Arte sobre fotos de divulgação

 

Afinal, quem será o ubíquo artista anônimo que pendura sapatos pelos cadarços na rede elétrica, nos postes, nas árvores do mundo? Esta indagação atravessa o inclassificável Nocilla dream, de Agustín Fernández Mallo. E por dois motivos. Um deles é a imagem recorrente de um álamo perdido no deserto de Nevada, nos EUA, única árvore em milhares de quilômetros desérticos, cujos galhos são habitados por “centenas de pares de sapatos que se submetem a um movimento pendular, mas nem todos com a mesma frequência, já que os cadarços pelos quais estão presos aos ramos são de comprimentos muito diferentes (...). Sapatos de salto, italianos, chilenos, tênis de todas as marcas e cores (inclusive um par de míticos Adidas Surf), nadadeiras, botas de esqui, botinhas de criança ou botinas de verniz (...). O álamo é a prova de que os objetos, passados adiante, servem por si mesmos para algo mais do que aquilo para que foram criados”. O outro motivo está embutido na citação: os objetos encontrados, retirados de seu habitatnatural e recontextualizados em novo ambiente, com outros vizinhos, guardam um significado diverso daquele para o que foram criados. Objetos encontrados, ready-mades, apropriação, citação, recorte, colagem: em Nocilla dream, estamos nos domínios de algumas das técnicas favoritas dos surrealistas do século 20. No entanto, os textos que formam o livro são bem concretos, como convém à formação de seu autor — a física.

 

Nocilla dream é o primeiro “romance” do poeta Agustín Fernández Mallo, nascido em La Coruña em 1967. Publicado em 2006, foi apontado como um dos romances do ano pela crítica espanhola, e constitui-se no primeiro episódio de seu Projeto Dream, completado com os livros Nocilla experience Nocilla lab. “Nocilla” é uma citação a uma marca de pasta de chocolate com avelãs aparentada à Nutella, louvada pelo grupo punk galego Siniestro Total, que inspirou Mallo em seu projeto — e acabou dando nome a uma geração de escritores espanhóis que empaturram-se com os objetos da sociedade de consumo, deliciam-se com a mistura de gêneros literários e lambuzam-se de liberdade narrativa. O livro é formado por 113 capítulos, uns curtíssimos outros mais longos, vários chupados da obra de cientistas, escritores, ensaístas, jornalistas, entremeados por descrições e narrativas de personagens que aos poucos vão se encontrando e se distanciando. Neste pós-Jogo de amarelinha, os textos aleatoriamente combinados formam o que Mallo chama de “docuficção”, uma vez que “foram extraídos dessa ‘ficção coletiva’ que comumente chamamos de ‘realidade’” e também “daquela outra ‘ficção pessoal’ que costumamos denominar ‘imaginação’”. “É uma maneira de articular uma construção”, explica Mallo, por e-mail, ao Pernambuco. “Bebe do gênero documental mas também há ficção no ato em que esse documento é modificado. É o que fazem com as canções DJs e músicos da cena eletrônica quando usam o sampler”, diz.

 

A ideia do livro deve ter se dado na mesma “mesa de dissecação” citada por Lautréamont em seus Cantos de Maldoror, em que elogiava a “beleza convulsiva” surgida do “encontro fortuito entre um guarda-chuva e uma máquina de costura”. A frase do escritor uruguaio-francês, se sabe, é a chave do surrealismo. Já em Mallo, a inspiração se deu com o encontro fortuito entre a leitura de uma reportagem sobre a “estrada mais solitária dos EUA”, publicada no The New York Times, e o verso de Yeats “Tudo mudou, mudou por completo/ uma beleza terrível nasceu” impresso em um sachê de açúcar de um restaurante chinês, lido no mesmo momento em que ouvia a canção “Nocilla, qué merendilla”, do Siniestro Total. A estética do sampler, da citação, da referência — ou até mesmo do roubo de obras alheias — é vista com naturalidade no cinema, nas artes plásticas ou na música (o hip hop não existiria sem citações). Para além do surrealismo, Nocilla dream reivindica alguns postulados da pós-modernidade: a fragmentação do discurso narrativo, a intertextualidade, a ironia, a preponderância das interpretações sobre os fatos — todos procedimentos afeitos à poesia.

 

À margem de sua inegável capacidade de sugestão lírica, Mallo abre um mosaico de personagens desalojados, bem como símbolos e objetos simbólicos que parecem sempre fora de lugar (os citados sapatos no álamo, um gigantesco labirinto subterrâneo, a cabine de um avião em terra, uma improvável estátua de Borges), de modo semelhante às curvas de um fratal construídas em uma longitude infinita sobre uma superfície finita. Esta metáfora é utilizada com acerto no transcurso da narração, e define muito bem o resultado final. Se há algum argumento (uma vez que o autor foge o tempo todo das regras da narrativa clássica), este se desenvolve em sua maior parte nas enormes planícies desabitadas de Nevada, Oklahoma e Texas — não lugares, curiosamente parecidos com aqueles que cruzamos todos os dias —, as vísceras eletrônicas dos servidores da internet pelo planeta, zonas onde a personalidade pode ser terraplenada, a vida inventada, onde a máscara se converte no verdadeiro rosto.

 

“Sim, talvez o deserto seja a metáfora condutora”, escreve Mallo. “O deserto é um lugar de fronteira, um limite entre o orgânico e o inorgânico, ou seja, entre a vida e a morte. Os personagens também estão de algum modo em um limite, do antissocial, do estranho. Talvez seja um romance de fronteiras (um pouco como David Lynch), tanto físicas como simbólicas. E essas fronteiras se podem articular tanto com referências clássicas como científicas ou pop. Mas o que mais destacaria do livro é seu tom poético e simultaneamente plano, quase jornalístico. Se não fosse poeta, não o poderia tê-lo escrito”, afirma. E como o autor relaciona a física, sua profissão, com a poesia e a narrativa? Poesia seria o mesmo que matemática? “Para mim a física é um grande poema”, afirma. “Não é a realidade nem uma representação da realidade, e, como tal, é suscetível de ser tratada como ficção. Para chegar a esta visão li pensadores como Rorty, Baudrillard ou Félix de Azúa. Por outro lado, não acho que a poesia seja matemática — ao contrário: a matemática é poesía”, diz.

 

Sem deixar de ser, do ponto de vista formal, uma tapeçaria de histórias que abrem caminhos, o interessante em Nocilla dream é sua capacidade de nomear o mundo que nos rodeia sem que o tenhamos percebido. Um mundo que já não sentimos unicamente com nossos sentidos imediatos, ou sequer em nossa relação com os demais, mas que nos oferece uma possibilidade infinita de transformação, nos permite agir como se fôssemos outra pessoa e até mesmo nos sentirmos como outra pessoa (sentimento muito afinado com a poesia), ao redor de que questionamos as barreiras psicológicas do espaço-tempo. Internet, aeroportos, fronteiras, países inexistentes; lugares de onde se passa para um outro estado, espaços onde se poderia viver mas dificilmente chamaríamos de lugar: a narrativa é o trânsito como formulador de identidade.

 

Por conta de sua recorrência à intertextualidade e citação, Mallo chegou a ter um livro seu retirado de circulação. Curiosamente, um livro que citava um dos autores mais conhecidos por sua intertextualidade: Borges, autor de contos como “Pierre Menard”, sobre um sujeito que reescrevia nada menos do que o Dom Quixote. No prólogo e epílogo de seu El hacedor (de Borges), ‘Remake’, Mallo reproduziu os mesmos do livro O Fazedor do argentino, com sutis modificações: onde um fala de Leopoldo Lugones, Milton e da Eneida, o outro fala de Borges, Benet e Joy Division. Se, para Mallo, a homenagem era evidente, para María Kodama, viúva do autor portenho e administradora de seus direitos, não teve graça nenhuma — ela colocou seus advogados no encalço de Mallo até que a Alfaguara retirasse a obra das livrarias.

 

Surpreso com a atitude de Kodama, Mallo afirmou nunca ter pensado que devesse pedir permissão para homenagear a um de seus mestres: “Borges foi o primeiro a usar as mesmas técnicas de apropiação e reescritura que uso”, afirma. O autor lembrou que mesmo na literatura não existiria motivo para tanto escândalo com esta técnica, e cita Cabrera Infante: “Em seu livro Exorcismos de esti(l)o, faz um remake do epílogo de El hacedor, que intitula ‘Epilogolipo’, no qual só muda umas palavras. Creio que é um precedente que legitima minha obra: não deixa de ser uma espécie de ‘jurisprudência moral’”, brinca. Diga-se, a mesma jurisprudência que faz do anônimo e ubíquo artista que pendura sapatos em árvores um artista tão original.

 

 

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