Uerj genealogia ago17

 

Nesta quinta-feira (31/08), o escritor e crítico literário Silviano Santiago faz a aula inaugural da UERJ – universidade que, como sabemos, é alvo de um forte sucateamento político e econômico. Mas a UERJ resiste e, na fala que fará, Silviano tratará do ensaio Genealogia da ferocidade, escrito por ele e que tem como tema Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. O ensaio foi o primeiro título do Selo Suplemento Pernambuco, lançado em março deste ano. 

Por isso, hoje disponibilizamos um trecho de Genealogia da ferocidade como mais uma forma de os interessados entrarem em contato com as ideias de Silviano sobre um clássico da literatura brasileira. 

Silviano provavelmente fará a ponte entre a ferocidade de Grande sertão: veredas e a ferocidade dos alunos, professores e servidores da UERJ – mais necessária que nunca para resistir aos desmantelamentos que vêm sofrendo. A obra de Rosa fala de um sertão verde em meio a um país norteado por um projeto modernizador que leva em conta o concreto, o modernismo, as curvas brancas e sinuosas. É negligente com aqueles que não se encaixam nessa proposta. Grande sertão: veredas surge como elemento crítico a esse desenvolvimento que não se preocupa com as pessoas. 

 

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Publicado o romance [Grande sertão: veredas], Guimarães Rosa teve de aprender a enfrentar corajosamente a primeira e pouco auspiciosa recepção que lhe é dada. Despe-se da farda diplomática, embora guarde da profissão todos os ensinamentos retóricos que levam à boa negociação entre as partes e a arrematam, e constrói pouco a pouco – pelo recurso à vaidade pessoal e à indefectível gravatinha-borboleta a tremular no pescoço – a persona de escritor de gênio. Nos anos subsequentes à publicação do romance, é essa persona que recebe os admiradores brasileiros e estrangeiros que vão visitá-lo nas majestosas dependências do Ministério das Relações Estrangeiras, antigo e aristocrático palacete situado no centro do Rio de Janeiro. A petite histoire local narra em profusão historietas bem humoradas, saborosas e picantes.

Inicialmente, Grande sertão: veredas abre sorrisos e caretas nos leitores e recebe na cara o silêncio constrangedor dos romancistas e poetas então em destaque na capital federal. Os escritores membros do coro dos descontentes acabam por serem convidados a concederem entrevista ao boletim bibliográfico Leitura, editado no Rio de Janeiro e de nítida inclinação para a esquerda. Os depoimentos são reunidos em torno de título em si agressivo, “Escritores que não conseguem ler Grande sertão: veredas”. Exemplo estranho e alarmante de escritor desgostoso com o romance é o do jovem poeta Ferreira Gullar, autor do originalíssimo A luta corporal (1954) e corajoso crítico de arte da vanguarda. Declara: “Li 70 páginas do Grande sertão: veredas. Não pude ir adiante. A essa altura, o livro começou a parecer-me uma história de cangaço contada para os linguistas. Parei, mas sempre fui um péssimo leitor de ficção”. Embora menos alarmante, não será diferente a primeira recepção ao romance pelo crítico uruguaio/brasileiro Emir Rodríguez Monegal. Em depoimento para a parisiense Mundo nuevo (fevereiro de 1968), afirma: “Cada palavra, quase cada sílaba do romance havia sido submetida a um processo criador, que obrigava o leitor a progredir, se progresso havia, a passos de tartaruga. Custei um pouco a vencer a humilhação de crer que havia perdido uma das línguas de minha infância”. Dentre os muitos descontentes, o mais contundente é o romancista baiano Adonias Filho, líder de nova corrente literária regionalista e futuro membro da Academia Brasileira de Letras. Escreve e publica o artigo intitulado “Guimarães: um equívoco literário”.

1956. Onze anos antes, em 1945, os desesperados e raivosos alicerces ideológicos que vinham sustentando e inspirando os artistas brasileiros desde os anos 1930 tinham sido implodidos com a queda da ditadura Vargas no Brasil e a derrota das tropas nazifascistas no mundo ocidental. Se visto de outra perspectiva, a dos anos 1930, 1945 representa um grande corte anterior a Grande sertão: veredas nas artes brasileiras, já que aquele ano dá por terminada uma época extraordinária em que a produção artística no Brasil se notabiliza pelo engajamento político. Entre 1930 e 1945, destacam-se os livros em prosa participante, como o romance neonaturalista nordestino de Graciliano Ramos (Vidas secas, 1938) e de Jorge Amado (Terras do sem fim, 1943), ou as coleções de poemas empenhados, como os versos de Carlos Drummond de Andrade (Sentimento do mundo, 1942, e A rosa do povo, 1945) e, ainda, as telas impregnadas de denúncia social, como as de Cândido Portinari (a série Os retirantes, 1944).

Se esses e outros trabalhos de arte comprometidos com o discurso político não colocaram o Brasil no mapa-múndi da arte engajada internacional, pelo menos não nos deixavam fazer feio quando comparados aos que se tornavam os clássicos universais dos anos de guerra mundial, como é o sempre citado painel Guernica, de Pablo Picasso. No contexto das literaturas latino-americanas, a brasileira não chegara a alcançar os píncaros de Gabriela Mistral, de Miguel Ángel Asturias ou de Pablo Neruda (não por casualidade os três são recipientes do Prêmio Nobel de Literatura), mas se fazia conhecer e ser reconhecida no mundo europeu pelo recato e a modéstia que a língua portuguesa – nos versos de Olavo Bilac, “última flor do Lácio inculta e bela / és a um tempo esplendor e sepultura” – lhe confere desde o berço lusitano.

Se Grande sertão: veredas pouco ou quase nada tem a ver com os modestos, sofridos e lacrimosos vinte e seis anos literários e artísticos que o precedem, tampouco engrossa a enxurrada de louvações à mais elogiada – no Brasil e no estrangeiro – obra de planejamento urbano que tem sua idade. Refiro-me à utópica cidade de Brasília que – em desenho de leves, nítidas e belas linhas retas e curvas, de responsabilidade dos arquitetos urbanistas Oscar Niemeyer e Lúcio Costa – salta solitária em concreto branco, vidro e geometria feminina no distante, despovoado e árido planalto goiano. Apesar de obrigar o cidadão brasileiro citadino a pisar também e de modo inesperado o áspero interior do país, Grande sertão: veredas é – ao contrário da nova capital federal – ribeirinho e verde, barrento e encardido, anárquico e selvagem. É acrimoniosa e destemperadamente varonil. Pela soma dessas características, o romance nada tem a ver com a artificialidade do lago Paranoá, cujas águas banham as belas obras arquitetônicas femininas sem jamais tê-las fertilizado. À semelhança de Brasília, acrescente-se, Grande sertão: veredas tem algo e muito de religioso, se não se tomar como única referência a forma cristã da cruz que inspira e conforma o plano piloto da nova capital federal do Brasil.

Um mote de Grande sertão: veredas é valido tanto para Brasília quanto para o romance: “Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem moi no asp’ro, nao fantaseia” (grifo meu).

Apesar de moer no áspero e não fantasiar, Guimarães Rosa nada bebe do econômico construtivismo lógico-matemático e abstrato que se torna marca registrada da primeira e grandiosa Bienal de São Paulo (1951) no momento em que celebra como vencedoras a escultura Unidade tripartida, do suíço Max Bill, e a tela Formas, do brasileiro Ivan Serpa. O romance de Rosa manuseia dicionários reais e estapafúrdios, pessoais e imaginários e, em sintaxe travessa e com pontuação anárquica, esparrama perdulariamente palavras, tocos de palavra e interjeições onomatopaicas pela página em branco. Não preocupa o escritor se os vocábulos se duplicam e, em n vezes, se multiplicam em sinônimos vernaculares ou artificiais, como é o caso, por exemplo, da infindável série que referenda a presença do Diabo nos sertões do Alto São Francisco. A enumeração de sinônimos numa única frase não abastarda o estilo, transforma antes a prosa ficcional de Rosa em forma original e peculiar de ladainha às avessas ou de exorcismo:

E as ideias instruídas do senhor me fornecem paz. Principalmente a confirmação, que me deu, de que o Tal não existe; pois é não? O Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-quediga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos... Pois, não existe!

São 52, se não me engano, os nomes atribuídos à figura do Diabo em Grande sertão: veredas. Equivoca-se quem entra no romance esperando que menos é mais.

O romance de Rosa pouco teria a ver com os poemas precisos e exatos, mãos-de-vaca, de inspiração mallarmaica e valeryana, do contemporâneo e também diplomata João Cabral de Melo Neto, que vão desaguar anos mais tarde na teorização verbivocovisual expressa pelo “Plano piloto da poesia concreta” (1958), de responsabilidade dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e de Décio Pignatari e publicado na revista Noigandres. O monstro rosiano guarda semelhanças evidentes apenas com certo interesse lúdico dos poetas experimentais pelo trabalho na linguagem, feito no molde da criação de neologismos nas línguas anglo-saxônicas, de que são exemplo as invenções em prosa de James Joyce e em poesia de e. e. cummings. Molde este também avançado por Ezra Pound como recurso tomado ao ideograma chinês tal como exposto por Ernest Fennolosa em The Chinese Written Character as a Medium for Poetry (1918). Aliás, Grande sertão: veredas, publicado em 1956, não é citado nas obras elencadas no paideuma concreto divulgado pelo “Plano piloto”, embora o ano da assinatura desse manifesto já seja o de 1958. As afinidades entre os concretos e Rosa são manifestadas tardiamente.

O monstro de Guimarães Rosa nada tem a ver com o singelo, doce e nostálgico balanço da bossa-nova que, tão cool quanto o jazz moderno que o adjetivo inglês tão bem qualifica, assalta as estações de rádio e o mercado fonográfico das capitais em busca de um mercado internacional adocicado pelo bem-estar alcançado no pós-guerra pelas sociedades do Primeiro Mundo. Para as imaginações ilustradas e bem pensantes, Grande sertão: veredas é ácido, corrosivo e principalmente intempestivo. Ao se distanciar “do barquinho a deslizar no macio azul do mar” (Roberto Menescal), dispensa todo e qualquer antídoto contra os absurdos retóricos de que se faz campeão absoluto na avara e impecável língua gramatical de Luís de Camões, de Machado de Assis e de Graciliano Ramos.

Também seria um despropósito comparar o monstro com dois outros bons romances publicados no ano de 1956, O encontro marcado, bildungsroman de Fernando Sabino, e Vila dos Confins, prosa regionalista do também mineiro Mário Palmério. Ambos abrem uma trilha que se tornará populosa em nação que se industrializa ao ritmo do capitalismo avançado – a das narrativas ficcionais escritas segundo o padrão ditado pelo consumismo aliado aos temas da atualidade, padrão exigido pelo mercado editorial e corroborado pela publicação nos suplementos literários da todo-poderosa lista dos best-sellers da semana.

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