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Em 1856, ano do nascimento de Freud, Gustave Flaubert começou a publicar na Revue de Paris os primeiros capítulos de Madame Bovary, seu romance de estreia. O tema lhe fora inspirado por uma notícia de jornal sobre o suicídio de uma adúltera provinciana. Flaubert, que vinha trabalhando duramente no projeto de escrever A tentação de Santo Antônio, foi desaconselhado por seus dois amigos, Maxime du Camp e Louis Bouilhet, que lhe propuseram jogar o texto no fogo e, em troca, escrever a história de Delaunay. A base “real” do romance foi, assim, a notícia sobre o suicídio de Delphine Delaunay, esposa adúltera de um oficial de saúde numa cidade do interior da França. Em 1849, nasceu o “argumento” central de Madame Bovary, que só começaria a ser escrito em setembro de 1851, depois que Flaubert reatou relações amorosas com sua amante e maior interlocutora epistolar, a também escritora Louise Colet.

O objetivo de escrever um romance num estilo tão simples, em que o narrador praticamente desaparecesse, tomou quase cinco anos de trabalho a Gustave Flaubert, provavelmente com sucesso – o “realismo” de Madame Bovary causou escândalo.

Mesmo quem nunca leu o romance conhece sua fama: depois da publicação, Flaubert foi processado, julgado (e absolvido) por ofensas à moral pública, à família e à religião. As motivações do Ministério Público no processo contra Madame Bovary nunca ficaram muito claras – voltaremos ao julgamento mais adiante. Classificado como um romance realista – talvez o maior de todos –, Madame Bovary não é considerado assim por Flaubert. Um romance sobre a linguagem e suas apropriações pelo senso comum burguês do século 19, um comentário crítico e totalmente exterior à “grotesca mentalidade burguesa” que estava no auge de sua expansão, escrito por alguém que sempre professou não seu amor pela realidade, mas seu ódio a ela. Para Philippe Willemart, a confusão sobre o realismo de Flaubert consiste no fato de o escritor “não levar a realidade a sério” – ele se refere evidentemente à realidade social –, considerando-a o resultado de convenções arbitrárias, sobretudo no campo da linguagem. Seu romance pode, portanto, ser entendido também como um estudo de estilo, que exigiu do autor anos de trabalho incessante, com o objetivo de desvendar as “ideias feitas” que asseguravam o conforto espiritual do filisteu de sua época.

Em carta à amante Louise Colet, quando ainda estava começando a escrever o que seria seu primeiro e mais célebre romance, Flaubert anunciava o projeto: “Bovary (numa certa medida, na medida burguesa, tanto quanto pude, para que fosse mais geral e humana) será […] a suma de minha ciência psicológica, e só terá um valor original deste ângulo. Será? Deus queira!”. Sua “ciência psicológica” é implacável, e parte de uma espécie de desilusão a respeito dos homens que nos faz lembrar o que viria a ser, quarenta anos mais tarde, o ponto de partida do pensamento freudiano. Afinal, Flaubert é um artista e, como tal, como escreverá Freud um dia sobre os poetas, saberia por intuição e antecipadamente o que os pobres cientistas trabalham e pesquisam humildemente, anos a fio, para compreender. Considerando os médicos de seu tempo “[...] uma espécie de imbecis e os filósofos, outra”, Gustave Flaubert se perguntava, no início da elaboração de Madame Bovary: “Quem é que, até hoje, fez história como um naturalista? Já se classificaram os instintos da humanidade e viram como, sob que latitude, eles se desenvolvem e devem se desenvolver? Quem estabeleceu cientificamente como, e por que necessidade do espírito, tal forma deve aparecer?”

As “formas” cujas condições de surgimento interessam a Flaubert são, antes de tudo, formas de linguagem. Seu Dicionário das ideias feitas, concebido enquanto escrevia Madame Bovary, é fruto de um projeto que atravessa todo o seu trabalho e culmina em sua última obra, Bouvard e Pécuchet: denunciar, através da ironia, a teia de linguagem que constitui o conforto e a segurança psicológicos do “bom burguês”, escreveu a Louise Colet.

São da mesma farinha todos aqueles que falam de seus amores passados, do túmulo de suas mães, de seus pais, de suas boas lembranças, beijam medalhas, choram com a lua, deliram de ternura quando veem crianças, desmaiam no teatro, ficam com um ar pensativo diante do oceano. Farsantes! Farsantes!

A que “farsa” se refere Flaubert nessa carta? À da sensibilidade burguesa ou à da literatura que a alimentava? Contra que “realidade” o escritor se rebelava? A que se reflete na tolice dos leitores ou a dos próprios livros? A posição de Flaubert como escritor não é simples. Sua primeira grande personagem é justamente a mocinha provinciana cheia de sonhos tolos, alimentados pela leitura dos romances em moda nos meados do século 19. Como Flaubert pretendia ser lido, então? Que recursos de estilo ele desenvolveu para tentar garantir que seu romance não propiciasse devaneios “bovaristas” a uma multidão de mulheres sonhadoras e frustradas?

Vale a pena conhecer alguns verbetes de seu Dicionário para se ter uma ideia melhor do que era, para Flaubert, a matéria-prima da farsa do bom gosto burguês, das convenções literárias e do seu efeito na produção social da realidade:

Bandeira Nacional – Vê-la faz o coração bater. Conciliação – Deve-se sempre pregá-la, mesmo quando os contrários são absolutos. Cortesãs – São um mal necessário. Protegem nossas filhas e irmãs enquanto existirem homens solteiros. Deveriam ser impiedosamente expulsas. Não é mais possível passear com nossas mulheres por causa de sua presença nos bulevares. Sempre são moças do povo seduzidas por ricos burgueses. Dor – Sempre tem um resultado favorável. A dor verdadeira é sempre contida. Eruditos – Ridiculariza-os! Para ser erudito, basta memória e trabalho. Itália – Deve ser visitada imediatamente depois do casamento. Provoca muitas decepções, não é tão bela como se diz. Magnetismo – Belo assunto de conversa e que serve para “ganhar as mulheres”. Nobreza – Deve-se desprezá-la e invejá-la. Pássaro – Desejar ser um pássaro, e dizer suspirando: “Asas! Asas!”. Sinal de uma alma poética. Rosto – Espelho da alma. Então, algumas pessoas têm uma alma muito feia. Wagner – Deve-se rir com escárnio quando se ouve seu nome, fazer piadas sobre a música do futuro.

Se Flaubert odiava as ideias feitas com a mesma intensidade com que afirmava odiar a realidade, é porque compreendia a realidade como uma farsa produzida pelos efeitos da linguagem. Seu Dicionário foi uma denúncia das formas de linguagem criadas pelo burguês em sua pretensão de “ser um outro”: por meio das ideias feitas, o filisteu banca o literato, o empreendedor banca o sensível, o usurário banca o moralista e toda a burguesia moderna faz semblant de aristocracia classista.

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