmite ao público tudo o que ela está fazendo — é-lhe permitido desligar a câmera durante alguns minutos em que passa no banheiro, e quando vai dormir.

 

Assim, quase todo o romance é narrado na onipotente e onipresente terceira pessoa, e esse Big Brother particular é, portanto, o veículo que “transmite” o romance na voz neutra de Eggers, que jamais reflete de modo crítico sobre sua personagem; na verdade, o correto seria dizer que, justamente, reflete a personagem. Seu texto também é transparente: não há nenhum vestígio de ironia. Como o filme de Spike Jonze, quase parece um conto de fadas. E aqui temos o problema. Por sabermos tudo o que se passa no corpo e na mente de Mae, não guardamos suficiente distância de sua psicologia — e ela se torna uma personagem previsível. Faz exatamente o que achamos que vai fazer — ainda que faça coisas horripilantes. Nos momentos em que Eggers coloca seu mundo em xeque — em seus embates com os pais, com Annie e com os namorados —, ela vai escolher as alternativas mais deprimentes, mas ao mesmo tempo mais óbvias. Não há curva dramática como a existente, por exemplo, na série Breaking bad — em que um sujeito pacato se torna um supervilão, mas ao mesmo tempo continua a ser o sujeito pacato, porque, de certo modo, o supervilão já morava no sujeito pacato desde o início. Por estarmos demasiado colados a Mae, perdemos a empatia que tínhamos por ela em seu fresco começo. E passamos a ter uma espécie de nojinho. (Algo parecido com aquele sentimento que, às vezes, temos ao ver no presente alguém que, no passado, amamos — e, por isso mesmo, conhecemos demais.)

 

Com sua ficção especulativa calcada na realidade imediata, Eggers acabou inventando um bicho estranho: um romance de ficção baseado na não ficção. A intersecção de gêneros é recorrente em sua obra — tome-se por exemplo a obra-prima da não ficção que é O que é o quê, biografia romanceada de Valentino Achak Deng — um dos Meninos Perdidos do Sudão —, aliás, narrada na primeira pessoa. Eggers é um entusiasta do jornalismo literário, como se pode observar nos cursos, eventos e produtos de não ficção lançados por sua McSweeney’s, a editora mais cool do mundo. E só pela criação da The Believer — melhor revista de literatura do planeta —, Eggers será sempre louvado, abençoado e profundamente invejado por este comentarista.

 

No entanto, como romancista de literatura de invenção, o bostoniano de 44 anos ainda deixa um pouco a desejar. Ficamos assim: insuficiente na percepção da psicologia de sua protagonista, e longe de se aproximar de visionários como Huxley e Orwell, O círculo é um tenebroso documentário e diagnóstico da realidade que já vivemos. Há uma cena chocante em que, sem querer, com a microcâmera atada ao pescoço, Mae publica um vídeo pornô. Mas, poxa, casais jovens já registram a si mesmos em momentos pós-coito no Instagram e sobem suas transas no PornoTube: é questão de tempo compartilharem carícias e sevícias no Facebook ou gravarem pornôs caseiros para espantarem com os amigos o tédio dos domingos (na verdade, já tem gente fazendo isso, e não falo da sex tape de Kim Kardashian e Kanye West). Num capítulo, assistimos a uma morte ser produzida ao vivo. Mas quantos snuffie movies já não estão sendo divulgados no UOL e no G1 neste exato instante? Em outro momento, o Círculo sugere que todos os políticos fiquem “transparentes” — ou seja, que saibamos minuciosamente tudo o que fazem —, e que todas as pessoas votem usando o perfil de sua rede social. Mas nas últimas eleições vimos o quãoespontaneamente os usuários de diversas redes sociais já divulgam seus votos. Não deve demorar muito para que a Justiça Eleitoral seja terceirizada para o Facebook. O futuro está perto demais d’O Círculo para que o visitemos com os sustos sempre renovados em 1984 e Admirável mundo novo. E, lamentavelmente, o quadradinho desfecho do romance tem um quê de fatalismo — que, sim, também está presente no término de 1984, só que ali não há nada parecido com “moral da história”. Eggers está determinado a nos dizer: vejam aonde estamos indo. Talvez daqui a somente 10 anos os leitores respondam: vejam como chegamos aonde chegamos. E, daqui a 20 anos — se ainda houver leitores daqui a vinte anos —, poderão dizer: vejam onde achavam que estaríamos. Sabiam de nada, inocentes.

 

 

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