acaba

Do brasileiro, diz-se que ou não tem nenhuma, ou tem memória curta. Que nossas instituições possuam um talento singular para abafar a memória e destruir seu patrimônio cultural é um fato que não torna mais verdadeiro o pretenso diagnóstico da essencial e generalizada falta de memória do brasileiro. Muito pelo contrário, este, em um lance de saudade, é capaz de abordar matéria lúgubre mesclando o tom nostálgico ao riso franco.

O que acaba todos os dias é o título da mais recente exposição do artista paranaense Laercio Redondo, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A mostra, que acaba no dia 14 de fevereiro, é também uma reflexão sobre a história do nosso ensurdecimento ao que, já não sendo visível, de algum modo continua a fazer rumor. O que deixou de existir nos solicita, de maneira misteriosa, em golfadas de remorso e culpa em que a memória não cumpre tão bem sua vocação formativa, mas serve de alimento ao ritual informativo de reclama-e-esquece. O misto de lamento e indignação ante o recente fechamento da editora Cosac Naify e o espanto causado pela inauguração do Museu do Amanhã, no Rio – nome no mínimo otimista para um museu construído na cidade onde outros dez estão fechados e/ou ameaçados de extinção –, confirmam que a cultura da indiferença se alia perfeitamente ao ritual do lamento espetacular e efêmero.

À diferença dessa chispa de memória, há práticas e hábitos memorialísticos em que prevalece o comércio mais íntimo de figuras, detalhes, miudezas, histórias de ambientes, gestos e nomes cujo poder de alcance não contradiz em nada o seu caráter pessoal e intransferível. E, quando se fala em lugares de formação, é em geral na memória que se vão buscar o rastro e a impressão do clima que os envolvia, com elementos sempre resistentes, quando não teimosamente refratários à descrição.

Para os que leem poesia, cada nova editora fechada vem revolver o espectro da pequena grande Noa Noa, cujo estoque foi posto à venda, pela internet, no ano passado. Seu criador, o jornalista, editor e tipógrafo Cleber Teixeira, faleceu em 2014, mas será sempre lembrado pela perseverança em um projeto artesanal formidável e pelo refinamento e rigor de seu catálogo. Exemplo raro da potência estética do anacronismo técnico, Cleber nunca parou de utilizar tipos móveis e uma impressora tipográfica do século 19 na edição. Com esse equipamento realizou os adoráveis livrinhos de Angela Melim (As mulheres gostam muito e Os caminhos do conhecer), o de poesia grega contemporânea vertida para o português por José Paulo Paes, além de traduções pioneiras de Gertrud Stein, e.e. cummings e Mallarmé por Augusto de Campos.
Para a crítica e curadora Glória Ferreira, “Galerias de arte, editoras e livrarias nos pegam sempre de surpresa ao fechar suas portas, como a Cosac Naify ou a saudosa Leonardo da Vinci, com seus belos livros de arte e ampla bibliografia, como se estivéssemos fadados à velha sina brasileira de não haver continuidade nos programas e projetos”.

O poeta e tradutor Paulo Henriques Britto lembra que durante a adolescência frequentava assiduamente duas livrarias hoje extintas, a Eldorado, na praça Saens Peña, e a Da Vinci, no centro. De aniversário, pedia à família um crédito especial na Eldorado, e na Da Vinci mantinha um crédito fixo, que utilizava ao longo do ano, em livros importados e raros, textos de teatro, Beckett, Boris Vian, Ionesco. Na época pré-Amazon, esperava-se meses pela chegada dos livros. “Na Eldorado eu comprava os Penguin Books, que eram, por algum motivo, relativamente baratos, e comprava também literatura brasileira, Bandeira, Drummond, Cabral. Eu morava na Tijuca, vivia lá. Lembro que várias vezes estive a ponto de comprar o V., do Pynchon, autor sobre o qual eu não sabia nada, só porque o título e a capa eram misteriosos, mas na época não comprei. Agora, se eu estava a fim de um livro específico que não encontrava na Eldorado, aí o jeito era ir à Da Vinci e encomendar. Eram livros mais caros, e a gente às vezes tinha que esperar. Na Da Vinci eu tinha um crédito constante, e pedia a algum parente que, como presente de aniversário, pagasse a conta acumulada. Isso se estendeu dos meus 15 anos, quando voltei de Washington, até os 20, quando fui estudar na Califórnia.”

De retorno ao Brasil, Britto voltou a frequentar a Da Vinci. “Lembro de ter comprado uma história da música ocidental bem cara, da Oxford, depois que voltei da Califórnia. Nessa época eu estudava linguística, e muito do que se lia de teoria nessa área eu comprava na Da Vinci, e também em outras livrarias especializadas em linguística, todas na cidade, na rua Buenos Aires e arredores, que não existem mais: a Ao Livro Técnico, a Padrão e uma outra que ficava num prédio perto do Mercado das Flores, onde comprei muita coisa de Chomsky e também os Collected poems de Wallace Stevens; a proprietária era uma chilena.” Seu maior arrependimento por um livro não comprado, um Bernard Shaw deixado para mais tarde – tarde demais –, está ligado à história da também finada livraria da editora Civilização Brasileira, na rua Sete de Setembro, no centro do Rio. “Lá comprei o livrão enorme do teatro completo de Bernard Shaw, mas deixei a compra do volume que reunia todos os prefácios das peças para o mês seguinte, e aí o CCC ou coisa que o valha bombardeou a livraria, que nunca mais reabriu, e até hoje, apesar de ter lido todas as muitas e muitas peças de Shaw, nunca li nenhum dos prefácios, que, segundo alguns, às vezes são melhores que as peças.”

Já o teórico da literatura Luiz Costa Lima relembra a livraria que frequentava no Recife, antes de ser cassado pelo AI-5 e ter de deixar a cidade definitivamente. Quando ainda não havia surgido a não menos mítica Livro 7, a livraria mais “formativa” da cidade, era a Imperatriz, ainda hoje no mesmo sobrado da rua de mesmo nome. Porém tão radicalmente transformada que pouco ou nada tem em comum com a original, também frequentada por Clarice Lispector, Gilberto Freyre e Celso Furtado. Costa Lima relembra a figura generosa do livreiro Jacob Berenstein, dono do negócio: “O meio que tive para estar ligado, ainda estudante na faculdade de direito, ao que se fazia em termos de literatura, sociologia e antropologia nos Estados Unidos e na França foi a Livraria Imperatriz, cujo dono, Jacob Berenstein, mandava buscar os livros que eu encomendava. Assim, por exemplo, assinava a PMLA (Publications on Modern Language Association), que, no fim do ano, trazia um catálogo do que se publicara pelo mundo em termos de crítica. Creio que o sistema dura até hoje. Também assinava uma enciclopédia de arte (Encyclopaedia of World Art), que recebi até o oitavo volume. Com o golpe e a consequente demissão da universidade, não tive mais possibilidade de continuar assinando os volumes restantes. Tenho até hoje os oito volumes, que me acompanham desde então e dos quais ainda me sirvo” Depois disso, Costa Lima “recomeçou a vida com livros” em Petrópolis, empregado como revisor por Frei Ludovico, na Editora Vozes.

Do final dos anos 1970, a professora e coordenadora do PACC (Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ) Heloísa Buarque de Hollanda traz ainda a lembrança das tardes abarrotadas de poetas no número 21 da rua Faro, no bairro do Jardim Botânico, no Rio. Onde hoje há um edifício de gosto duvidoso havia antes uma casa de dois quartos em que Heloísa vivia com os três filhos, dois pastores-alemães e quatro gatos siameses. A casa era frequentada por vários poetas jovens que a Heloísa professora conhecera enquanto preparava a antologia 26 poetas hoje, lançada em 1976. Os mais assíduos na rua Faro eram Ana Cristina Cesar, Cacaso, Charles Peixoto, Ronaldo Santos, Chico Alvim, Eudoro Augusto e Armando Freitas Filho. “Outros poetas iam também, mas sem a mesma exagerada frequência. No final, o namorado virou marido e foi morar lá”, ela conta.

Houve também uma visita intempestiva de Zé Celso e sua companhia de teatro, que, vindo ao Rio por três dias, acabaram ficando 15, muito à vontade, entre transas, drogas e que tais, e Heloísa, no aperto de quem precisava administrar a vida de filhos ainda pequenos em meio ao clima de desbunde. A casa de dois dormitórios ficava tão cheia que era preciso se fechar no quarto para trabalhar. “Gravei todos os programas Café com letra que fiz com o Charles Peixoto para a Rádio MEC dentro do meu quarto, era a maior barulheira, na sala um monte de amigos, aquele fuzuê.”

Outro espaço relembrado por ela é a cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no Aterro. Ainda está lá, mas perdeu faz tempo o fervor e o poder aglutinador que marcou a vida artística e intelectual da cidade. Nos anos 1960, a cinemateca e seu café eram o lugar em que fervilhavam os debates, as polêmicas e os rachas intelectuais. “Lembro que depois da projeção de Terra em transe, do Glauber, ficamos lá discutindo durante horas, era um lugar sensacional, bom para debater e bom para namorar. A cinemateca é o lugar desaparecido que mais me faz falta hoje”, diz Heloisa.

Outros tiveram a sorte de estudar em um espaço fervilhante, é o que aparece no relato da poeta Lu Menezes, maranhense por nascimento, mas radicada em Brasília. Menezes fala sobre o Ciem – Centro Integrado de Ensino Médio, célebre escola de aplicação da UnB, concorridíssima e gratuita, idealizada nos anos 1960 por Darcy Ribeiro e José Aloisio Aragão, infelizmente desativada pela ditadura em 1971. “Em 1965, cursei nele o terceiro ano do ‘clássico’, que incluía também biologia e matemática. A jornada integral de estudos ia das sete às 18 horas, com a manhã dedicada a duas matérias (com meia hora de recreio entre elas) e a tarde à última aula do dia, seguida de uma ‘prática vocacional’ escolhida em amplo leque – de enfermagem a cinema, este a minha opção, assim como a de Djalma Limongi Batista e Cildo Meireles. Sobre cinema, orientavam-nos um inesquecível Jean-Claude Bernardet e, eventualmente, Nelson Pereira dos Santos. No Ciem a transdisciplinaridade era algo tão natural quanto o ar puro e seco que respirávamos. Lá transcorreu a etapa ‘cultural’ que mais se enraizou em minha existência”, afirma Lu.

A escola, onde também estudaram a escritora Ana Miranda e o artista Guilherme Vaz, funcionava numa casa modernista, “branca, de pavimento térreo, tendo ao longo de cada ala de salas uma parede de vidro ladeada por jardim ‘japonês’. Nessa época, Brasília era ainda muito rústica, e, embora o Ciem integrasse o campus da UnB, percorria-se um caminho de terra cercado pela vegetação do cerrado para alcançar o restaurante universitário e a biblioteca central”, completa a pesquisadora. No intervalo entre as aulas da manhã e as da tarde, que durava três horas – “generosa ilha de tempo livre” –, os alunos podiam vagar pela “cidade-maquete rodeada de céu”, ou assistir aos seminários de Niemeyer. “Podíamos vê-lo gizar projetos num quadro-negro comentando-os com seu falar moroso cheio de xis. E nos concertos matinais dos sábados na UnB ouvia-se jazz, música renascentista, barroca e até dodecafônica e experimental”, conta Lu.

No lugar onde funcionou o Ciem nunca mais houve nenhum tipo de escola. Hoje lá funciona um dos setores médicos da UnB.

Se, como escreveu o poeta português Manuel António Pina, “Aquilo que foi perdido/ Já modificou tudo e a si próprio”, precisamos de uma história cultural capaz de abarcar simultaneamente a força das evidências materiais e o fantasma de suas perdas. A miséria das explicações ou o fatalismo com que a mídia em geral aborda tais acontecimentos nunca será suficiente para aplacar os rumores do que já foi e permanece, ecos do que passeia ainda e paira sobre cada espaço inaugurado.

--- Essa é a primeira parte de um texto dividido em dois. A segunda parte do ensaio será publicado aqui no mês de março.

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