Perfil John D. Catherine T. MacArthur Foundation Divulgacao

 

 

O que eu estou te contando não é uma história, mas um naufrágio – os pedaços flutuando, finalmente legíveis [nota 1

Quando Ocean Vuong lê um poema, é preciso escutar com atenção. Sua voz ecoa com delicadeza, ameaçando desaparecer a qualquer momento. Seu corpo se constitui aos poucos, através das palavras, expondo sua própria fragilidade, compartilhando seus medos, sua experiência, uma visão de mundo. Os corpos não são todos iguais, alguns são tratados com valor e outros tidos como descartáveis. É assim no Brasil. É assim nos Estados Unidos. Vuong, um homem gay e vietnamita-americano, sabe que ocupa um lugar que, para muitos, não deveria lhe pertencer. Não é ele quem deveria estar em destaque, no palco ou na livraria, expondo seus valores e afetos. Enquanto lê, as suas palavras se revelam tão importantes quanto os silêncios que as contornam. A cena deixa todos em suspensão.

Você está tão silencioso que você é quase
                                                          amanhã,
O corpo foi feito macio
para nos resguardar
                                        da solidão

Nascido em Saigon, no Vietnã, em 1988, Vuong mudou-se para os Estados Unidos aos dois anos de idade, após passar um ano em um campo de refugiados nas Filipinas. Neto de uma vietnamita e de um soldado americano, de um encontro em meio à guerra, sua vida está costurada à história de uma forma particularmente dolorosa; algo sempre presente em sua escrita.

Um soldado americano fodeu uma camponesa vietnamita. Por isso minha mãe existe.
   Por isso eu existo. Por isso sem bombas = sem família = sem mim.

Autor de dois livros – um de poemas, lançado em 2016 e publicado em 2019 no Brasil pela editora Âyiné, com tradução de Rogério Galindo, Céu noturno crivado de balas; e um romance, lançado este ano nos EUA, On Earth We’re Briefly Gorgeous, pela Penguin Press – Vuong tornou-se uma das vozes mais importantes e originais a aparecerem nos últimos anos. [nota 2] Um autor cujos temas centrais – para não dizer sua própria existência – incomodam o establishment opressor que se instaurou naquele país. Nesse sentido, Vuong é alguém que pode nos ajudar a pensar também o momento que vivemos no Brasil, quando o desenho de um beijo em uma revista em quadrinhos é capaz de levar o poder público a recolher (e queimar?) livros que não reproduzem sua própria intolerância.

Seus dois livros foram recebidos de forma muito calorosa e, se tratam de temas recorrentes na literatura estadunidense, com ênfase para a Guerra do Vietnã, o fazem de um ponto de vista particular: o de quem não é uma personagem a favor ou contra a guerra, mas de quem se sente herdeiro involuntário de sua violência. Imigração forçada, preconceito e morte, mas também diferença, tradição e família são temas recorrentes tanto na poesia, como na prosa de Vuong.

No seu romance, assim como seu livro de poemas, Vuong bebe com frequência da sua história pessoal, habitando entre o autobiográfico e o ficcional. Escrito como carta para uma mãe, o romance conta como e por que a personagem principal se tornou escritora; por que escolheu contar histórias que pareciam existir somente fora da tradição literária. No salão de beleza onde trabalha a mãe de Little Dog, personagem principal que narra o livro, as mulheres cozinham espremidas em um quartinho, escondidas, conversando em vietnamita. Durante os atendimentos, a palavra mais repetida por elas em inglês é “desculpa”. “Desculpa” como agradecimento, “desculpa” como “por favor”, “desculpa” como uma palavra que preenche os vazios: desculpe-me por ter feito a sua unha, por cobrar pelo meu trabalho, por não poder continuar em meu país e ter vindo parar aqui.

Um dos temas centrais de Vuong é como estas dores – da guerra e da pobreza – se transformam em hábitos e deixam marcas e medos que atravessam gerações. A violência não é facilmente esquecida, seja ela a da guerra ou a da intolerância ao diferente. E, contra ela, pela sobrevivência, outras violências parecem necessárias. Após contar à sua mãe o bullying que sofrera no caminho da escola, Little Dog não recebe, em primeiro lugar, compaixão, mas um tapa no rosto, que entrega – com violência – a fragilidade e a impotência de sua mãe, mas também o esgotamento das suas forças: “‘Você precisa encontrar um jeito, Little Dog’, você disse dentro do meu cabelo, ‘você precisa, porque eu não tenho inglês para te ajudar. Não posso dizer nada para fazer com que parem. Encontre um jeito. Encontre um jeito ou nunca mais me conte nada sobre isto, entendeu?’ Você se afastou. ‘Você precisa ser um menino de verdade e ser forte. Você precisa enfrentá-los ou eles irão continuar. Você tem uma barriga cheia de inglês.’ Você colocou a mão no meu estômago, sussurrando: ‘você precisa usá-lo, está bem?’”

Aprender a navegar um mundo que constantemente ameaça o diferente é algo com que Little Dog terá de lidar constantemente; algo que todos que desviam da normatividade hegemônica enfrentam. Ser invisível, parece, é uma questão de sobrevivência. Viver em reação ao medo e à violência parece a única alternativa. Ao contar para sua mãe que “não gosta de meninas”, Little Dog escuta que não pode fazer isso. “Eles vão te matar, Little Dog.” Para a sua mãe, ele já é vietnamita, já é uma minoria perseguida; não pode ser mais outra. Não haveria como resistir a mais outra camada de opressão. Como criticar a opção dela pela sobrevivência? Mas como aceitar, também, ser definido, mesmo que reativamente, pelo ódio que os cercam?

O romance de Vuong é organizado em uma estrutura chamada kishōtenketsu, comum nas literaturas chinesa, coreana e japonesa, que ele define como uma forma narrativa que enfatiza proximidade em vez de conflito. [nota 3] Não há, no romance, um vilão ou algum obstáculo que precisa ser vencido para chegarmos a um final satisfatório. A história se move através de novas personagens que são introduzidas na vida do narrador e do afeto que se cria entre elas. Não é o conflito que define o percurso, mas, sim, os elos que se criam. Proximidade é também como Vuong define, na ficção, o amor na cultura vietnamita, onde não se diz “eu te amo”, mas, sim, trabalha-se junto, cozinha-se um para o outro, faz-se massagem na mãe após um longo dia de trabalho.

Seguindo essa lógica da proximidade, Little Dog conhece Trevor na fazenda de tabaco onde trabalha durante sua adolescência. Trevor se tornará um catalisador da descoberta sexual do narrador e é através dessa relação que Little Dog percebe que não precisa ser invisível; que outras pessoas também podem vê-lo. Mesmo nessa relação, entretanto, a violência existe. Trevor, um típico americano, com armas e bravatas, uma masculinidade fragilmente construída como dominadora, é incapaz de se encontrar. Tem medo e deixa que isso, por momentos, defina os caminhos que escolhe. Ele tenta estabelecer outra lógica, recíproca, com Little Dog, mas não consegue. “‘Não posso. Eu simplesmente – digo...’ Ele disse olhando para a parede. ‘Não sei. Eu não quero me sentir como uma menina. Como uma puta. Não posso, cara... Desculpe, não é para mim–’ Ele pausou, limpou o seu nariz. ‘É para você, não é?’”. A masculinidade por trás do bullying que Little Dog enfrentava ao ir para a escola, por ser asiático, por não saber inglês direito, por gostar de ler e por ter uma bicicleta rosa, a mais barata que sua mãe encontrara, reaparece em seus momentos de maior intimidade.

A violência, que sempre começa pelo diferente, também chega a Trevor. As drogas, um mecanismo para as personagens resistirem à brutalidade do real, assumem o controle. Trevor se vê sugado pela epidemia de opioides que dominou as páginas de jornais estadunidenses nos últimos anos, quando se descobriu que companhias farmacêuticas enganavam consumidores incentivando-os a utilizar drogas altamente viciantes como se fossem meros analgésicos. Trevor se vicia em oxicodona e logo passa para a heroína. Apesar de sua fragilidade, ou por causa dela, do seu medo de agulhas, Little Dog persiste, enquanto os outros desaparecem ao seu redor.

É o desrespeito à vida e ao outro que sempre nos alcança, seja por meio de uma barragem que rompe e não poupa nada em seu caminho, seja pela queima da Amazônia e o aquecimento global, ou de um projeto idealizado para enriquecer poucos às custas de muitos. Trevor, um refúgio para Little Dog durante a sua adolescência, uma abertura de outro mundo que não o dele, aquele que o reconhece quando todos dizem para ele passar desapercebido, é tragado pela selvageria de uma sociedade que transforma tudo, até dor e dependência, em oportunidade de negócios.

Estas vidas em perigo são as vidas que interessam a Ocean Vuong. E ele as conta a partir do afeto que sente por elas. Como Little Dog escreve para sua mãe, “eu nunca quis construir uma grande obra, mas preservar em uma os nossos corpos, respirando e sem explicações”. Contadas com afeto, a partir da proximidade, buscando um outro caminho que não reproduza a mesma lógica que quer eliminá-las, Vuong consegue definir a si mesmo e as suas personagens em outros termos. A violência, ainda que presente, não as resume. Little Dog consegue viver não de uma forma reativa, mas investindo em afetos e na sua própria liberdade. Isto não muda o fato de a violência existir e de ser obliterante, algo que Vuong sabe muito bem, mas evita que ele perca sua própria identidade e sensibilidade em nome da sobrevivência. É esta a linha tênue em que ele caminha; uma linha em que todos nós, no Brasil de Bolsonaro, também teremos de caminhar. A violência está presente, não há dúvida, e afetará cada um de um jeito diferente. E nós teremos de enfrentá-la, talvez também com violência: mas ainda assim não podemos deixar que ela nos defina.

Todo este tempo eu disse a mim mesmo que havíamos nascido da guerra – mas eu estava errado, Ma. Nós nascemos da beleza.
Não deixe ninguém nos confundir com frutos da violência – mas que a violência, mesmo tendo atravessado o fruto, tenha sido incapaz de estragá-lo.

 

NOTAS

[nota 1]. Com exceção dos dois poemas (Você está tão silencioso que você é quase… e Um soldado americano fodeu uma camponesa vietnamita...), as citações são do romance de Vuong. As traduções são minhas.

[nota 2]. Ocean Vuong tornou-se, em 2019, um MacArthur Fellow. A prestigiosa nomeação feita pela Fundação MacArthur vem acompanhada de uma bolsa para criação artística para o autor usar como quiser nos próximos cinco anos.

[nota 3]. Vuong explica em entrevista ao The New York Times, disponível em inglês aqui: nytimes.com/2019/05/25/books/ocean-vuong-earth-briefly-gorgeous.html.

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