medusa JUL16

Aos 26 graus da constelação de Touro, a cada 68 horas, um eclipse binário sela o destino de alguém aqui na Terra, diz o manual da astrologia clássica. É ela: Algol, a cabeça da medusa; Algol, a maléfica; Algol, a estrela do demônio. Para os paroxismos medievais, o brilho alternante de Algol significava desgraça, morte, acidentes e eventos terríveis. “O olho da Medusa”, como os gregos a conheciam, era, no céu, o prenúncio de um fim trágico: enforcamento, eletrocussão, degolamento. Não admira que seja uma estrela feminina numa cultura cuja difusão da imagem da mulher esteja ligada à persona da feiticeira (Medeia, Circe), à da encantadora (sereias, ninfas) ou à origem do mal (Eva, Pandora, Helena). Não admira que esse estigma tenha sido difundido na Idade Média, época na qual, não por acaso, os livros se disseminaram; mas o corpo passou a ser reconhecido como algo para ser escondido – por meio de um discurso moralizante no qual homens e mulheres se reconhecem no papel que deveria lhes caber. Num exercício de arqueologia mítica, esse papel se encontra nas narrativas orais, no inconsciente coletivo que não tem nada de espontâneo. O inconsciente coletivo é uma construção social, não biológica.

Hoje, quando falamos de cultura do estupro não é ao homem que devemos olhar para condenar ou demonizar. É reducionista e instrumental pensar no homem como ponte de origem da misoginia. O olho deve se voltar para as instituições que construíram uma cultura marcada por uma visão androcêntrica, na qual mulheres eram comparadas a anjos caídos, demônios, serpentes tentadoras dispostas a des(virtuar) o homem do seu caminho do bem. Na tradição oral e, posteriormente, escrita nos deparamos com o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chama de violência simbólica, a mais sutil e imperceptível e à qual devemos nos ater para reconhecer esse poder aparentemente invisível.

Assim, descortinando-o, aprendemos a lógica da dominação: ela não tem um efeito devastador materializado de maneira clara, objetiva. Pelo contrário, é sutil, sorrateira. A dominação não está num vídeo de estupro que circula na Internet. Isso é a barbárie. Um regresso no processo civilizador. A dominação se impõe, eis sua astúcia, como um véu com o qual nos atemos à fantasia encantadora da história, miticamente sedutora, de tal forma, que não a percebemos como a legitimação de um ethos próprio ligado à centralização do poder do homem. E seus desdobramentos: o abuso físico e moral do poder. Com isso, a naturalização, por exemplo, de uma cultura que banaliza a violência contra mulher. Ora, os mitos, histórias infantis e os símbolos desse inconsciente coletivo apontam como uma ordem quase inexorável o destino do feminino como ser passivo. Isso está na Teogonia, de Hesíodo, e na Odisseia e Ilíada, de Homero. Livros seminais para a história da cultura ocidental. Relidos por escritores, sociólogos e pelo dr. Freud, que bebeu na fonte inesgotável da cultura grega para compor suas tipificações acerca do comportamento sexual humano.

Nesses livros, sabemos, por exemplo, que o aventureiro e fanfarrão Júpiter se transmutava em bichos e elementos da natureza para copular com as mulheres que despertavam seus encantos. São inúmeras as histórias das investidas “sensuais” de Júpiter. Mas a mais emblemática é o rapto de Europa. Júpiter se transformou em um garboso touro branco para levar Europa montada em seu dorso até os confins do Egito. Europa rodopiou por anos até voltar à sua terra natal. Prosérpina, filha de Ceres, deusa da agricultura, fora raptada por Hades, deus do inferno e seu tio, quando ainda era uma adolescente. Virou rainha dos portais do inferno. Condição à qual só chegou a ser após consentir com o casamento forçado – isso sem que antes tenha sido, digamos, “dopada” por encantadoras sementes de romãs oferecidas por Hades.

Algol nada mais é que o símbolo da cabeça de Medusa, degolada por Perseu num ato mais de sorte do que astúcia. Sacerdotisa do templo de Palas Atena, Medusa foi estuprada por Netuno, um deus irascível e insaciável sexualmente. Medusa era uma linda adolescente de longos cabelos pretos quando foi, grávida, transformada numa górgona, com cabelos de serpentes e olhar petrificante. O motivo: não era mais casta, portanto indigna de pertencer ao templo de Atena, uma das deusas mais severas do Olimpo. Coube a Perseu dar cabo, posteriormente, da temível Medusa, que, vejam só, aterrorizava os homens que por ela passavam e não conseguiam desviar do seu olhar. Do sangue que jorrou de sua cabeça, nasceu Pégaso. Tragédia que para alguns mitólogos significaria a relação visceral entre mãe e filho. Com toda essa farta narrativa de força e poder subjugando o feminino, nada mais natural que outra condição sobre ele tenha sido imperceptível. Já que o passivo pertence a um sistema de conhecimento “reconhecido” e dominado institucionalmente. Quando se recupera o poder da mulher na história, ele sempre está envolto em uma aura “esotérica”: bruxas, deusas-mãe, feiticeiras. Consequência óbvia do feminino visto como histeria. Lilith, por exemplo, só aparece brevemente na narrativa bíblica em Isaías. Diz-se que fora a primeira mulher de Adão. “Rebelde”, recusou-se a dormir embaixo dele e, por isso, fora banida do seu lugar de esposa. Nas culturas orientais, Lilith está sempre retratada nua e com animais. Em ambos os discursos, é considerada um dos primeiros demônios.

A mitologia judaico-cristã e, principalmente, a greco-romana legitimaram a misoginia de forma tão sutil, que chegamos a nos encantar com Helena, cuja beleza causou a Guerra de Troia. A entrelinha aqui é: os encantos físicos de uma mulher garantem uma disputa bélica que fazem os homens serem ressaltados como heróis. Por ela, Páris iniciou a Guerra de Troia. Teve filha sacrificada pelo pai, Ifigênia; esposa assassinando o marido, Clitemnestra. Enquanto Helena, e nós, hoje, deveríamos ser agraciadas com o dom da perfeição estética. Uma forma lúdica de relatar as virtudes do macho alfa, dominante por sua força física. A misoginia precede o machismo e o sistema patriarcal. É a aversão ao feminino e seu subjugamento. Em Mitologia, Christopher Dell aponta que houve um turning point para que a divisão entre os sexos se tornasse uma centralização de poder e a misoginia se inaugurasse, então, como um discurso de aversão. Antes da divisão do trabalho, que começa com a especialização da agricultura no Paleolítico, o feminino era venerado, pois se tratava de uma relação atávica com a natureza. Isso tem relações estreitas com os ciclos do corpo feminino, sobretudo menstruação, gravidez e amamentação. Havia, numa sociedade primitiva, uma correlação desses períodos com os ciclos da lua e, portanto, com a natureza desconhecida e temida. De tal forma, a mulher era associada a algo sagrado. Em algum momento da História, o homem percebe que não é a lua cheia que dá a vida ao corpo feminino, mas seu próprio sêmen.

Em A dominação masculina, Bourdieu relata uma dessas percepções:
“Foi na fonte (tala) que o primeiro homem encontrou a primeira mulher. Ela estava apanhando água, quando o homem, arrogante, aproximou-se dela e pediu de beber. Mas ela havia chegado primeiro e ela também estava com sede. Descontente, o homem a empurrou. Ela deu um passo em falso e caiu por terra. Então o homem viu as coxas da mulher, que eram diferentes das suas. E ficou paralisado de espanto. A mulher, mais astuciosa, ensinou-lhe muitas coisas: ‘Deita-te, disse ela, e eu te direi para que servem teus órgãos’. Ele se estendeu por terra. Ela acariciou seu pênis, que se tornou duas vezes maior, e deitou-se sobre ele. O homem experimentou um prazer enorme. Ele passou a seguir a mulher por toda parte, para voltar a fazer o mesmo, pois ela sabia mais coisas que ele, como acender o fogo etc. Um dia, o homem disse à mulher: ‘Eu quero te mostrar que eu também sei fazer coisas. Estende-te, e eu me deitarei sobre ti’. A mulher se deitou por terra, e o homem se pôs sobre ela. E ele sentiu o mesmo prazer. E disse então à mulher: ‘Na fonte, és tu (quem dominas); na casa, sou eu’. No espírito do homem são sempre estes últimos propósitos que contam, e desde então os homens gostam sempre de montar sobre as mulheres. Foi assim que eles se tornaram os primeiros e são eles que devem governar”.

Mitos e símbolos foram, num período de um discurso pré-escolástico, estratégias usuais de dominação, nas quais ao homem se atribuía, sobretudo, o conceito de honra, virtude e peripécia moral. Com sua disseminação, institui-se, assim, o ideal de ação e poder, que vamos encontrar, ainda, nos romances de cavalarias medievais, com guerreiros montados a cavalos e princesas presas em torres esperando pelo dia em que sejam libertas. Ou se formos mais adiante: nos romances modernos em que cabia às mulheres esperar pelo ser amado como um ideal de amor platônico.

À exceção de algumas comunidades ou figuras femininas rebeldes (as amazonas gregas, as valquírias escandinavas ou a Lilith mesopotâmica) toda a mitologia greco-romana está pautada na polarização existente em feminino e masculino dentro da qual se destacam honrarias aos feitos heroicos de Perseu, Ulysses, Hércules e tantos outros heróis que a fundamentam. Isso se traduz em um discurso estabelecido ao longo dos séculos pelas instituições sociais: família, igreja, escola, primeiramente. São elas, a princípio, que começaram a disseminar essas histórias maravilhosas, fantásticas, de superações e conflitos morais com as quais nos identificamos num nível catártico. Ulysses é escolhido para o combate na Guerra de Troia, a contragosto. Não bastou ter o azar de ser um homem de honra, mas teve a infelicidade de levar 20 anos para voltar à Ítaca, sua terra natal. Tal odisseia é essencialmente a jornada de qualquer ser humano em busca de seu próprio destino.

Mas não é estranho? Enquanto Ulysses enfrenta gigantes, tempestades, feiticeiras, sereias e prisões, Penélope, sua esposa, fica em casa fiando um manto sem fim. Bourdieu arremata bem: “a dominação masculina, que constitui as mulheres como objetos simbólicos, cujo ser (esse) é um ser-percebido (percipi), tem por efeito colocá-las em permanente estado de insegurança corporal, ou melhor, de dependência simbólica: elas existem primeiro pelo, e para o olhar dos outros, ou seja, enquanto objetos receptivos, atraentes, disponíveis. Delas se espera que sejam ‘femininas’, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas. E a pretensa ‘feminilidade’ muitas vezes não é mais que uma forma de aquiescência em relação às expectativas masculinas, reais ou supostas, principalmente em termos de engrandecimento do ego. Em consequência, a dependência em relação aos outros (e não só aos homens) tende a se tornar constitutiva de seu ser”.

O termo androcentrismo foi desenvolvido no início do século XX, pelo antropólogo Lester Ward, para tentar explicar a centralização do homem ao longo da história. Os mitos são apenas uma parte da origem das narrativas pré-modernas e narrativas nada mais são do que formas de contar histórias que existiram na fantasia ou tiveram, de fato, seus elementos realísticos relidos pelo mito, através de caracterizações arquetípicas. No mito, entramos em contato com a raiz da dominação masculina em diversas culturas, ocidentais e orientais. Encontrar a gênese dessa origem é tarefa especulativa, mas pela arte e pelos próprios mitos, escrito e difundido por homens, é possível perceber o feminino como algo a ser evitado, combatido ou dominado – mesmo quando se tratam das mulheres que são vossas filhas, netas ou esposas. Os contos populares dos Irmãos Grimm, por exemplo, no século XIX, trazem relatos de histórias orais com incesto, casamentos forçados e sedução de adolescentes. Numa das versões da Bela Adormecida, do italiano Gianbattista Basili, Aurora está no seu sono profundo quando é estuprada por um rei. O que a desperta é o nascimento de gêmeos, que chupam seu pé e retiram o espinho enfeitiçado.

Nesse sentido, encontramos, assim, uma verdadeira odisseia da misoginia como um elemento naturalizado pela arte, literatura e história. Cabe aqui uma citação de Engels, quando fala sobre a origem da propriedade privada: “A mulher foi degradada, convertida em servidora, em escrava do prazer do homem e em mero instrumento de reprodução. Esse rebaixamento da condição da mulher, tal como aparece abertamente sobretudo entre os gregos dos tempos heroicos e mais ainda dos tempos clássicos, tem sido gradualmente retocado, dissimulado e, em alguns lugares, até revestido de formas mais suaves, mas de modo algum eliminado”.

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