Luis.Henrique

 

Esse mês vai escolher um da Agatha Christie! Isso porque os pais presentearam o menino com uma assinatura do Círculo do Livro. Não para de ler, o Luís Henrique! Tem uma parede inteira de livros e, claro, com as melhores enciclopédias (compradas no portão da casa): a Barsa, a Conhecer, a Abril. Não, os pais dele não são intelectuais privilegiados. Vêm de famílias de agricultores de regiões próximas a Curitiba. O pai, Cláudio, estudou pouco, trabalhou na roça, foi motorista e mecânico; a mãe, Marlei, completou o Magistério. O casal queria muito que os filhos – Luís é o do meio, entre duas meninas – crescessem rodeados de literatura. Assim o piá curitibano, nascido em 1973 e criado no Bairro Capão Raso, pôde “ler alegremente”.

Gostava de brincar com amigos, com as irmãs e primas no pátio da Auto Viação Redentor (empresa do avô Bortolo Pellanda Neto) ou no mato que circundava sua casa. Mas gostava, mais do que tudo, da palavra escrita. Essas as certezas do menino Luís Henrique: não queria ser o Zico, queria ser o Nelson Rodrigues.

SEGREDO E MÁGICA

E na infância ele também desenhava. Fazendo aulas com o grande artista plástico Luiz Carlos de Andrade Lima, aprendeu algo precioso: enquanto estivesse no ônibus ou andando pelas ruas, que aproveitasse para observar e depois narrar – com boas doses de imaginação – o que havia visto. Até hoje são fortes as lembranças do mestre querido, avivadas por uma aquarela de Andrade Lima que Pellanda tem no escritório, intitulada O segredo.

Luís Henrique (ele jura que não tem apelido) ia bem nos estudos, mas não encontrava estímulo, nem artístico nem intelectual, no colégio católico que frequentava. O grande barato mesmo era deixar-se envolver pela leitura de histórias policiais, de suspense, de aventura, e assim descobre também os cronistas que se tornariam seus favoritos, como Stanislau Ponte Preta, Veríssimo, Eliachar, Fernando Sabino, Rubem Braga e Drummond.

Novo impulso vem dos livros emprestados da Biblioteca Pública do Paraná, quando conhece Goethe, Shakespeare, Dante. Lá pelos 14, na roda de colegas, o piá já discorre sobre Camus, Sartre, Machado de Assis. E então, a virada! Aquela leitura que, aos 15 anos, o faz pensar seriamente em ser escritor: A montanha mágica, de Thomas Mann.

UM RIO QUE PASSOU

Na adolescência, Luís Henrique Pellanda torna-se um ex-tímido quando se descobre dono de um vozeirão. Bom pra questionar com veemência os professores conservadores, ótimo pra impressionar as meninas do colégio, mas, acabou lhe valendo um “convite para se retirar” da instituição em que estudava.

Descobriu que cantava e bem. Da atuação juvenil com amigos músicos, – em relações de briga e aprendizado – chegou a vocalista profissional da Woyzeck, destacada banda curitibana na década de 1990. Cantou por mais de 10 anos. Hoje, por falta de tempo e de energia, não canta mais. Tem saudades do microfone, mas tornou-se um diletante. Escuta Benjamin Clementine, Songhoy Blues, Melissa Laveaux e, sempre, Paulinho da Viola.

DETALHES E LEVEZA

Concluindo Jornalismo na PUC/PR, que frequentou “com desconfiança”, veio o trabalho como jornalista, editor e mediador de eventos literários. Pellanda trabalhou na Biblioteca Pública do Paraná, na Gazeta do Povo, no Primeira Hora, no Jornal Rascunho, no site Vida Breve. Em 2009, aos 36 anos, a primeira publicação: a coleção de contos O macaco ornamental, classificada em 2º lugar no Prêmio Clarice Lispector 2010, da Biblioteca Nacional. Em 2011, seu livro, agora de crônicas, Nós passaremos em branco, é finalista do Prêmio Jabuti. Segue-se uma profusão de crônicas com Asa de sereia (2013) e Detetive à deriva (2016). Elogiado por Moacyr Scliar, Ivan Ângelo e Marcia Tiburi, Pellanda recebe também o reconhecimento dos leitores. Como define o produtor cultural Ítalo Gusso: “Há 15 anos, o Pellanda é mais que um amigo, é um guia. O Quatro Rodas de muitos dos meus caminhos. Minhas histórias ficam muito melhores sendo contadas por ele, com seu olhar de cronista. Afinal, sempre enxerga além do detalhe...” Outra grande amiga, a crítica e ilustradora Carolina Vigna, nos diz: “Conheci a escrita do Pellanda quando estava começando a fazer críticas literárias. Eu, no clima ¡No pasarán! e ele, com sua escrita passarinho, me dobrou. Entendi, então, a leveza e a delicadeza de uma boa análise.”

PONTES

Às insinuações de que a crônica é um gênero menor, fronteiriço e com um suposto caráter efêmero, Pellanda não reage mais. Antes, lembra que a força da crônica está justamente em sua “capacidade de confundir os taxonomistas”. Para ele, ser cronista é como passar anel: você recebe a história e passa adiante, mas entre um gesto e outro, há a mediação do autor, num processo que demanda escuta e olhar apurados para o acaso, que pode ser revelador. Uma boa história, para Pellanda, “é sempre a ponte mais segura entre dois silêncios”.

Dos passeios por Curitiba e da colheita de detalhes da vida de pessoas comuns – moradores de rua, prostitutas, travestis, crianças sem escola – surgiram inúmeras crônicas. Os textos de Pellanda falam da diversidade das grandes cidades, sua violência e seus problemas políticos e sociais, falam de pássaros – de jacus a urubus – que ele acompanha pelos céus curitibanos, mas também falam de família, de perdas, de saudade. A escritora Giovana Madalosso reforça a potência reveladora dos textos de Pellanda: “Da mesma maneira que corro para o divã quando entro em crise, corro para o Luís quando entro em crise literária. Meu primeiro leitor e incentivador, um dos responsáveis por eu ter me tornado escritora, sempre tem uma boa resposta para me dar, para questões do papel ou da vida (há tanta diferença?). Nunca escuto dele o que eu esperava, e é justamente isso que mais admiro no Luís e em sua literatura: uma capacidade de ver e iluminar o que ninguém viu, ainda que isso nos doa”.

NOUTROS PALCOS

Casado com a jornalista Patrícia Ribas há 16 anos, e pai de duas meninas, Dora, de 8 e Diana de 3, Pellanda fala da paternidade: “Os filhos nos tiram do centro de nossas vidas. É um favor que nos fazem. Nos ensinam a olhar as coisas de fora do palco que originalmente montamos pra nós mesmos. Nos ensinam a olhar o espetáculo da coxia, talvez, e, depois, da plateia”. Mas a vida doméstica não afastou Pellanda da literatura, ao contrário, exacerbou sua paixão pela escrita, seu prazer em ser escritor. É o que nos conta a própria Patrícia: “Como observadora próxima, penso que uma das coisas mais sensacionais da relação do Luís com a escrita está no fato de ele se divertir demais fazendo isso. A despeito de todas as dificuldades trazidas pela opção ‘viver de literatura’ – da falta de oportunidades de trabalho bem-pago (ou mesmo pago), às peculiaridades políticas do meio literário – ele realmente gosta de escrever, fica feliz fazendo isso (ainda que muitas vezes aflito e sempre um tanto ansioso). É uma felicidade imensa poder ser sempre a primeira leitora desse grande escritor”.

E além de ser escritor, Pellanda também ministra, por todo o Brasil, oficinas de criação literária. Julie Fank, diretora da Escola de Escrita de Curitiba, nos conta: “Ele tem uma capacidade de envolvimento pela oratória que é impressionante, muito também pelo poder de escuta e entendimento do outro a partir do seu repertório e história. Os alunos, nas aulas do Pellanda, não são só alunos – até porque ele não gosta de ser chamado e nem visto como professor –, são pessoas querendo contar suas histórias e cujas vivências ele traz à tona… A literatura tem esse poder catártico, mas ele potencializa isso em sala de aula”. Dessacralizar a figura do artista, demonstrar como se alia talento, disciplina e resistência, proporcionar interlocução, leituras e reflexão sobre a escrita é o que pretende Pellanda com suas oficinas.

PERSONAGEM DE SI

Recorrente nas crônicas de Pellanda, há um protagonista que narra episódios muito próximos à vida do próprio autor: é casado, tem filhas, mora no Centro de Curitiba, anda a pé. É um eu reconstruído, usado para reproduzir no papel o que o escritor observa e mais o que ele inventa; nesse duplicar-se, revitaliza uma figura ligada à tradição da crônica, a do flâneur. Para Pellanda, as ruas “têm entrelinhas largas”.

>>LEIA TAMBÉM: [o que ler de] Dalton Trevisan, por Luís Henrique Pellanda

Na tradição iniciada pelo Dalton Trevisan, de exploração de uma Curitiba-tornada- universal, Pellanda vê cidade como “um conjunto de resistências solitárias”; ela é convívio, adaptação, conflito, construção de relacionamentos, construção de ruínas futuras. O jornalista, editor e escritor Rogério Pereira confirma que Pellanda é “o grande talento de uma nova geração de escritores surgida nos últimos 10 anos em Curitiba. Ao transitar por várias áreas da cultura (jornalismo, música e literatura), construiu um olhar interessado e certeiro sobre o mínimo que envolve a vida cotidiana de Curitiba. Seu olhar de cronista nos apresenta uma cidade erguida a partir do detalhe. O grandioso parece não o interessar. Mas transforma o pequeno em grandioso, com arte e extremo domínio da linguagem”.

VOZES DESVELADAS

Depois de publicar mais de 500 crônicas, Pellanda volta ao conto e em breve lançará A fada sem cabeça. Das suas crônicas, Pellanda diz ser responsável pelo que o narrador apresenta e afirma. Já no conto o autor não deve responder pelas atitudes do narrador. A diferença entre estes gêneros está na engenharia de suas vozes, no efeito e na intenção de cada uma, na maneira como brincam com a ilusão do real e o poder da ficção. E ele nos segreda: “Na verdade, ao me voltar novamente para o conto, me sinto um tanto aliviado, pois é difícil trabalhar e retrabalhar um personagem baseado em nós mesmos durante uma década! Você enjoa de si mesmo: Ah, não, de novo esse cara?”

De novo, sim, Pellanda. Sejam contos ou crônicas, precisamos demais do seu texto. Para mantermos vivo o encantamento que nos traz a literatura. Para mantermo-nos vivos.

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* Luci Collin é poeta, contista e professora (UFPR). Escreveu, entre outros, A palavra algo

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