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Presença negra neste país é saliva, língua e dente, o miolo e a beirada. Forma encruzilhada no princípio e no horizonte, contempla dos porões às altas colinas. Então, participe normalmente de encontros literários gerais e também borde sua chegança em outros específicos, autônomos, o que não é formar gueto e, sim, considerar esfarelar as muralhas, apresentando as singularidades de nosso viver negro e como se trançam ao balaio que se nomeia brasileiro. No texto, pretice balance os territórios homogêneos ou complexos que pisamos e as compreensões do espaço e das forças tão antigas que espremem ou vitaminam nossos diálogos. Nos encontros, largue-se o converseio que nada frutifica, que estereotipa ou derrama condescendência e se mergulhe nas distâncias a vencer pra circulação fértil das ideias no cotidiano casca grossa. Já madurou faz tempo pra “literatura brasileira” a hora de atentar à lábia da caneta negra daqui, enredos que ultrapassam a lente gasta que só foca escravidão, folia e tiro. Textos das curvas de legados ancestrais, colorindo e rasgando os mapas que ainda nos avacalham e já espinham novas urgências.

Ah... a literatura brasileira. Esse palacete das poltronas fofas que por vezes sai do tédio requentando histórias ouvidas dos serviçais. Uma festa literária que se proponha a ser nacional para os internacionais, seja montada e platinada pelo baronato ou custeada também por verba pública, para pelo menos resvalar na plena sensibilidade das tretas que giram aqui deve ter canetas e parágrafos negros, editoras sensíveis à questão, presença de poetas e prosadores pretos não como dois ou três pinguinhos escuros entre a brancura geral, mas entranhados a todos os temas e momentos. E atenção ao óbvio: Falamos de livro e não só da gloriosa oralidade, esta bênção que cultiva ninhos e revides. Falamos de escritores, teias e personagens e não apenas de cantantes que também são pilar e farol imprescindíveis em nosso caminho. Há trança entre as vozes mas se diferencie e a cada qual o seu labirinto.

Vige o apartheid editorial brasileiro. Mentalidade de capitania hereditária e o racismo que deforma desde as fraldas os produtores da grana alta, média e a distribuição relativamente decente de publicações. Os colóquios, editoriais, professores e canais de divulgação bem-estruturados ainda abraçam o que a retórica da modernidade postulou e nunca firmou, baseada na cangaia preta. Ideias como democracia, direito, cidade, liberdade e razão, entre outras pencas tilintadas em xicrinhas de porcelana nos gabinetes ou babadas aos berros nos coretos, tiveram sua contraface fervente, mas borrada nas cúpulas dos mecenas e onde quer que cheguem seus carimbos coloniais contemporâneos. Ou seja, quem é autoria negra pode, quer, precisa e deve chegar com outras vivências e perguntas às demandas literárias em que tanto se debate sob a chancela exotizante do “universal” (o que será isso? Gaveta pra brancos entucharem o que ao fim caiba em seus parâmetros e valores?) Questionando esse bueiro cintilante os editores, escritoras, leitores e arte-educadores negros há mais de 100 anos realizam encontros e edições às custas da própria merreca, ira e graça, invisibilizados ou caricaturados no apartheid editorial brasileiro. Letra preta adentre logo o tabuleiro e nisso nada há de favor. Areje a literatura contemporânea dessa mesmice... a que adora poças e fiapos ou chiqueza e françuá, se na sustança de boas lembranças da mesada. A que se fala de negro lhe dota de essência deslumbrante, pavorosa ou secundária.

Acontecem seminários e festivais com temas diversos: Literatura e desespero, Literatura e alegria, e política, e sexualidade, e futebol, e comida, e cinema etc... Há de tudo. Em todos a autoria negra chegue além das mesas de canto reservadas como gotas ao fim do enchimento da bacia. Pois a vasta literatura dos voos, dilemas e recolhimentos, sabores e agruras pretas trata também de tais temas com sátira ou lamento, no épico ou no dramático, em realismo brutal, fantasia ou lirismo. Isto vai mesmo além da noção de “representatividade”, tão necessária quanto insuficiente, brisa, mas também tocaia se culmina numa presença negra que vira o avesso, o capacho, o grotesco ou o esboço da branquitude de sempre, ou então molda-se a agradar militância, patrocínio e cartilhas escolares, ou ainda se assimilada às novas versões de cartão-postal e às noções incolores e anestesiadas dos nossos braseiros. Que nosso texto não seja cinza carreada só pra participar do mercadão.

Por medo e ignorância ainda coloniais ou mesmo por falta de mínimo tino comercial da burguesia, um bocado de negr@s ficcionistas não existe no circuito literário que inclui ainda uma classe média às vezes disposta a ações mais dignas em disseminação de leitura do que meramente salivar por lucros, mas também em geral insossas de tão alvas. Então, à FLIPR - Fundamentos da Letra e Intenção Preta- que vem na próxima lua cheia e que já fermenta a cada madrugada, deixo aqui seis pontes, seis forças que reverberam nossas cadências. Quem lê, sabe. Apenas seis entre tantos nomes que cavucam e semeiam na ficção e no verso. Gente com ÁfricaBrasil silvando nas unhas, pelos e cerebelos.

MUNIZ SODRÉ

Fundamental para compreensão de pilares das matrizes africanas de cá no cotidiano e nos rituais. Rara letra pela sensibilidade, erudição e estilística. Professor na UFRJ e UERJ, capoeira e karateca, ogã do Engenho Velho que já presidiu a Biblioteca Nacional, pelo menos três de seus ensaios são pedaços de sol que brotam em horta de mocambo. O terreiro e a cidade e A verdade seduzida apresentam com refinamento e potência as lógicas negras na urbe e suas beiradas e quintais, sofisticadas nas frinchas e vigas do país persistindo e civilizando entre escombros os eixos entre os oceanos. Apresenta bases e giros do pensamento e do suor sob a escravidão oficial e das mumunhas urbanas que ainda baseiam becos, majestades e cazuás. Põe a filosofia ocidental pra comer na mão apresentando interfaces e regras afro-brasileiras. Em Bimba, o Mestre Zen sua verve raspa o tacho trançando negritude a elementos orientais pela amplitude vasta de sentidos comuns a estas duas gamas de culturas de ‘arkhé’, que cultivam o jogo e a ancestralidade. Porém, na FLIPr - Fundamentos da Linhagem e Intensidade Preta –, tocante é também sua obra contista. Em Santugri e A lei do santo, pela musicalidade do fraseado, orna a escrita prima do sax de Coltrane e da umidade das cuícas. A letra baila entre ironia e suspense com histórias escabrosas e corriqueiras de enigmas que enamoram a nobreza da forma-e-significado como poucos. Envolve qualquer leitor, seja este um angoleiro, muzenza, ateu ou astronauta.

Aqui entrevista sobre sua obra 

LEDA MARIA MARTINS

Em A cena em sombras, reflete com gana sobre sutilezas estéticas do teatro negro do Brasil e dos EUA. Estudiosa da performance, compara princípios e distingue formações sociais e escudos de aço e de palha empunhados em pelejas daqui e de lá. Detalha composições de palco e temas motrizes das expressões forjadas na luta sob as correntes do cativeiro e nas bordas da cultura de massa. Pensando ambiguidades e simbologias da pele nas frestas da diáspora africana, a professora da UFMG nos oferece encanto em Afrografias da memória, enamorando teoria e poesia como muito se diz mas pouco se faz. Com a cancha de Rainha das Mercês no Reinado do Jatobá em BH/Minas, alinha a sapiência da teatralidade de pé africano-brasileiro em terra dura que se faz ninho. Se antes atinou minúcias de palco, aqui concentra e aflora nos pulsares de roda e de cortejo. Aprecia partituras, dramaturgias, jogos de corpo e desenha elos entre a cosmologia congo-angola e a política e sacralidade das roças e asfaltos brasis. Trata de timbre e de instrumentação nos poemas de cantar, de cernes da cena e de contexto nas indumentárias tecidas com graça e fé. Se epistemologia é do miolo de nossa luta, na FLIPr - Fundamentos da Luz e do Imbalança Preto - os parágrafos de Leda Martins são contas de rosário, são balas de canhão. E também se ressalte o livro "Cantigas de Amares", poesia de 1983 que soprou vinhos assim:

"SOLO
Sem ti navegante/ de água doce/ barranqueiro/ que malogrado/ o vento no cipó/ silvestre
Sem ti capitão/ de rio/ canoeiro/ que minguante/ o verde/ na cana nova
Sem ti forasteiro/ de proa/ cirandeiro/ que carente/ o ventre/ na manhã/ cheia”

CUTI

Talvez o grande escritor vivo deste país. Traduzido em uma fieira de línguas, Cuti assanha a inteligência com sua obra erótica, arquiteta futuros com seus poemas de mocambos, arranha populismos em suas peças de quizombas e fermenta coceiras no estômago com seus contos, punhais. Na FLIPr - Fundamentos da Lavoura e Invenção Preta -, seu texto é reconhecido sem precisarmos conferir assinatura. Desde os anos 70, Cuti publica com espessura e fluência. Lançou poesia em obras sublimes como Batuque de tocaia, Sanga e Poemaryprosa, imensa obra sobre amor e sexo em país de segregação que emporcalha o tesão com seus pelourinhos mentais. Em seus contos e nos estudos originais sobre Cruz e Sousa e Lima Barreto, Cuti mergulha nos labirintos da consciência negra e seus dilemas, zangas, fragilidades e coroamentos. Frutificou o comovente E disse o velho militante com memórias de José Correia Leite sobre cafés, clarins e gráficas da Frente Negra Brasileira, numa aula magna sobre a primeira metade do século 20 paulista, sua violência psíquica urbana e os circuitos políticos ainda famintos pelo branqueamento como projeto de nação.

Aqui uma hora de prosa sobre prosa, conversa sobre verso com o escritor 

CONCEIÇÃO EVARISTO

Sua epifania se mescla à nitidez exposta do racismo brasileiro. Na FLIPr - Fundamentos da Lã(mina) e do Ifá preto, nos orienta com sua poesia de serena peleja e altiva celebração. Após tantas vassouras e vagões em Minas, estradas e morros cariocas, para onde foi ao magistério concursado deixando arrumações de casas alheias, doutorou-se em Literatura. Seu romance magistral Becos da memória ficou guardado 20 anos antes de ser publicado e ali Balbina, Negro Alírio e Tuína vestem lembranças que são arrimas, mas também embriagam pra tombar. As esperanças carcomidas por vezes encontram um colo, mas mastigando a fé crua vão ponteando os furos das personagens cansadas de provar que são gente. Em cada sílaba, se a autora dispensa a brutalidade costumeira da mirada à favela vista de cima, seu texto denso oferece muitas mantas geladas. Em Ponciá Vicêncio, com as rugas e as espirais dos passos da Nêngua Kainda que arrasta pés, calmaria e venenos, ou com os escarros de Luandi que engole na humilhação diária o que ferve na goela pra expurgar em quem surgir num degrau mais baixo, o corpo é a bússola da letra quando esfomeia, costura, sufoca, apanha ou transcende de amor. Colecionando traduções mundo afora, centrada nos poros das linhagens mulheris, Conceição borda uma obra que pulsa a fortaleza de ser grupo, atenta à hipocrisia que berra nos rebanhos e multidões. Vence a tendência ao romantismo estéril e ao realismo previsível, ao enredar em traço lento os aglomerados mineiros, o fio da subalternidade no Rio e espelhos embaçados brasis. Seu estilete talha rente e deixa florido.

Passe aqui uma hora de radinho com a mestra

DINHA

“O amor como uma pedra/ No peito, no estômago, nos olhos/ Roendo no corpo/ Parindo dores, horrores e almas penadas./ Quando eu morrer aproveitem a lápide”. Na FLIPr - Fundamentos do Lume e do Imã Preto -, Dinha traz entalhe calculado, pinceladas precisas que num repente escorrem e inundam, ressuscitam ou arreiam de vez um dia. Oferece apenas uma asa e nos conduz ao abismo. No livro De passagem mas não a passeio, com as pedrinhas da viela brinca jograis fatais e oferece chás de lírio, camomila e pimenta nas quenturas da letra. Noutras estrofes que já se iniciam chamando a porrada, desafia a rodar a aurora no ônibus atordoado de sonhos moídos, com mindinho pisado pelas botas enlameadas amigas. Esparramou mil fanzines e sua ira parece amena como a de quem assiste novela ou conduz um neto pela mão enquanto trama vinganças recolhida em detalhes, até que caniveta na jugular. Sem negociata de ilusão, seu humor se embebe da favela e do doutorado em Literatura Comparada, em que africaniza a biblioteca. Puxa o selo “Me Parió Revolução”, que lançou Zero a zero – 15 poemas contra o genocídio da população negra e é co-organizadora de Onde estaes felicidade? em 2016, com inéditos de Maria Carolina de Jesus. Pra estilingues e sombreado, concebe árvores assim: “Mais cedo que o dia nasce o medo/ e os olhos no soco do estômago/ Desregula os sonhos e metaboliza a angústia./ Com seu cajado de prata e de assombro/ resiste e tenta se vigiar. Espalha o deserto/ e o léxico se vinga na bolha de ar...”

JEFERSON TENORIO

Comece a ler na madrugada e cedinho, antes do café (se tiver com que se alimentar) feche o romance terminado. Fite no teto suas concepções de tempo, de infância, de solidão e de traquinagem. Matutando com malungos antigos... onde estarão, em que frangalhos ou brindes geram o olhar, se mancam nas gangrenas ou se tem trono, se o balcão entre os copos lhes é âncora ou se entortam arame pra ter guarida no orvalho. Mapeie um cotidiano de teia de aranha que segura toneladas. Sorria murmurante e nunca mais esqueça João, o piá das perguntas de princípio que sobe e desce escadas dos prédios tremosos onde definham os abandonados, charqueando o desamparo. Algum pedaço de ti Jeferson Tenorio derreteu com suas reticências vulcânicas, seu sussurro que arregaça. Porém neste susto, entulhados alguns de seus medos e delineados muitos de seus limites, entristecido tu vai saborear literatura plena, âmago da solidão emaranhada em gente. Na FLIPr – Fundamentos da Lamparina e da Invernia Preta, eis o romance O beijo na parede, estrada trupicando na pequenez de ser e beijo luminoso nas almas ressecadas de Porto Alegre. História de bagunça com moribundos. Elegância equilibrando nojo.

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