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Cena 1


“Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com suas manias”.

Ouve isso, o Policarpo, e sai; Adelaide, a irmã, continua a lavar a louça. A água caindo sobre os pratos tornou praticamente inaudível o “até mais tarde” que o major Quaresma dera. Pelo espelho da cozinha, conseguia ver um pequeno e franzino vulto verde e amarelo saindo de casa.

Entrou na estação do metrô. Enredado na plataforma cheia, pedia licença mecânica e gentilmente. Notou os olhares curiosos das pessoas sem dar muita confiança. Era óbvio para onde se dirigia. As ações estavam marcadas para aquele domingo, em todo o País. Poucos, na plataforma, estavam como ele, de verde e amarelo. Uns cinco, no máximo. Estavam distantes, mas se enxergaram com aprovação.

Chegou o metrô. Policarpo é suburbano. Um dia foi carioca; hoje não mais. “Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo; Quaresma era, antes de tudo brasileiro”. Desceu do vagão, percorreu as escadas. Na rua, tomou automaticamente o rumo da praça.

Policarpo Quaresma não é só suburbano, como se podia constatar na praça. É a loura calçando salto alto Louboutin e a dona de casa de meia-idade, que comanda uma família remediada. Criança, ele é, e também o homem de 40 anos descendo do Mercedes com pai, mãe, noiva e sogro. Ele é, ainda, casal de rapazes, um calmo e outro nervoso: o motorista do ônibus parou longe do ponto.

“Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo”, disse a si mesmo. Soaram apitos e buzinas. Fotógrafos, cinegrafistas e jornalistas se encaminharam para as bordas do aglomerado de gente. O cortejo patriótico seguiria pelas ruas da cidade em instantes.

***

O major Policarpo Quaresma foi apresentado em 1911, no formato de folhetim. Sua história se fizera conhecer nas edições vespertinas do carioca Jornal do Commercio durante dois meses. Em dezembro de 1915, seu criador, Lima Barreto (1881-1922), o publicou em livro: Triste fim de Policarpo Quaresma.

Comemoramos os 100 anos da obra cientes de seu evidente diálogo com a contemporaneidade – os tipos medíocres (como o personagem Genelício, bajulador profissional); a ideia de que deter títulos distintivos garantiam conhecimento e certa natureza superior, metáfora personificada na figura do doutor Armando e nos militares Albernaz, Caldas e Bustamante; a corrupção política do governo Floriano Peixoto e de políticos da zona rural. Todos encontram fácil correspondência com pessoas e práticas da atualidade.

Mas o que fica do livro, a lembrança primeira, é o major, ícone, na literatura brasileira, de um projeto de nacionalidade repleto de boa vontade, porém absurdo, do qual a expressão maior é a proposição do tupi-guarani como língua do Brasil. Um Dom Quixote brasileiro que “viverá na tradição”, como sintetizou o jornalista e diplomata Manuel de Oliveira Lima em crítica ao livro publicada em 1916 no jornal O Estado de S. Paulo.

Diante de camisetas verde-amarelas nas ruas nos últimos dois, três anos, o major vem à mente. Há, é verdade, uma pequena diferença entre Policarpo e os patriotas de hoje – a desilusão com a pátria problemática que trouxe o triste fim de Quaresma (morte simbólica ainda pior que a física, porque é destruição de um projeto de vida) é o que move, em parte, aqueles que vão às ruas. Entretanto, o livro, como um todo, é um diálogo de igual para igual entre 1915 e 2015 porque, assim como todos nós, ao longo da obra, o protagonista se volta para os ideais de democracia e cidadania aos trancos e barrancos.

“Assim como Policarpo, acreditamos, hoje em dia, muito na República; sobretudo após a promulgação da Constituição Cidadã de 1988. A Primeira República [1889-1930] vivia uma crise econômica, política e social do tamanho da nossa. Crise política depois do golpe (e quando Floriano assume sem convocar eleições); crise financeira com o encilhamento de Rui Barbosa; crise social com o povo nas ruas, com revoltas como Armada, Marinha, Canudos, Contestado, Greves Operárias e por aí vai”, explica Lilia Moritz Schwarcz, antropóloga, historiadora e pesquisadora da obra de Lima Barreto.

“Com a ascensão do PT ao poder houve finalmente uma inversão nessa pirâmide social perversa”, comenta Luciana Hidalgo, autora de O passeador (Ed. Rocco), finalista dos prêmios Jabuti e do antigo Portugal Telecom (hoje Oceanos), cujo protagonista é Lima Barreto. “A eleição do presidente Lula é histórica. Mas, como vivemos numa democracia, com todos os partidos tomando decisões no Congresso, o PT teve de fazer alianças justamente com essas elites, ou não teria sustentação política para ir até o fim do mandato. E continuamos no círculo vicioso de benefícios, pistolões e corrupções típico da Primeira República. Enfim, assim como Policarpo, mais uma vez nos deparamos com a ‘realidade do sistema’”, completa.

Cena 2

Policarpo esqueceu a senha, mas lembrou-se rapidamente. Não gostava de deixá-la gravada no navegador da web. Fez o login, foi lendo o que aparecia na linha do tempo. Leu postagens sobre gênero, política e urbanismo de alguns dos seus professores na faculdade, de desconhecidos em grupos de discussão. Compartilhou um gif (pequena animação) com uma cena do seriado House of Cards.

Clicou no ícone do processador de texto, que já estava aberto, e releu o texto que escrevera mais cedo, quase pronto. Criticava o Governo Federal, mas defendia que voltar à ditadura era burrice. Pediu o impeachment. No fim, exaltou a riqueza do Brasil. Digitou “Nossa terra, que tem todas as riquezas do mundo, é capaz de produzir” e parou. Apagou. Decidiu encerrar com um “verás que o filho teu não foge à luta!”. Copiou os quatro parágrafos e publicou em seu perfil no Facebook. Aguardava ansiosamente o termômetro apitar: as curtidas.

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As definições do dicionário Houaiss para a palavra “patriotismo” são 1) qualidade ou característica de quem é patriota; e 2) devoção à pátria. Os nacionalistas, que hoje voltam à cena, assim são chamados pelo evidente uso dos símbolos da nação: o hino nacional, uso abundante do verde-amarelo – especialmente a camisa da seleção brasileira. Proliferam, também, declarações de amor à pátria (e ódio ao governo) no Facebook.

Ao contrário dos sentimentos exacerbados facilmente encontrados entre os que vão às ruas ou se pronunciam nas redes sociais, não se acha, no patriotismo do major Quaresma, qualquer traço de malícia. Anos de estudo profundo o fizeram ganhar a pecha de esquisito – como narra Lima Barreto, havia preconceito, na virada do século 19 para o 20, com quem estudava, lia livros acadêmicos de forma autodidata; por outro lado, havia exaltação dos diplomados. Na obra, uma sucessão de maus entendidos associados a essa fama de louco fizeram o protagonista ser encaminhado para um sanatório. Posteriormente, passa a exercitar seu patriotismo na zona rural, trabalhando a terra, tentando fazer exercitar a fertilidade da terra do Brasil – possível herança de uma visão romântica herdada dos românticos como Gonçalves Dias ou José de Alencar. Não à toa, ambos figuravam nas prateleiras do major, como descreve Lima Barreto quando vai apresentar seu protagonista.

Sobre autores como Alencar ou Dias, o crítico literário Antonio Candido lembra, em seu livro A educação pela noite (Ática, 1989), que “a ideia de pátria [deles] se vinculava estreitamente à de natureza e em parte extraía dela a sua justificativa. Ambas conduziam a uma literatura que compensava o atraso material e a debilidade das instituições por meio da supervalorização dos aspectos regionais, fazendo do exotismo razão de otimismo social” (p. 141). Policarpo, na zona rural, planejou sua vida agrícola em detalhes. Vislumbrou lucro, não por “ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso uma demonstração das excelências do Brasil”. “Tu irás ver minhas culturas, minha horta, o meu pomar – e então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras”, diz o major à afilhada, deixando claro seu afeto inocente pela pátria.

Mas essa é a ideia dos românticos, não de Lima Barreto. Negro, suburbano, pobre e com gene da loucura nas veias (herdado do pai), o autor era, ao mesmo tempo, vítima de uma sociedade injusta e um agente crítico dessa mesma coletividade. Chegou, o que era incomum à sua época, a entrar na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas abandonou quando o pai perdeu a sanidade. Foi influenciado pela leitura de escritores russos (em especial, Dostoiévski), franceses (Gaultier, Taine e outros), além de nomes como Eça de Queirós e Miguel de Cervantes. Suas atuações em jornais, na revista Floreal (da qual era fundador e editor) e como escritor deram vazão à necessidade de expurgar sua visão dos problemas sociais.

Ao olhar para a formação do autor, compreende-se que Policarpo é uma crítica ao nacionalismo romântico que imperava em sua época. Um patriotismo que, cultivado em uma vida, teimava em resistir após sucessivos choques de realidade até culminar em desilusão – triste fim. Não é difícil ver o major nos protestos verde-amarelos.
“Não vale à pena — e essa é a ironia do livro de Lima Barreto — cair na patriotada oca e achar que a saída é trocar um herói por outro”, opina Lilia Schwarcz. “Cidadania é projeto de todos; de cada um e em tempo integral. Ou seja, de nada adianta acusar apenas os políticos, vestir camisa amarela enrolado de bandeira e continuar (no seu canto) fazendo, também, atos que atentem ao bem-estar comum. É por isso que a literatura reflete, mas também produz o seu contexto. Triste fim reflete quando se volta para as questões do seu momento; produz, com sua ironia, e com todas as possibilidades abertas que só um romance pode oferecer”, ressalta a pesquisadora.

Cena 3

Policarpo significa “o que produz muitos frutos” (dicionário Houaiss). Entretanto, o que o nome promete, a vida não dá; os esforços do major continuam estéreis, sem resultados. Quaresma é o período que antecede a crucificação do Nazareno. Um prenúncio de sacrifício?

Quando critica o país, é porque deseja vê-lo melhor. Suas reclamações sobre a Petrobras, ciclovias, ônibus lotados, sobre as obras no metrô de São Paulo, a usina de Belo Monte, cotas raciais nas universidades, a inflação, o dólar, acerca do sucesso de Wesley Safadão e Anitta, do Chico Buarque que “gosta do PT” – tudo isso é sinônimo do seu amor à pátria. Sente-se injustiçado quando ouve que ele “reclama demais”; afinal, ele foi a todos os protestos que pedem a saída da Dilma.

Andava desgostoso mesmo com o futebol, sua paixão. Não joga, mas ama ver. Policarpo nutria raiva contra a seleção, cujas glórias esportivas não são mais as do passado. A Copa foi um fiasco e tudo indica que as Olimpíadas seguirão o mesmo caminho.

Não vê melhoras, só pioras. E algumas mudanças que o deixam confuso.

Quaresma, vez por outra, dá roupas usadas à diarista que ajuda Adelaide no serviço doméstico. “É da família”, diz às visitas, enquanto a mulata de meia-idade volta para a cozinha. Ela, sempre de gestos comedidos e risada gostosa, impressionou Policarpo na semana passada, quando pediu licença para não trabalhar em março Vai viajar. Comprara a passagem no dia anterior. “Meu deus”, exclamou mentalmente o patrão, “de avião?”. Disfarçou a surpresa. “As coisas estão mudando... talvez já tenham mudado”.

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A literatura de Lima Barreto, os expurgos sociais que ele faz, trazem consigo muito da vida do autor nos problemáticos locais físicos ou sociais que ocupou, de sua experiência como amanuense (escriturário) da Secretaria de Guerra e como pessoa clivada pela experiência da insanidade. Com disse Antonio Candido em A educação pela noite (p. 39), nosso autor em questão “funde problemas pessoais com problemas sociais, preferindo os que são ao mesmo tempo uma coisa e outra — como por exemplo a pobreza, que dilacera o indivíduo, mas é devida à organização defeituosa da sociedade; ou o preconceito, traduzido em angústia, mas decorrendo das normas e interesses dos grupos”.

O diálogo entre esses vários temas, que perpassam todas as suas obras (em maior ou menor grau) é o que Luciana Hidalgo chamou, em sua tese de doutorado na UFRJ, de “literatura de urgência”.

“Criei essa expressão para tentar dar conta dessa escrita múltipla que é o Diário do hospício: uma série de anotações, registros, extratos poéticos escritos por Lima Barreto durante sua internação no hospício em 1919/20. Achei necessário qualificar esse tipo de literatura como uma narrativa-limite produzida numa situação-limite, totalmente contaminada pela experiência pessoal do autor. Uma literatura feita na instituição que ao mesmo tempo servia de antídoto à instituição. No entanto, aos poucos fui percebendo que toda a obra do Lima foi contaminada por sua vivência de uma forma radical. Trata-se de uma escrita que parte de um eu premente, urgente, enredado em questões íntimas que transbordavam e iam parar até mesmo na ficção (o que era visto de forma negativa pelos críticos da época).”

Algumas dessas obras podem ser encaradas como expurgos muito particulares de facetas específicas. Em apresentação à edição de Clara dos Anjos da Penguin & Companhia das Letras, Beatriz Resende, escritora e professora da UFRJ, sintetiza: “O funcionário público produziu Triste fim...; a crença na possibilidade de ser reconhecido como escritor ainda em vida lhe dá a coragem de publicar o sofisticado Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá; o jornalista produz Clara dos Anjos”.
Mesmo com marcações mais definidas em certos livros, é importante ter em mente que o autor está sempre falando das mesmas questões íntimas, sempre fazendo o mesmo combate social. “É um questionamento profundo do papel do intelectual no Brasil, levantando a possibilidade de uma intelectualidade independente em relação à mentalidade dominante”, complementa Luciana Hidalgo.

Em entrevista à revista Época, em 1916, sobre Triste fim, o ar de pensador independente característico de Lima Barreto fica evidente:

- É um livro comum, em que pretendo mostrar a puerilidade de muitas das nossas pretensões brasileiras. Terei errado? Não sei. Terei acertado? Não sei.
- Em que meio se passa?
- Na classe média. Não posso sair dela. Tinha mesmo vontade de sair, mas não me é possível. [...] Desde o meu [Recordações do escrivão] Isaías Caminha, que só trato de obedecer à regra do meu Taine: a obra de arte tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem. É este o meu escopo. Vim para a literatura com todo desinteresse e toda coragem. O fim da minha vida é as letras. Eu não peço delas senão o que elas podem me dar: glória [...].

Lima Barreto tentou entrar na Academia Brasileira de Letras por três vezes. Não teve qualquer sucesso. Ele era o oposto do intelectual que se desejava à época, mais próximo do perfil de Machado de Assis (que se adequou às normas sociais), do que um “rebelde” – à sua independência de pensamento se associava uma vida boêmia mal vista pelas elites.

Querer se manter independente, mas tentar entrar em uma instituição conservadora das elites é apenas uma das muitas ambivalências que Lima Barreto demonstra na vida e, consequentemente, em sua obra. O exemplo mais evidente são os subúrbios que, mesmo paradisíacos, também encerram pessoas de outra sorte: os fúteis, os de mau caráter e, principalmente, os sofridos (“o subúrbio é o refúgio dos infelizes”, diz ele em Clara dos Anjos). Além das contradições, ele também transparece reflexos de uma dificuldade em se institucionalizar, seja por questões individuais ou de família. Por conta dos problemas de saúde do pai, ele não completou os estudos na Politécnica do Rio (ou seja, deixou de ganhar um diploma, título distintivo); e o tempo que poderia passar como amanuense foi abreviado pela aposentadoria (incapacidade de se manter no serviço público, o qual sempre criticou de forma irônica). Mesmo na morte: era cria da periferia, mas pediu para ser enterrado no bairro burguês de Botafogo.

Essa ambivalência, entretanto, não se vê no tratamento dado ao patriotismo. Em anotação ao rascunho da história de Policarpo, Lima Barreto diz: “Policarpo Quaresma, ideia que mata; a decepção; o pessimismo”. Essa associação se mantém firme em toda a obra, principalmente porque o autor, para dar mais “força de morte” à ideia do nacionalismo, o associa à insanidade. Mais uma de suas autoficções: Lima foi duas vezes internado por problemas mentais, em 1914 e 1919. “É claro que [a condução de Quaresma à loucura] também fala de si mesmo, do próprio idealismo, de sua luta incansável, em crônicas, romances, contos etc, para pensar – e melhorar – o Brasil, reduzindo a desigualdade social, combatendo o racismo, investindo contra o sistema de pistolões que não dava a mesma oportunidade para todos os brasileiros”, complementa Luciana Hidalgo.

Cena 4

Policarpo lia com descrença uma notícia em um site duvidoso: “SOCIALITE AGORA É CONTRA IMPEACHMENT” (assim, em maiúsculas, como quem grita, importuna). Os argumentos da mulher eram basicamente dois – a presidência sancionou a lei de delações, que criou uma das maiores investigações sobre corrupção no país; e não havia interferência do executivo nacional nas investigações. “É até verdade”, pensou Quaresma, “mas com certeza tem caixa dois, tem dinheiro envolvido, não é possível que não tenha. Teve pedalada fiscal. Não entendo quem defende... essa mulher”.

A entrevistada finalizava: “Não concordo em nada com esse governo, não voto em esquerdista, mas reconheço que é preciso manter as coisas como estão e prosseguir as investigações. É preciso haver legitimidade”. “Não vota na esquerda, mas fala como se fosse”. Entrou no Facebook.

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“Momentos de crise são momentos em que se produz, de forma acelerada, esse tipo de sensação: de esperança no porvir, de desesperança no presente”, lembra Lilia Schwarcz, puxando pela história a estratégia dos movimentos de patriotismo: “O nacionalismo sempre, e desde o século 19, representou um discurso que usa de elementos sentimentais para comover a população e criar um ‘sentido’ de conjunto: de pátria”.

Nos 21 anos de ditadura brasileira, o sentimento patriótico era inflado pela publicidade oficial e, naturalmente, usado para fins de manutenção do estado de exceção – a síntese maior desse clima talvez seja o slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o”. O apelo a um amor cego pela coletividade serve a um projeto de nacionalidade que precisa ser olhado com desconfiança. No caso da ditadura, hoje é possível ver a obviedade dos usos de uma propaganda nacionalista. Será que conseguimos enxergar esses projetos nos telejornais, discursos partidários, nas respostas rápidas das discussões de bar?

Triste fim oferta soluções aos problemas que lança? Não diretamente. O livro em si, na verdade, é a resposta: a prática da reflexão crítica. Dos problemas políticos aos raciais, de gênero, o olhar sobre a burocracia e o serviço público, o ceticismo quanto à legitimidade prática dos títulos distintivos, é preciso lançar tudo ao crivo das ideias, como fez Lima Barreto. As ideias, elas também estão a serviço de projetos. O autor deixou disponível às elites um mundo – o dos subúrbios e de todas as questões citadas – que era negligenciado propositalmente, mas que precisava ser conhecido para satisfazer seu senso de justiça social. A nós, legou a dura conclusão de que pouco mudou em 100 anos. A honestidade de Lima Barreto, transposta em uma escrita sem grandes pretensões estéticas, é um caminho possível para correr o olhar sobre a coletividade e sobre como histórias individuais são (ou podem ser) histórias sociais.

As manias de Policarpo, que sua irmã Adelaide enxergava com alguma estranheza e indulgência, nos apontam possibilidades para pensar, estar e agir. Deixemo-lo com elas.

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