Ilustração por Janio Santos

 

Tatiana Salem Levynunca deixou de ler livros infantis, tanto que mantém uma pequena biblioteca do gênero. E quando se sente mais “livre”, escreve os seus próprios. No processo de escrita, é fascinada pelo fato da verossimilhança da narrativa mudar, afinal “as crianças têm mais facilidade de embarcar nas histórias, o que é algo amplificador”, acredita. É possível escrever até sobre um caçador que vai buscar leite na lua só porque um outro personagem mandou.

 

Há poucos meses, Tatiana lançou Tanto mar, a sua segunda obra infantil — a primeira foi Curupira pirapora —, que lhe rendeu o Prêmio Machado de Assis de 2014, na categoria Infantojuvenil. O livro surgiu enquanto realizava pesquisas para seu novo romance, em uma ilha isolada no Maranhão, com cerca de 300 moradores. Foi quando ficou imaginando como deveria ser a infância naquele lugar conectado ao resto do mundo somente pelo mar.

 

Resolveu, então, transformar aquilo em uma história carregada de melancolia, potencializada pelos tons de azul que predominam nas ilustrações de Andrés Sandoval: “Sempre há algo melancólico quando escrevo para as crianças. Às vezes as subestimamos, não precisa ser tudo feliz, o final do Menino maluquinho é triste pra caralho e essa também é uma forma de se descobrir o mundo. Não gosto da ideia de se contar só coisas divertidas. As dores da vida também cabem na literatura infantil”.

 

Tatiana, autora dos adultos A casa da chave e Dois rios, segue o que podemos considerar uma tradição brasileira: escritores consagrados se aventuram (e aqui não há carga pejorativa alguma em “se aventurar”) na literatura infantil e juvenil. Para ficarmos apenas em alguns exemplos, Amado escreveu Mar morto, mas também O gato malhado e a andorinha Sinhá; Cony escreveu Quase memória, mas também O laço cor-de-rosa; Clarice escreveu A hora da estrela, mas também A vida íntima de Laura; Graciliano escreveu Vidas secas, mas também Alexandre e outros heróis.

 

Atualmente, Tatiana está bem acompanhada em sua “dupla” carreira literária. São muitos os autores de destaque na atual cena literária nacional que seguem pelo mesmo caminho, confessadamente inspirados por nomes como Ruth Rocha, Lygia Bojunga, Ziraldo, Carlos Marinho, Monteiro Lobato e Marcos Rey — além dos estrangeiros Lewis Carroll e Saint-Exupéry.

 

Às crianças

Como na obra de Tatiana, a melancolia também está presente em Sandiliche, de Ronaldo Bressane (Infernos possíveis e Mnemomáquina). Ronaldo diz que é importante não tratar crianças de modo “infantiloide”, mas “apresentar a este público narrativas com linguagens escrita e visual sofisticadas, sem tatibitate, com enredos intrigantes, intersecção criativa de texto e imagem, e não necessariamente um registro ‘bem-humorado’ ou ‘divertido’. Meu livro não é nada divertido, talvez, até um pouco depressivo, e tem um desfecho bastante melancólico. Ou seja, o contrário do que se estabelece por ‘literatura infantojuvenil’, com bichinhos coloridos, personagens fofos e historinha abobada”. O autor acredita que esse pode ser o motivo do retorno positivo que tem recebido pela obra. Retorno que vem não apenas de crianças, mas também de pais e avós. “Parece que o livro realmente dialoga com ambos os públicos”.

 

O tema central do livro de Ronaldo é a solidão na infância, retratada por meio da camaradagem entre um garoto e seu amigo invisível, numa história narrada pelo homem que o menino se tornou (que foi “ficando mais velho até ficar velho”). A narrativa nasceu de uma exigência de Gilson Rampazzo, que tocava uma oficina de criação literária da qual Ronaldo participava e pediu para que os alunos fizessem algo com o tema do “duplo”. Então, inspirado por alguns de seus mestres da literatura fantástica, como Julio Cortázar, Philip K. Dick e Guimarães Rosa, o escritor construiu uma história que julgou adulta, mas, após comentários, percebeu que realmente poderia se tratar de algo infantojuvenil. Ou não. “Quem sabe não seja mesmo um texto para adultos, nem para crianças: daí eu optar pela definição de ‘infanto-senil’, afinal, une as duas pontas da vida”.

 

Endrigo — o escavador de umbigo, de Vanessa Barbara (O livro amarelo do terminal e Noites de alface), saiu de uma sugestão da editora e conta a história de um menino de onze anos que fica em recuperação de história e faz uma apresentação de final de ano centrada literalmente em seu emporcalhado umbigo. Revirando a sua “flunfa” — a sujeira que sai do seu umbigo —, Endrigo acha desde vestígios da papinha de maçã que comeu quando era mais criança até o relógio de parede de seu avô.

 

Vanessa, que promete ainda escrever um ensaio “sério” sobre a “flunfa,” parece ter gostado da experiência. “Eles (os pequenos) são mais sinceros. E objetivos. E sinto até maior liberdade, maior espaço para enlouquecer”, observa.

 

Outro que partiu da sugestão da editora foi Antonio Prata (Meio intelectual, meio de esquerda e Nu, de botas), autor de Felizes quase sempre. Depois que recebeu a proposta, ficou pensando nos clichês das histórias infantis, no “Felizes para sempre”, e se perguntou o que viria depois disso. A partir daí, criou uma narrativa com um menino e uma menina que, cansados de tudo ser tão perfeito, conversam com personagens clássicos, como Cinderela e os sete anões — também enfadados —, e resolvem procurar o próprio criador da história para que ele dê alguns temperos às suas vidas — uma chuva, um nariz escorrendo, um pernilongo... “Ali sou eu mas não sou eu, é um personagem dizendo que sou eu, como em minhas crônicas. Acho que quando o escritor entra, aproxima a história da criança. Assim como o texto em primeira pessoa se aproxima do leitor”, diz Antonio sobre sua “participação”.

 

Ele também conta que a principal diferença na hora de escrever para adultos e crianças é que, para os mais velhos, parte do princípio de que se escreveu para si mesmo algo inteligível e da forma mais clara possível, os outros também entenderão. Já para os mais novos é diferente: há a preocupação com o repertório infantil, então se perguntava constantemente se compreenderiam o que redigia.

 

Para finalizar a obra, Antonio trocou algumas ideias com Laerte, responsável pelas ilustrações do livro. Assim, vetou a sugestão de colocar uma bruxa voando sobre uma injeção ao invés da tradicional vassoura — considerou-a pesada demais. Mas achou ótimo quando o desenhista propôs o protagonista ser negro.

 

A proposta também agradaria a Ferréz (Capão pecado e Manual prático do ódio). O público-alvo de seu Amanhecer esmeralda é mais incisivo que o impreciso termo infantojuvenil: as meninas e mulheres negras. “Foi pensado para elas, porque nem todas as princesas são loiras”, diz. Como é recorrente em sua obra, o cenário da história é a favela, e o forte cunho social está presente. Esmeralda vive em uma casa onde, muitas vezes, não há o que comer pela manhã. Contudo, ao ganhar um vestido de um professor e um penteado afro da merendeira da escola, volta ao lar transformada. Seu pai, ao ver a beleza da filha, também resolve mudar: pinta a casa e se arruma para receber sua mulher. A metamorfose faz com que toda a vizinhança se mexa e o lugar onde moram ganha nova cara.

 

“Pensei num tema que ninguém aborda. Quem aborda os que não têm nada? Vistos de dentro dessa realidade, ainda mais pra criança. Mas criança também sofre com o muro social, e isso eu queria mostrar, e numa história de esperança, nada de baixa estima”, explica Ferréz. “Uma amiga me perguntou se eu tinha percebido que em todas minhas palestras tinha criança, embora meu tema seja pesado. Então criei a história e mandei sem compromisso. Minha editora adorou, agora já estou no quarto livro (infantil)”.

 

Aos jovens

Outro livro que apresenta críticas à sociedade é Fábula urbana, de José Rezende Júnior (Estórias mínimas e Eu perguntei pro velho se ele queria morrer). A história parte de uma situação vivenciada pelo próprio autor. Certa vez, em um shopping de Brasília, ele foi abordado por uma criança de rua que, contrariando as expectativas, pediu-lhe para que comprasse um livro. A partir disso, o escritor cria uma narrativa que se situa numa espécie de limiar entre a literatura infantil e a juvenil, já pendendo mais para a segunda, principalmente por conta da linguagem, em que pese o personagem ser uma criança, como no seguinte trecho: “O homem de terno pagava impostos e dízimos, estacionara o carro no estacionamento automatizado, guardara o tíquete no bolso do paletó azul-marinho, tomara o elevador panorâmico, escolhera o andar onde reluziam as lojas que desejava, fizera tudo certo. Tinha, pois, o direito sagrado e constitucional de não ser assim tão afrontado por tamanha realidade, ainda mais numa fortaleza projetada para resistir a toda e qualquer ofensiva da vida real. Ora, a única realidade permitida num lugar como este deveria ser a dos reality shows exibidos nas tevês de LCD das lojas de eletrodomésticos”.

 

Já estabelecido na faixa juvenil parece ser Amor de menino, de Miguel Sanches Neto (A máquina de madeira e Hóspede secreto), que narra a história de Mundinho, um garoto infeliz com o seu nome, Raimundo, e que vive problemas típicos de pessoas que transitam entre a infância e a adolescência. “O livro reflete muito a minha experiência — transfigurada ficcionalmente — na escola, quando a cada mês eu me apaixonava por uma nova menina”, conta Sanches Neto, que também buscou extrapolar aquilo que vê corriqueiramente na literatura do gênero. “Escrevi sem me preocupar em dar uma resposta certa ao leitor — este me parece ser um dos defeitos recorrentes na literatura infantojuvenil: o autor quer ajudar o leitor a resolver alguma coisa. No final, meu Mundinho continua com suas dúvidas de relacionamento, mas um pouco mais seguro de sua identidade”, diz. “Os textos para crianças e jovens têm um teto — este teto é de enredo e de linguagem. Ao mesmo tempo em que você deve respeitar tais limites, precisa tentar também ampliá-lo”.

 

 

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