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Tomo o ônibus 92 e desço na Avenida Las Heras, no Bairro da Recoleta. Sigo pela Rua Agüero, escalo a rampa de concreto projetada por Clorindo Testa nos anos 1960 e subo ao quinto andar. O elevador está repleto de brasileiros e colombianos e outros imigrantes cursando Medicina na Universidade de Buenos Aires. Consulto o catálogo online — são mais de um milhão e meio de obras cadastradas no sistema — e posso solicitar até três por vez. O pedido é enviado ao depósito subterrâneo — nove metros abaixo do térreo, 19 mil m² de área, estendendo-se por toda a quadra — e os livros sobem por monta-cargas até a sala de leitura, onde são anunciados por televisores (duração média: 15 minutos). No primeiro andar, uma exposição relembra o escritor Rodolfo Walsh 60 anos após Operação massacre, sua obra mais emblemática. Enquanto isso, na hemeroteca, quem sabe alguém estará consultando o jornal La Gazeta de Buenos Ayres de 13 de setembro de 1810, que anunciava justamente a criação da Biblioteca Pública da cidade.

Volto ao quinto piso, retiro meus livros e sento em uma das mesas coletivas da antiga sede, com seu indefectível mobiliário iluminado por abajures verdes. No sexto e último andar, espécie de mirante sobre o Rio da Prata, estudantes devoram livros e alfajores Jorgito entre sorvos de mate.
Eis um dia comum na Biblioteca Nacional Mariano Moreno (BNMM), em Buenos Aires.

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Em março de 2017, a Editora Penguin Random House listou as 25 melhores bibliotecas do mundo. Casualmente, as duas bibliotecas nacionais mais importantes da América Latina foram fundadas no mesmo ano, mas em contextos diferentes, já que em 1810 o Brasil ainda era colônia de Portugal, enquanto a Argentina iniciava naquele mesmo ano sua Revolução de Maio, que culminaria com a independência.

“A Biblioteca Nacional do Brasil surge das grandes embarcações que trouxeram Dom João VI e sua corte ao Rio de Janeiro em 1808, portanto, já nasce com um caudal bibliográfico importante e que a diferencia até hoje (a comitiva do rei desembarcara cerca de 60 mil itens). Já a Argentina inicia com pouco mais de 1.500, fruto de doações dos primeiros independentistas e da expropriação de livros jesuíticos de monastérios de Córdoba pelos primeiros exércitos da Independência”, compara o ex-diretor Horácio González, autor de Historia de la Biblioteca Nacional, editado pela própria em 2010.

Mas se, por um lado, a brasileira possui cerca de 10 milhões de obras catalogadas — mais que o triplo do acervo argentino —, por outro, sua hermana recebe um público oito vezes maior. Só no ano passado, das 216.559 pessoas que passaram pelas salas de leitura, 108.156 consultaram materiais (no endereço carioca, cidade com três vezes a população portenha, a média mensal é de 1.100 pesquisadores presenciais e 360 pedidos à distância). A massiva imigração universitária da última década em Buenos Aires, a condição nuclear da capital como único centro do país e um maior índice de leitura por habitante podem ser pistas para explicar o fato — o horário de funcionamento estendido até a meia-noite é só a cereja do bolo.

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Na Sala do Tesouro estão as obras completas de Diderot que pertenceram ao general San Martín; O contrato social de Rousseau com prólogo do fundador da Biblioteca, Mariano Moreno; uma edição de 1487 da Divina Comédia de Dante e 21 incunábulos — livros impressos nos primórdios da imprensa, até 1500. Também está um manuscrito medieval do século XIV do filósofo Jean Buridan e uma edição em guarani do Martín Fierro de José Hernández, ambos da coleção de Juan Domingos Perón; além do Ulisses de James Joyce anotado pela poeta Alejandra Pizarnik e vários manuscritos originais de autores como Leopoldo Lugones, Julio Cortázar, Alfonsina Storni etc.

Para muitos, porém, o xodó é a Coleção Jorge Luis Borges. Durante a mudança para o novo edifício, em 1992, foram descobertos ao acaso 50 livros com assinaturas e notas do autor, que dirigiu a instituição por 18 anos. Os bibliotecários Laura Rosato e Germán Álvarez isolaram fontes bibliográficas borgianas e iniciaram uma labiríntica busca arqueológica que levou oito anos de trabalho, chegando a 800 volumes pertencentes à sua biblioteca pessoal. São anotações de leituras à margem das páginas, folhas soltas com ideias, recadinhos de Estela Canto e até um final alternativo para o conto Tema do traidor e do herói, incluído em Ficções. A coleção se encontra na Sala do Tesouro, mas o trabalho de transcrição filológica é esmiuçado no livro Borges, libros y lecturas, editado pelo selo da casa. Um segundo volume está em fase de conclusão e incluirá outros achados em acervos públicos e particulares.

A dupla também está envolvida em outro projeto ambicioso, o Centro Internacional de Estudos e Documentação Jorge Luis Borges. Sediado no mítico edifício da Rua México, 564, que está sendo recuperado, o espaço terá sala de referência especializada e um acervo com base em duas bibliotecas: a pessoal do autor e a de Bioy Casares e Silvina Ocampo, doada este ano à BNMM. Também está em desenvolvimento uma enciclopédia digital dos trabalhos críticos sobre a vida e a obra do argentino, que deverá estar online ainda este ano. “A meta é que este centro seja um ponto de partida para a formação de uma comunidade de pesquisadores que dê luz, no século XXI, à tão esperada obra crítica de Jorge Luis Borges”, sustentam.

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O prestígio da BNMM pode ser medido pelos diretores que estiveram historicamente à frente dela.

Começando por Paul Groussac, francês que desembarcara na capital portenha em 1865, sem falar uma palavra de espanhol e que rapidamente se tornaria um de seus intelectuais mais célebres. Nos 44 anos de sua gestão, deu forma à instituição como a conhecemos, transformou-a em um repositório nacional, triplicou seu acervo, criou publicações fundamentais e encabeçou a mudança da antiga sede na Manzana de las luces para o mítico endereço eternizado como o paraíso de seu sucessor.

Borges já era o cânone argentino quando a assume, em um interstício peronista entre 1955 e 1973. Como diretor, trabalhou sobre a base (e sobre a famosa escrivaninha circular) de Paul Groussac, criou a Escola Nacional de Bibliotecários e iniciou o projeto de mudança à sede definitiva. Mas seu maior feito, como se sabe, não foi administrativo, e, sim, a escritura de uma das obras mais brilhantes do século XX. “O que fica do Borges bibliotecário é o que ele escreveu dentro da biblioteca”, concluiu o subdiretor da época, José Clemente. Para Laura Rosato e Germán Álvarez, o legado de Borges na BNMM foi tê-la unido indissociavelmente à sua história pessoal. “Borges tornou-a parte de sua mitologia e de sua obra. A Biblioteca Nacional da Argentina é, para o mundo, a Biblioteca de Borges”.

Há exatamente um ano, outro escritor chegaria para ocupar esta cadeira.

Desde julho de 2016, Alberto Manguel acorda às cinco da manhã, lê um cântico da Divina Comédia de Dante e caminha as 10 quadras que separam sua casa do trabalho. “Quando a biblioteca ficava em San Telmo, na minha adolescência, eu costumava ir buscar Borges e acompanhá-lo até sua casa para ler os textos que ele escolhia. Visitei o edifício atual alguma vez, mas só fui conhecê-lo verdadeiramente no ano passado”, admite.

Embora renomado no mundo todo, o autor de Uma história da leitura não goza de semelhante reputação entre boa parte da intelectualidade portenha. “Entendo que ele tem o prestígio dos bons divulgadores”, diz Martín Kohan, professor de literatura na Universidade de Buenos Aires e autor de Segundos fora (Companhia das Letras, 2012). Junto com Beatriz Sarlo, Ricardo Piglia e o Nobel J.M. Coetzee, Kohan foi um dos que assinaram a carta em repúdio às demissões massivas na BNMM, em março do ano passado. Convocado pelo governo de Mauricio Macri para assumir a instituição, Manguel, que vivia no exterior há 40 anos, ainda não havia aportado em solo argentino, mas isso não o impediu de ser culpabilizado pela política que, de repente, também representava. “Ele se manteve literalmente distante destas graves medidas, mas já era o diretor designado, já era o responsável”, avalia Kohan, para quem o atual diretor pretende ser ingênuo, mas não é. “A neutralidade ideológica não é outra coisa que uma ideologia. É assim que o macrismo disfarça de apolítica sua política conservadora, que disfarça de não ideológica sua ideologia reacionária”, observa.

Na última década, o cargo fora de Horácio González, sociólogo de esquerda que empreendeu uma forte política cultural de linha nacionalista, alinhada ideologicamente ao governo de Cristina Kirchner. Sua gestão contrasta com a de Manguel, um erudito que já deixou claro não ser uma “figurinha política”. Borges, que se definia um “modesto anarquista spenceriano”, tampouco era. “Creio no indivíduo, não no Estado”, dizia, evocando Macedonio Fernández.

Para González, “não é que Manguel cometa erros, apenas não entende as bibliotecas nacionais como um drama cultural e um serviço vivo para a comunidade. Sua indiferença à esfera pública e o apoliticismo oficial são a forma mais crítica e inteligente de um compromisso político oculto na ausência de discursos. Como intelectual da globalização, de tanto em tanto diz slogans vinculados aos direitos humanos, ignorando astutamente que todos eles são violados pelo governo de Macri”, sustenta. O ex-diretor também afirma que Manguel desconhece a realidade das bibliotecas do subcontinente, e reivindica o antigo logotipo da Biblioteca, substituído por outro, mais moderno, há poucos meses. “Era uma insígnia histórica compartilhada por outras bibliotecas nacionais, como a do Chile, Uruguai e Brasil, tinham mais de 70 anos e eram, de algum modo, um acordo comum simbólico entre bibliotecas, algo que nunca é fácil.”

Manguel sabe que entrou em um burocrático labirinto repleto de conotações políticas, mas parece disposto a enfrentar os obstáculos. Critica a “nada saudável atmosfera partidária” da gestão anterior, o modelo de transformá-la em um indiscriminado centro cultural, enfraquecendo as atribuições de uma biblioteca propriamente dita, e acredita que pouco foi feito pela atualização e digitalização do catálogo. “Não sabemos se temos um ou três milhões de obras. Sem saber o que temos, não podemos saber o que é, de fato, a Biblioteca Nacional Argentina”, disse reiteradas vezes. Desde que assumiu, esta tem sido sua prioridade, assim como atrair novos documentos valiosos à instituição — ainda que, diante do escasso orçamento, tenha de lançar mão de patrocínios e doações de empresas privadas. Não perde as esperanças de que um nobre filantropo desembolse meio milhão de dólares para comprar — e doar à Biblioteca — o manuscrito do conto Pierre Menard, autor do Quixote, texto que ele considera o divisor de águas da literatura do século XX.

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Nas extensas galerias subterrâneas da Biblioteca, há quem ouça ecoar os saltos de Eva Perón na madrugada. No terreno sobre o qual o edifício brutalista foi construído — e onde, durante as escavações, foi encontrado um fóssil de gliptodonte —, erguia-se o Palácio Unzué, antiga residência presidencial onde a então primeira-dama morreu em 1952. Não bastava um golpe de estado derrubar o peronismo em 1955: a propriedade também viria abaixo.

Mas, ali, Borges ainda é o mais presente dos fantasmas. Não que o escritor tenha jamais subido aquela rampa, que só ficaria pronta seis anos após sua morte. “À medida que a vida passa, torna-se cada vez mais intensa nossa amizade com os mortos”, confidencia Manguel. Pergunto como é conviver com esta luz que também é sombra. “O conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius termina com esta advertência: ‘O mundo será Tlön’. Eu prognostico: ‘O mundo será Borges’. Se já não é. Borges está em tudo, na noção de verdades alternativas, na babelia de informações inúteis que construímos, na miséria da política, ‘o exercício mais infame a que um homem pode se dedicar’, como disse ele certa vez”, enumera, lembrando que é também de Borges a noção de biblioteca universal.

Alguns projetos em curso parecem apontar nesta direção, visando convênios estaduais e internacionais e uma maior presença digital, como a criação da revista online Marca de Agua, o retorno em pdf da publicação La biblioteca, de Paul Groussac, a reformulação do próprio site e uma ambiciosa extensão do projeto Americana, de Robert Darnton — que pretende reunir digitalmente todos os catálogos dos países das Américas. “Não acredito em nacionalismos restritos, pequenos, caricaturais. Creio que temos o direito (talvez o dever) de sermos universais, como queria Borges”, finaliza Manguel.

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