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Este ensaio pretende pensar o porquê da produção cultural se mostrar impotente justamente num dos momentos mais turbulentos da história recente do país. Por que afinal, a cultura não se impõe de forma crítica e contraideológica?

Sigo alguns passos do artista plástico Nuno Ramos para tentar montar um panorama político-cultural que se desenvolve no tempo de 2012 até hoje. No entanto, não pretendo um estudo exaustivo de sua obra.

Em novembro de 2012, no Rio de Janeiro, foi realizada a performance O globo da morte de tudo, de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska. Dois globos da morte conectados entre si e a quatro paredes-estantes de aço com seis metros de altura cada, onde estavam depositados em suas prateleiras mais de 1.500 objetos, formavam a instalação artística na qual seria realizada a ação performática. Duas motos rodando dentro dos globos que, lado a lado lembravam o símbolo do infinito, balançavam as paredes fazendo com que os objetos se espatifassem no chão.

O próprio Nuno disse que o trabalho nasceu do “desejo de fazer algo mais agressivo, que trouxesse um pouco de violência para a cena”, que, segundo ele, estava um pouco careta.

Havia um claro toque da astúcia irônica da Pop Art na escolha dos objetos: vinhos franceses caríssimos ao lado de vasos sanitários, cadeira de dentista, um retrato feito com carvão do mago Paulo Coelho e outro representando a dupla de idealizadores da obra. Não faltavam objetos do cotidiano popular brasileiro: filtros de barro, jarras abacaxi de plástico e cerveja. A justaposição do moderno e do arcaico, a indistinção entre alta e baixa cultura, por meio de produtos do consumo de massa e objetos artesanais populares, nos remetia a uma típica operação dos tropicalistas. Desses havia também uma certa trégua entre mercado e cultura, revolução e conservadorismo.

Mas Nuno e Climachauska vão além. Ao matar tudo isso por meio de uma apresentação cheia de destreza, gasolina, máquinas industriais e o imaginário dos velhos circos, eles oferecem uma saída para a síntese que os artistas liderados por Caetano Veloso nunca propuseram de dentro do movimento.

Como sabemos, no Brasil, o moderno não supera o arcaico ou mesmo se apresenta apesar dele, mas, sim, são as próprias estruturas carcomidas da colônia escravocrata que fundam a nossa peculiar modernidade. Em O globo da morte de tudo, arcaico e moderno vão ao chão.

Em junho de 2013, um grupo de jovens de um movimento até então amplamente desconhecido – o Movimento Passe Livre – saiu às ruas de São Paulo para protestar contra o aumento de 20 centavos na passagem de ônibus. A partir de uma causa pontual, esses meninos foram capazes de expor, primeiramente, a violência desmedida do braço policial do Estado brasileiro, até então uma velha conhecida das populações das periferias. Em seguida, foi a vez de grandes grupos de mídia serem questionados de forma contundente: o que saía estampado na capa dos jornais não parecia se encaixar nas narrativas cheias de realismo do Mídia Ninja. Será que enfim estaríamos livres dos “cinco mil alto-falantes”?

O movimento não era alinhado a nenhum partido político, apesar de carregar bandeiras da esquerda. A pax lulista rachava e ninguém parecia conseguir compreender o que acontecia no “país do deixa disso”. Políticos tradicionais tentavam enquadrar e dar sentido ao movimento, mas eram rapidamente rechaçados.

O país entrou em convulsão e, de lá até aqui, esquerda e direita lutaram pela ocupação do espaço público. Setores conservadores descobriam as ruas e desciam de seus carros blindados para desfilar na avenida Paulista numa mistura de verde e amarelo e Chanel. Em pleno domingo, casais saídos do Clube Paulistano trocavam o Faustão pelas ruas em típicas cenas dos donos do poder: a babá em seu indefectível uniforme branco empurrando o carrinho do herdeiro a cinco metros de distância dos reivindicadores da manutenção do privilégio. Cenas de um luxo grotesco que nem mesmo o Cinema Novo foi capaz de imaginar.

Em maio de 2014, o ensaio Suspeito que estamos..., de Nuno Ramos, é publicado na Folha de S.Paulo. Nessa diatribe antimanifesto, Nuno segue girando em seu próprio globo da morte de tudo. Com extrema lucidez ele (mais uma vez?) decreta o esgotamento do Tropicalismo que teria “naturalizado nossa indústria cultural até um ponto sem retorno”. Aos excluídos da sociedade de consumo, ele afirma que devemos tudo: “renda, saúde, educação, claro, mas também avencas, bueiros, ruas, parques, chicletes remédios tarja preta; devemos livros, trufas, CDs, lentes de contato, filmes de arte, óculos escuros, museus, proteína, alface”. Uma lista digna das prateleiras da performance de 2012. Só que aqui, com a liberdade da realidade literária, ele destrói a ele mesmo e a todos nós: “Suspeito que estamos fodidos”.

Paradoxalmente, contra a violência que seria “o tema primordial e decisivo da sociedade brasileira”, ele pede “maior lentidão e inércia”. Aqui está a agudez contraideológica do artista que intui para onde vai a sociedade.

Cerca de dois meses depois, o Brasil sofreria uma de suas maiores derrotas esportivas: Alemanha 7 x 1 Brasil, na Copa do Mundo realizada pela segunda vez no país. Logo em seguida, numa campanha violenta e permeada por questões morais, Dilma Rousseff seria reeleita presidente da República.

Já em 2016, Dilma sancionaria a Lei Antiterrorismo como forma de controlar as ruas, principalmente por conta da aproximação dos Jogos Olímpicos que, assim como a Copa de 2014, catalisou a revolta contra a injustiça social chancelada pelo Estado. Nesses grandes eventos esportivos, a direita se metamorfoseou de reivindicadora radical para consumidor feliz.

E também em 2016 aconteceria o que ninguém até então queria acreditar: um golpe de Estado levaria o vice Michel Temer ao poder.

Já em seu primeiro dia como presidente interino, Temer anunciou o fechamento de nove ministérios. Entre eles o da Cultura e o das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. O Ministério da Justiça, comandado pelo ex-secretário de segurança do estado de São Paulo e ex-advogado do PCC, tornava-se Ministério da Justiça e Cidadania. Um recado claro para os defensores das minorias e dos direitos humanos.

Na sede da Sociedade Americana/Conselho das América, no dia 21 de setembro de 2016, já como presidente de fato, Temer declarou em alto e bom som que ele e o PMDB articularam o afastamento da presidente Dilma porque ela não teria aceitado o programa neoliberal de seu partido, batizado como “Ponte para o futuro”. 

Em um curto período de tempo assistimos boquiabertos ao desmonte das promessas de um país mais justo gravadas na Constituição de 1988. A ponte era para o passado. Mais exatamente para 1985, unindo o fim de um período ditatorial ao início de outro.

É nesse clima de violência simbólica e real, que Nuno e Climachauska decidem realizar novamente O globo da morte de tudo, dessa vez em São Paulo. Diante da violência promovida pelo Estado, a intervenção artística perde força, vira uma espécie de paródia de si mesma. Há um nítido descompasso em querer refazer algo mais agressivo e a violência real e anti-democrática que acompanhamos cotidianamente.

Muda a sociedade, muda a forma como percebemos a produção cultural.

Nuno Ramos, nos termos do ensaio “Radicalismos”, de Antonio Candido, seria o artista radical de classe média. Aquele que, se não é capaz de mover desejos revolucionários, tampouco abre mão da postura contraideológica e crítica em relação ao quadro mental conservador que sempre dominou a nossa produção de ideias. Suas obras, mais por seu caráter formal do que pelo conteúdo, também tentam escapar da mordida do mercado que está sempre a espreita de uma forma consolidada que possa ser transformada em produto pela onipotente indústria cultural. (No caso de conteúdos, nada mais paradigmático do que a (contra)cultura beatnik que, ainda hoje, segue abastecendo o mercado com sua estética da rebeldia.)

Uma das motos quebrou durante a performance realizada em São Paulo e a força de um só motoqueiro derrubou apenas três ou quatro objetos.

João Paulo Cuenca escreveu para o site independente The Intercept sobre a expectativa diante do início da performance: “Em breve, veremos o Brasil desequilibrar e se espatifar no chão – esperamos pela catarse de ver materializado diante de nós o terremoto que intuímos diariamente”.

Mas o país já está espatifado! Deu no Globo (não no da morte, no dos Marinho): “Um milhão de famílias entrará para as classes D e E”. Ou seja, quem vai pagar a conta do terremoto serão os excluídos do Globo da VIDA de tudo. Esperar pela catarse para se libertar (do que?) por meio de uma representação artística violenta, sendo que a violência real nos aguarda em todas as esquinas, significa sequestrar o campo cultural para usá-lo como consultório terapêutico particular.

Depois de cerca de três anos assinando uma coluna semanal na Folha de S.Paulo, Cuenca estreou no Intercept com um texto relevante para o debate atual, que tratava do que ele chamou de censura promovida pelos “conglomerados de mídia brasileiros” contra “o sujeito ideologicamente dissonante”.

Mas se a ideologia dominante, entendida como falsificação da realidade a partir de um ponto de vista exclusivista que garante privilégios com a naturalização da desigualdade e injustiça tem nesses conglomerados sua face pública, nada seria mais ingênuo do que querer remar contra a maré ideológica de dentro do establishment.
Ainda segundo Cuenca, o medo de perder o emprego justificaria o acomodamento ideológico. Salvo engano, esse acomodamento se dá também por certa incompreensão das forças que atuam na sociedade: agentes críticos (dissonantes?) deveriam lutar pela construção de espaços independentes e não esperar pelo favor do patrão. Perder um emprego nunca foi mais amedrontador para a classe média do que é hoje. Mas por quê? Ora, numa sociedade ultra-consumista, perder o emprego é perder a capacidade de consumir e, com isso, ver o próprio sujeito se esvaziando e perdendo seus adornos de distinção de classe.

O equilíbrio delicado e tenso entre querer salvar a própria pele e ao mesmo tempo ver tudo se espatifar, só pode acontecer no campo das representações culturais. Nesse caso, o fato da performance em São Paulo não ter chegado até onde era esperado, representaria uma boa chance para um despertar cultural e não a frustração pela catarse que não veio.

Pensadores radicais são raros nos dias de hoje. Muitos daqueles que se tingem com as cores da contestação, apenas servem para simular embates que acabam por avalizar o simulacro democrático no qual vivemos e que se normaliza por meio do mercado e suas promessas de igualdade diante das máquinas de cartão de crédito. Esvaziada de sua força contraideológica, a cultura brocha diante de desafios enormes impostos pela conjuntura política do país.

Se o sujeito revolucionário sumiu de nosso imaginário, corremos o risco de perder também o pensamento radical que vai se dissolvendo nas estruturas do mercado que engloba e mata tudo.

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