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OS PAPÉIS DA (PÓS) CRÍTICA

“Pensar o espaço da crítica literária hoje em dia – propõe Wander Melo Miranda logo nas primeiras linhas de Os olhos de Diadorim, seu novo livro de ensaios a ser lançado pelo Selo Suplemento Pernambuco / Cepe Editora no próximo mês – requer uma perspectiva de leitura que possa se valer de um esforço de desinstrução do eu, diria André Gide, ou de esquecimento, como queria Roland Barthes, para que se possa dar conta do campo expandido (a expressão é de Rosalind Krauss) da literatura considerada como performance (artes cênicas) ou instalação (artes visuais) – de um inespecífico, em suma, que faz imaginar a existência de um óvni muito especial, um ‘objeto verbal não identificado’, do qual falam Christophe Hanna e Flora Süssekind”. 

De modo ágil, e em alta voltagem conceitual, Wander Melo Miranda introduz tanto o complexo debate em torno das condições, limitações e procedimentos da crítica literária atual – uma das “obsessões teóricas” de seu livro, entre outras, conforme expressão de nota introdutória – quanto também procura renomear este objeto que poderíamos, por ora, seguir chamando de literatura contemporânea.

Tais relações entre os papéis da crítica hoje em dia e os novos (às vezes novíssimos, indefiníveis ou provisórios) objetos textuais que se oferecem à experiência parecem ser uma das principais preocupações (e provocações) do crítico – preocupação, aliás, também do editor, função desempenhada por Miranda com rara competência na Editora UFMG de 2000 a 2015, a partir da qual pautou alguns dos debates acadêmicos brasileiros mais marcantes dos últimos anos.

Mais do que isso, o trecho de abertura do primeiro ensaio do livro, intitulado Pós-crítica e o que vem depois dela, introduz uma espécie de radiografia dos ensaios seguintes do volume – “o que vem depois” – à medida que esboça, embora sem afirmar diretamente, uma certa concepção do procedimento crítico que o próprio Miranda propõe e adota.

Leitor habitual de autores da desconstrução como Roland Barthes e principalmente Jacques Derrida, mas também de filósofos e críticos mais atuais como Rosalind Krauss, Josefina Ludmer e Jacques Rancière, Miranda entende que o procedimento de leitura da crítica deve vir acompanhado de uma reflexão sobre si próprio – ou, para usar o jargão teórico, de sua própria desconstrução. É o que ele sugere, com elegância, sofisticação e com certa coragem, nos três primeiros ensaios de Os olhos de Diadorim, uma espécie de tríptico que enfrenta tal questão a partir de diferentes ângulos.

Ao conceber seus ensaios a partir da possibilidade de intervenção no debate do presente – e nesse sentido o livro nasce, a seu modo, pelo menos nestes primeiros textos, com certa vocação à controvérsia –, Miranda não abre mão de testar hipóteses, soluções e saídas para os impasses da crítica literária atual.

Primeiro, faz um diagnóstico do dilema central da crítica universitária que “vive, a um só tempo, seu momento mais alto de realização e seu mais decisivo apagamento – ou desafio”. E sugere então, de modo também provocativo, de acordo com a promessa da própria noção de pós-crítica, não apenas “a supressão do lugar hierárquico ocupado (convencionalmente) pelo crítico”, mas também uma “única saída” para a crítica contemporânea: colocar-se na posição de observadora e experimentadora, como em um teatro “onde o público (...) se vê confrontado consigo mesmo enquanto coletivo”, e não mais como “suma instância avaliadora”.

Tomando de empréstimo o conceito de “espectador emancipado” elaborado originalmente por Jacques Rancière – talvez o principal interlocutor de Wander Melo Miranda neste livro, ao lado de Silviano Santiago, como se verá –, o crítico propõe que é o “inusitado da experiência artística” que faria as vezes de dramatizar o lugar ocupado hoje pelo crítico “em meio a efeitos de deslocamento que não permitem a certeza das categorias modernas de análise e interpretação”, categorias então desafiadas na experiência do contemporâneo.

“COMUNIDADES ALEATÓRIAS”

Mas a pós-crítica, como já apontado, é concebida por Miranda em permanente tensão com o estado da literatura atual, ou seja, com os novos procedimentos e desafios da literatura contemporânea, que poderiam ser sintetizados por duas noções com as quais o crítico dialoga – o “inespecífico” e a “pós-autonomia” –, assim como pelas recentes formas de circulação do literário (do jornalismo literário aos estudos culturais, às redes sociais e a outros critérios flutuantes de gosto) que acabam por influenciar ou determinar as condições de leitura no presente.

Neste aspecto, uma das características mais marcantes da reflexão de Miranda consiste na qualidade da atenção que concede ao contemporâneo, ou seja, às mudanças e flutuações pelas quais o conceito de literatura vem passando – uma atenção crítica e criteriosa, mas também radicalmente aberta, sem qualquer preconceito, único modo talvez de “dar conta do trânsito indisciplinado da letra contemporânea”, conforme argumenta.

É esse tipo de atenção que acaba por suscitar no crítico uma certa atração tanto pelas performances e “narrativas biopolíticas” do mexicano Mario Bellatin (autor que, praticamente desconhecido entre nós, mereceria mais atenção das editoras brasileiras) quanto pelos contos recentes (“realidadeficção”) do carioca Geovani Martins, assim como pelos romances históricos de Rodrigo Lacerda e até de Vargas Llosa, que Miranda procura reler em busca de um ângulo novo de leitura, em diálogo com Euclides da Cunha. Em conjunto, com nomes e obras tão diferentes entre si, teríamos uma espécie de “comunidade aleatória” de autores, para usar o conceito central de outro ensaio do livro.

Nota-se que o próprio estilo dos textos de Miranda se situa em uma região também indefinida entre a leveza do ensaio, de caráter mais especulativo; a densidade teórica do artigo acadêmico, marcante na erudição e nos vastos diálogos críticos que propõe; e o próprio oportunismo da resenha, de aspecto mais mundano e pontual. Embora Os olhos de Diadorim seja, de fato, uma reunião de textos dispersos – ao todo, são 13 ensaios e uma “coda” – escritos em sua quase totalidade nos últimos 10 anos, passa também a impressão de ter sido concebido por meio de uma rigorosa unidade, resultado talvez das “obsessões teóricas” do crítico, que dão coesão ao todo.
Uma dessas obsessões, talvez a mais definitiva deste livro, é expressa pela epígrafe de Jacques Derrida – ao constatar que não há nenhuma essência ou existência garantida da literatura justamente porque o acontecimento literário, menos natural do que qualquer outro, torna-se ainda mais improvável ou difícil de verificar. Eis uma das principais chaves para a entrada – e experimentação – não só nas agruras e delícias da (in)estética contemporânea, mas também para situar os lugares e vazios a partir dos quais o raciocínio de Wander Melo Miranda se desloca neste conjunto ao mesmo tempo harmônico e heterogêneo de ensaios.

 

“GOSTO PELAS COISAS ANTIGAS”

Agora coleciono cacos de louça
quebrada há muito tempo
Coleção de cacos, Carlos Drummond de Andrade

Em paralelo a essa consideração que dispensa ao debate sobre o contemporâneo, Wander Melo Miranda cultiva também um certo “gosto pelas coisas antigas”, para utilizar a expressão que ele próprio usa em referência a Alexandre Eulálio no ensaio sobre algumas das correspondências europeias deste crítico e professor tão singular e pouco lembrado de nossa cultura – com quem Miranda poderia ser aproximado pelo seu espírito ecumênico, e ao mesmo tempo discreto, assim como pela erudição e pela forte ligação de sua obra com Minas Gerais, aspectos também marcantes desse conjunto de ensaios.

No caso de Miranda esse “gosto pelas coisas antigas” se traduz, sobretudo, nas pesquisas que vem realizando, ao longo dos últimos 30 anos, no Acervo de Escritores Mineiros da UFMG, do qual foi um dos fundadores e onde desenvolve uma série de trabalhos – entre organização e edição de textos literários, análise de correspondências, manuscritos e outros documentos – em torno de autores variados, principalmente de Minas Gerais, mas não só.

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No presente volume, entre autores mineiros, constam ensaios sobre Cyro dos Anjos, Pedro Nava, Carlos Drummond e Guimarães Rosa – sendo este último, no ensaio que dá nome ao livro, objeto de uma bela reflexão que dialoga com as hipóteses de Giorgio Agamben sobre a poesia de amor do estilo novo italiano. No entanto, nesse conjunto, grande parte dos comentários de Miranda se concentra em estudos a respeito do material presente no próprio Acervo, a exemplo das centenas de cartas trocadas entre Cyro e o poeta de Claro enigma – que foram reunidas em 2012 em edição da Globo, com organização do próprio Miranda em parceria com Roberto Said, resultado de pesquisas realizadas tanto no próprio arquivo da UFMG quanto na Fundação Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro.

Da leitura dessas quase 200 cartas – “arquivo antes esquecido ou prestes a ser deletado pela sua própria inatualidade de confidência trocada entre ‘compadres’”, adianta o crítico –, Miranda tira conclusões variadas, de ordem pessoal e estética, privada e política, atento ao que estes textos dirigem ao destinatário e também sobre o que revelam sobre o próprio remetente.

As preocupações de Cyro com a composição de seu mais conhecido romance, O amanuense Belmiro, e a postergação da publicação do livro, tema de uma série de cartas, assim como os comentários ferinos que Drummond fazia de outros escritores nacionais, como Lúcio Cardoso (“essa literatura ‘restaurada em Cristo’ com que nos aporrinha”) e José Lins do Rego (“como escreve mal!”), mais do que satisfazer um certo gozo voyeur nosso, leitores do futuro, apresentam pistas valiosas relativas à gênese e à recepção crítica da obra desses dois autores fundamentais de nossa literatura, que Miranda vai pontuando com perspicácia nas entrelinhas dessa memória “frágil e resistente” que são as cartas.

Já no caso das cartas de Eulálio, o interesse muda: recai mais sobre o estilo misto desses textos, entre o relatório, o livro de viagem e o diário de bordo, do tom da conversa amistosa ao intenso e erudito diálogo entre culturas – cartas que ora se parecem com “uma espécie de romance de formação intelectual em território estrangeiro”, ora com “uma linguagem de teor elíptico e telegráfico, de nítida ressonância oswaldiana”.

As análises que o crítico realiza de documentos epistolares, nesse caso, têm significado especial porque as cartas servem, além do mais, como metáfora para conceber a prática da pesquisa em arquivo, que se torna “vivo outra vez”, como se o crítico fosse então uma espécie de destinatário-fantasma dessas mensagens mais ou menos secretas: “Abrir o arquivo (...) como se abre, anos depois de enviada, uma carta alheia, justapondo-se a uma assinatura ou a um nome, tornando-o vivo outra vez na nova relação epistolar então iniciada”. Sendo “o gosto pelas coisas antigas”, então, por seu aspecto justamente anacrônico e aqui intempestivo, uma outra forma do contemporâneo.

OUTROS HORIZONTES

Além dos mineiros, autores como Mário de Andrade e Graciliano Ramos também figuram neste conjunto de ensaios de Miranda – este último, aliás, de quem Miranda tornou-se grande especialista, é objeto de uma aguardada biografia ainda em processo de pesquisa que vem sendo composta pelo crítico (agora também biógrafo) e que será editada pela Companhia das Letras nos próximos anos.

Se nesta parte do livro pode-se dizer que Wander Melo Miranda sai de Minas Gerais, então Minas Gerais é que não sai dele. Pois, a respeito de Mário, em ensaio cujo título se apropria do primeiro verso de um poema do escritor modernista sobre Belo Horizonte, Milhares de brilhos vidrilhos, Miranda realiza um trabalho de memorialista – e sobre o memorialismo, essa outra coisa antiga – a partir de uma série de representações literárias da capital mineira em pleno processo de modernização nos anos 1920.

A começar pelo longo poema de Mário, Noturno de Belo Horizonte, que é composto sob o impacto da primeira viagem dos modernistas a Minas Gerais em 1924 e que descreve uma “cidade cubofuturista” por meio de “percepções simultâneas, heterogêneas, às vezes contraditórias”, ou seja, “mixagens”, conforme conceito proposto pelo crítico – em contraposição portanto à cidade funcional traçada na prancheta com rigor geométrico.

Como efeito crítico, segundo sua interpretação, o poema almejaria anular a própria satisfação da racionalidade modernizante que definiu a fundação da capital, com suas toponímias normativas e sua mentalidade ordenadora que a República viera dar forma – ou ainda, citando o poema de Mário, com sua “luta pavorosa entre floresta e casas”.

Mais do que propor uma interpretação cerrada do poema, no entanto, Wander Melo Miranda propõe, com o estilo dinâmico e enxuto que caracteriza sua escrita, uma “configuração constelar” ao fazer raras associações entre a Belo Horizonte modernista de Mário com outras duas: a cidade “real e fantástica” que Pedro Nava encontra poucos anos antes, em 1921, quando chega à capital mineira para cursar Medicina, conforme relata em um de seus livros de memórias, Beira-mar; e a capital repleta de contradições entre o moderno e o arcaico presente na obra de Drummond, captada, por exemplo, em uma cena do poema Encontro, que comunga o espaço rural violentado pelo artificialismo do processo de modernização: “Vi claramente visto, com esses olhos/ (...) o carro de bois subir, insofismável/ esta soberba Rua da Bahia”.

ORA (DIREIS) PUXAR CONVERSA!

Para esclarecer parte das operações e dinâmicas críticas que Wander Melo Miranda parece operar neste conjunto de ensaios, sobretudo no que diz respeito às leituras da literatura brasileira do século XX, seria preciso, finalmente, considerar o longo diálogo que mantém com Silviano Santiago – com quem neste livro Miranda “puxa conversa” em pelo menos dois ensaios, ambos publicados originalmente em 2018.

Em O curto-circuito da letra nos trópicos, por meio da leitura genealógica que faz dos artigos antológicos de Santiago dos anos 1970 e 1980, seria possível rastrear a trajetória e as operações crítico-teóricas que organizam o pensamento do próprio Wander Melo Miranda – pois se trata de uma perspectiva que, em um caso como no outro, “permite que o crítico escape tanto de uma abordagem estritamente formalista do texto literário quanto de sua redução sociológica”.

O caso mais exemplar talvez consista na leitura renovada que Santiago faz do modernismo brasileiro, movimento que, para o autor de Uma literatura nos trópicos, consistiria não apenas – conforme assinala Miranda – em um “esforço conjunto e bem-sucedido de desprovincianização e atualização cultural do país”, mas principalmente em uma via de mão dupla que associa, conforme percebe Miranda, a “ruptura estética revolucionária” com “a restauração do passado e da tradição que o memorialismo busca recuperar”.

Isso porque, como enfatiza Wander Melo Miranda, Santiago acaba por escolher, em ensaios como Vale quanto pesa (a ficção brasileira modernista), Fechado para balanço (60 anos do Modernismo) e A permanência do discurso da tradição no Modernismo, um veio do modernismo até então pouco explorado, mas não menos relevante – o memorialismo. Daí entende-se, por outra perspectiva, a atenção especial que Miranda concede não apenas “às coisas antigas”, mas sobretudo aos gestos duplos, que ele rastreia nas leituras que Santiago faz de questões centrais da literatura brasileira, além de sua singular revisão do modernismo: a dependência cultural, o “cosmopolitismo do pobre” e a inserção.

Nessas leituras, torna-se chave a viagem que Mário, Oswald, Tarsila e outros artistas fizeram às cidades históricas mineiras em 1924, talvez outra das obsessões teóricas de Wander Melo Miranda. Santiago lembra, por exemplo, a surpresa de Tarsila diante da pintura e escultura barrocas, e de seu desejo de voltar a Paris em busca não da última novidade vanguardista, mas para aprender a restaurar quadros.

Em resumo, o que interessa para Miranda é atualizar as consequências políticas de tais ensaios de Santiago – ao argumentar, por exemplo, que “o texto descolonizado da cultura dominada passa a ter uma riqueza e uma energia imprevistas”. Pois tal debate, em suas consequências mais radicais, abriria a cena textual contemporânea para “novos protagonistas”, concluindo e ao mesmo tempo reabrindo um programa: “Abre-se caminho para uma interlocução (...) mais ampla, ao se inserir no circuito geoliterário global como outra fala que se faz ouvir desde os trópicos, disseminada numa gama infinita de tons e na qual a obra ensaística e ficcional de Silviano Santiago segue ressoando persistente”.

Eis aí um dos principais desafios críticos que Wander Melo Miranda toma para si neste seu novo livro, ao procurar captar não apenas essa “gama infinita de tons” que são as vozes de uma comunidade aleatória ou inoperante, mas também a riqueza e a força imprevistas – e convulsivas, como diz sobre Machado, de Santiago – que é a literatura vista como performance, claro enigma, nos trópicos, em suma, são muitos os nomes.

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