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A escritora Lucila Nogueira chega para a sessão de fotos da capa do Pernambuco acompanhada de uma moça loira, uns 20 e poucos anos, que passa as duas horas seguintes quase sem dizer uma palavra. Apenas sorri, sinônimo para “bom dia”, “oi, tudo bem”... Nunca é apresentada. São 10h da manhã e estamos na frente da boate Nox, em Boa Viagem. Sol a pino. Nossa modelo esta toda vestida de branco e em nenhum momento aparenta surpresa diante do convite para posar numa pista de dança vazia.

Tudo é natural, ainda que sem aquele ar blasé típico de quem acha tudo dejá vù mesmo antes de ver. “Eu tenho um negócio para resolver com essa moça aqui, depois vou dar aula. Vai ser rápido?”, pergunta Lucila, direta e lacônica. A moça loura concorda com tudo sorrindo.

Nos 15 minutos de conversa antes das fotos e da entrevista, é visível como Lucila ensaia (e brinca com) a persona de alguém que parece viver sob as lições estéticas de Jorge Luis Borges, obsessão literária de toda uma vida. “Intercale num relato traços circunstanciais; simule pequenas incertezas, pois, se a realidade é precisa, a memória não o é; narre os fatos como se não os entendesse totalmente”, ensina o argentino para depois desmontar tudo, com a mesma naturalidade de quem pisa numa pista de dança vazia pela primeira vez – “Lembrar que as normas anteriores não são obrigações e que o tempo se encarregará de aboli-las”. “Borges é assombroso. Não era careta, os grandes autores não são caretas. O tempo é que faz com que eles pareçam caretas”, justifica Lucila.

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Entramos na Nox ainda escura, morta. “As luzes, a música alta é que são feéricas. A vida está nelas”, suspira. Luzes, música altíssima e sexo, ao lado dos mitos, caleidoscópios e espelhos, formam hoje sua poesia, dispersa em edições pequenas, locais e, na maioria dos casos, esgotada. Ela não quer vender literatura, quer fazer literatura, dar livros aos amigos. Não se preocupa com o possível status de uma grande editora. Falta nela o senso empresarial que hoje qualquer autor iniciante parece esbanjar.

O resgate da sua obra começa a ser feito este ano, como parte das comemorações pelos seus 30 anos de poesia, iniciada com a publicação de Almenara. O ponto de partida das homenagens será durante a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, no próximo mês. Uma mesa será montada com o título I love Lucy, ótimo trocadilho com o famoso seriado de TV norte-americano dos anos 1960 e 1970. É claro que a comediante simpática e bonachona tem pouco a ver com essa senhora à nossa frente na pista de dança. As luzes da Nox são acessas e começa o nosso trabalho.

 

Você não achou estranho o convite para posar numa boate vazia às 10h da manhã de uma quarta-feira?

O vazio é a tela em branco, o espaço da página que permite você imaginar o que quiser. Estar ali como numa viagem autista de psicodelia, em meio àquelas luzes acendendo e apagando coloridas, abrir a Nox só para isso, foi lindo, foi arte, foi poesia.

Você escreveu um poema sobre o Bar Garagem recentemente. Outros poemas recentes falam de vida noturna, é o caso do livro Refletores, todo montado a partir da ideia de um show de música pop. Qual a sua relação com a vida noturna?

Relação de encantamento. Música, luzes, cores, olhares que se cruzam, atmosfera de surpresa, romance e aventura, de súbitas confissões, as pessoas falam com espontaneidade e se entregam sem reservas, enfim o lado oposto da burocracia cotidiana. Sempre tive um lado de gostar muito de estudar, trabalhar e cuidar da família, aliado a esse outro de poeta aérea que está atenta a uma parte mais hedonista e dionisíaca, que dança e canta nos intervalos do martírio racionalista. A partir de 2001 me senti mais solta para falar em nova linguagem e sobre novos temas, daí os versos a partir de Refletores, Desespero blue, A quarta forma do delírio, Estocolmo, em que aparecem cenas caleidoscópicas de viagens geográficas e interiores.

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Com ajuda do poeta Bruno Piffardini (do grupo Urros Masculinos), Lucila está montando uma edição especial reunindo toda a sua obra. A maioria dos textos está sendo digitalizada. No entanto, a maior novidade é o inédito Tabasco, escrito numa temporada mexicana há dois anos. Por coincidência, eu a encontrei no aeroporto de São Paulo durante seu retorno do México. Lucila gritou meu nome no saguão lotado. Era madrugada.

“Menino, eu pousei no México em pleno Dia dos Mortos. Quando você chega lá, entende por que o fantástico é tão natural para eles”, parece que foram essas as palavras exatas, se bem me recordo, ditas antes de qualquer “oi”, de qualquer espanto pela surpresa do encontro. Mas o que me impressiona é como foi natural nos encontrarmos, após meses, num aeroporto de madrugada, para falarmos sobre o Dia dos Mortos. Sentada ao meu lado, Lucila voltou ao Recife concentrada na leitura de uma revista.

Quando dou por mim, a foto de Borges, enorme, numa das páginas. O livro inédito é uma espécie de diário de viagem, mas um diálogo de viagem escrito por Lucila Nogueira, ou seja, é a regra do outro lado do espelho de Alice – ou de Borges – que está em questão. “O título faz referência ao Estado mexicano de Tabasco, onde fica Villahermosa, onde fui para o Festival de Poesia que eles realizam por lá (Encuentro Iberoamericano de Poesía Carlos Pellicer Câmara). Foi belíssimo, apesar de ter que voltar dois dias antes, o que fez nos encontrarmos no aeroporto. Aquele encontro foi paranormal”, lembra, usando a palavra que já virou uma espécie de jargão, paranormal.

“No Festival do México, eles fizeram uma invocação à lua em um barco sobre o Rio Grijalva ao som de músicas mexicanas. E aí me deu o toque de fazer o poema. Lá também há uma árvore que eles chamam Ceiba, que parece uma mulher”, continua.

O livro começa com a visão em alta velocidade de uma viajante já high há muito tempo: “jardineira atravessou as ruas durante a noite/ eu cantava canções dos Beatles em português/ terras e águas de Tabasco/ o avião descendo em plantações/ como quem entra em uma tela completamente verde/ como quem chega ao Éden primordial/ e sabe do poder da água e da chuva/ assim cheguei a ti Villahermosa:/ rios lagos charcos águas marinhas/ vegetação selvagem flora úmida/ manglares pelas margens da laguna/ parapeito da lua/ geometria vegetal/ cultura da água/”

 

Você costuma dizer que as pessoas deveriam dessacralizar os autores, que eles não são caretas como parecem. Literatura, arte em geral, precisa sempre de loucura?

Eu nunca li nada interessante escrito por uma pessoa comum. Os escritores que interessam são seres diferenciados. Não se trata de loucura, mas de talento, de diferença, de percepção. Os escritores de verdade se reconhecem uns aos outros. Eles sabem os que são de mentira, os que ficam forçando as portas da literatura. Prefiro a raiva momentânea e ameaça de morte de um bipolar do que a fria falsidade de um chato comedido. A literatura é feita de altos e baixos, assim como a vida. Não importa se chamarem de loucura, é o duende, é o daimon, o divino e antiquíssimo exercício dos sentidos. Agora o que acontece é que, quando o escritor entra no cânon, começa a ser mumificado, eu sou contra isso e nas minhas aulas na universidade mantenho a honestidade das informações.

É evidente que a sua literatura sofreu uma ruptura nos últimos anos, com você mais livre, escrevendo versos soltos, flertando com a prosa e relatando experiências delirantes. O que aconteceu: mudou a poesia ou mudou sua cabeça?

A poesia mudou não porque troquei de cabeça, mas de situação e prática de ofício. Não hesitei mais em deixar atuar o fluxo da consciência e como numa tela de Dali me entreguei às visões vertiginosas do surrealismo que sempre povoaram a minha vida. É comum hoje as pessoas se dividirem entre as que gostam da primeira fase, de estrutura mais clássica, e as que gostam da segunda, pós-moderna no sentido de incorporar o pop e da fusão de gêneros. Mas em ambas o ocultismo está presente, legado das leituras de Papus, Eliphas Lévy, Helena Blavatsky que consolaram e fizeram companhia à minha juventude. A tradição da poesia hermética é muito grande desde o simbolismo.


O livro Desespero blue (2003) fixou em definitivo o ano zero de uma nova escritora. Na época de lançamento, Lucila chegou a dizer que nunca mais escreveria outro livro de poemas. Que estava interessada na prosa, ou melhor, na mistura de prosa com poesia ou o que mais aparecesse pelo caminho. Antes desse livro, já havia experimentado textos híbridos e narrativos em Refletores e A quarta forma do delírio. Esse último, esgotado, esconde um dos seus melhores textos, Natal em Montparnasse, espécie de preâmbulo para a escrita que dominaria sua obra em seguida:

“por favor faça alguma coisa/ congele a nossa imagem no controle remoto/ é uma pena esse filme terminar/ mas você dorme em silêncio no vagão ao lado/ e uma taça de vinho não mancha de sangue o vale do Loire/ vidro embaçado paisagem corrediça e imprecisa/ esta é a hora em que eu poderia ficar/ não tenho e-mail e não respondo cartas/ e um trem completamente imóvel distancia/ as canções de natal em Montparnasse”.


Sua poesia hoje parece bem diferente da praticada pelos seus contemporâneos da Geração 65, apesar dessa geração não ter um denominador comum em se tratando de estética. Você sente um diálogo com seus pares de geração ou sua turma é outra?

Os da 1965 são o aconchego de sempre, os amigos de sempre. Mas o cotidiano, no contato profissional com as gerações mais jovens, faz com que tenha hoje talvez mais facilidade com elas, seu mundo, sua sensibilidade, sua liberdade, sua sinceridade, sua linguagem, por consequência. A minha turma continua sendo todas, não discrimino.

Você completa 30 anos de publicação este ano, como lida com a passagem do tempo? Décadas e anos importam alguma coisa para você?

Sinto que as décadas passam quando encontro os amigos na rua após algum tempo, observo como estão envelhecidos. E sinto um estranhamento de ver que há dentro de mim uma beleza que excede a decadência física, algo que atrai corpos e mentes e não me deixa sentir inútil na vida. Então, é como se entrasse num filme em que me sinto personagem de um conto de fadas com o feitiço de bela adormecida, fico achando que a cada instante eu estou acordando e as coisas sendo retomadas do início, pois a cada dia me sinto mais jovem e mais criança por dentro, mais curiosa, mais excitada, mais entregue, mais vulnerável, mais indefesa, mais de vidro. Sou uma monja zen perplexa na paixão e no pânico.


A sessão de fotos e entrevista dura quase duas horas. Lucila aceita todas as coordenadas com a paciência de quem não pode perder tempo. A moça loura olha para o relógio sem parar. “Pronto, encerramos?”, agora é a modelo obediente de antes que coloca o ponto final. Ao sairmos da Nox, perto do meio-dia, suas últimas palavras não poderiam soar mais coerentes – “É tão bom deixar uma boate com o sol queimando lá fora”.

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