Silviano Santiago 13

Silviano Santiago é um dos mais atuantes e múltiplos pensadores do Brasil. Sua produção vasta inclui de ficção a alguns dos mais importantes ensaios literários das últimas décadas. Aproveitando que são os 80 anos do mineiro (tema que já tratamos na nossa capa de agosto) neste dia 29 de setembro, fizemos uma compilação de alguns momentos chaves da sua forma de ver e de interpretar o mundo. Percorremos, então, romances, entrevistas e ensaios na tentativa de trazer uma panorâmica entre-lugares percorridos por esse “observador”.

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“Mário de Andrade resume esses movimentos aparentemente contraditórios do fazer artístico, sintetiza todos esses jogos que redundam no que chamamos de diálogo entre culturas, diálogo multicultural, numa fórmula extraordinária: 'O difícil (para o artista brasileiros, para o cidadão letrado) é saber saber'.

Como saber saber num país de maioria analfabeta, de herança indígena vilipendiada pelos colonizadores, onde a contribuição da cultura negra é negada em praça pública pelos intolerantes e preconceituosos; como saber saber num país onde a ideia de herança e de tradição não é estudada e questionada e, muito menos, valorizada, é antes rejeitada a priori? Dadas todas essas circunstâncias, saber saber é a estratégia cultural de que se valem os artistas modernistas para chegar à sabença. É a maior lição que nos legaram para que cheguemos à interpretação democrática do país e dos brasileiros.

Num país de herança e tradição multicultural, o exercício da literatura, ou de qualquer outra atividade profissional, não é tarefa simples. Para o escritor, e indiretamente para todo e qualquer cidadão letrado, se coloca de início a questão do estatuto da língua portuguesa, que, pela transmigração do Velho para o Novo Mundo, deixou de ser pura e castiça para ser mestiça. Antes de tudo, era preciso que o brasileiro refletisse sobre o estatuto da língua portuguesa nos trópicos, em contato que teve e continuava a ter com diferentes etnias e falares. Em 1925, Manuel Bandeira tomou posição firme em relação à língua-mãe, semelhante à tomada por Tarsila em relação aos princípios formais e artísticos de herança conservadora europeia. Em termos ainda corajosos, Bandeira opta pela língua 'errada' do pavo, assim como Tarsila tinha optado pela pintura 'errada' da cidade de Tiradentes”.

(Do ensaio Mario, Oswald e Carlos, intérpretes do Brasil, publicada em 2005 pela revista Alceu. Presente no livro Ensaios Antológicos de Silviano Santiago)

 

“Ao falar em lugar da fêmea, o macho a silencia. O branco silencia o negro e o índio, o advogado, o acusado, e o sindicato, o operário. Em relação aos homossexuais, o exército americano adotou a política do don't ask, dont tell (não pergunte, não diga). A coerção ao silêncio aviva o sentido de inadequação, ou a culpa, no indivíduo e no grupo social em que ele é enquadrado”.

(Do artigo Dispositivo, presente no livro Aos sábados pela manhã)

 

“Não é o artista que persegue o avesso da vida no lado direito e o entende como norte. Se o persegue e não o entende, não o inventa como inevitabilidade da autodestruição a cada segundo que passa? Autodestruir-se a cada instante da vida é o modo paradoxal de o ser humano sobreviver à densidade corpórea e imediata do perigo. Não se ganha a vida pela sensaboria da tábua de salvação dos bons costumes, do bom comportamento e dos preceitos morais. Ao viver a vida simplesmente, ao ritmo da batida do coração, ela não só é resgatada como é salva da rotina.

Cada instante da vida é vivido como lasca mínima e significativa que o cinzel do mestre escultor desbasta do mármore. Ele sabe de antemão que não existe modelo a ser perseguido pelo poder das mãos e pelo manejo habilidoso do instrumento sobre a pedra informe. O mármore é trabalhado como se por artista amador e é preservado para a posteridade como informe. O cinzel desbasta o mármore por desbastar. Só isso. Trabalha em reconhecida do artesão. No chão, a força da gravidade se soma ao acaso e esculpe o amontoado que se empilha em lascas. O escultor não chega ao objeto que, se trabalhado segundo as regras milenares da arte e o valor proposto pelos críticos, o público julgaria como arquétipo imponente, representativo do tempo que lhe competiu viver vantajosa e admiravelmente. Chega a uma pilha de lascas.

Quem desbasta a vida pela densidade corpórea e imediata do perigo não burila o modelo. Não esculpe um exemplo. Malbarata-o. Fragmenta-o. A fama que muitos buscam é inimiga da vida vivida em toda a plenitude.”

(Do romance Mil rosas roubadas)

 

“A minha primeira pessoa começou a mentir por prudência e cautela e, como os mestres me incitavam a ser prudente e cauteloso, continuei a mentir descaradamente. E tanto menti, que já mentia sobre as mentiras que tinha inventado. E a tal ponto minto, que a mentira se torna o meu modo mais radical de ser, de dizer a verdade que me é própria, a própria verdade”

(Do ensaio Por que amo Rosa)

 

“Tenho medo de ser um artista comovido, tenho medo de ser um artista que comove. O medo, como em Clarice Lispector, não é sentimento que imobiliza. Se meu medo não imobiliza, leva a quê? Ao despertar da sensualidade no leitor. De que forma despertá-la? Através duma escrita ficcional que o atinja como Lygia Clark o atinge, pedindo-lhe que monte (como se monta a um cavalo, no universo de Clarice) o 'bicho'. Espero atingi-lo, leitor, pedindo-lhe que trabalhe o contato epidérmico dos cinco sentidos com a escrita. Essa sensualidade, que se exige do espectador da obra de arte, são os corpos que eu gostaria de ter exposto em Stella Manhattan. Palavras se escrevem na página mais para serem vistas do que lidas.

Cito um trecho do romance: 'Quero fazer um poema, um livro, onde a apreensão pelo tato seja o que importa. Pedir ao leitor que pegue as pa­lavras com as mãos para que as sinta como se fossem vísceras, corpo amado, músculo alheio em tensão. Que as palavras se­jam flexíveis, maleáveis ao contato dos dedos, assim como antes, na poesia clássica, elas eram flexíveis e maleáveis quando surpreendidas pela inteligência. Quero que a polis­semia poética apareça sob a forma de viscosidade. Que não haja diferença entre apanhar uma palavra no papel e uma bo­linha de mercúrio na mesa'.”

(Crônica sobre o 30 anos do romance Stella Manhattan, publicada no Pernambuco de setembro de 2015)

 

"O artista latino-americano aceita a prisão como forma de comportamento, a transgressão como forma de expressão. Daí, sem dúvida, o absurdo, o tormento, a beleza e o vigor do seu projeto visível. O invisível torna-se silêncio no seu texto, a presença do modelo, enquanto o visível é a mensagem, é o que é ausência no modelo. Citemos uma última vez Pierre Menard: 'Meu jogo solitário é regido por duas leis diametralmente opostas. A primeira me permite ensaiar variantes de tipo formal ou psicológico; a segunda me obriga a sacrificá-la ao texto 'original'.

O escritor latino-americano é o devorador de livros que os contos de Borges nos falam com insistência. Lê o tempo todo e publica de vez em quando. O conhecimento não chega nunca a enferrujar os delicados e secretos mecanismos da criação; pelo contrário, estimulam seu projeto criador, pois é o princípio organizador da produção do texto. Nesse sentido, a técnica de leitura e de produção dos escritores latino-americanos parece com a de Marx, de que nos falou recentemente Louis Althusser. Nossa leitura é tão culpada quanto a de Althusser, porque nós estamos lendo os escritores latino-americanos “observando as regras de uma leitura cuja impressionante lição nos é dada na própria leitura que fazem” dos escritores europeus. Citemos de novo Althusser: 'quando lemos Marx, de imedianto esmos diante de um leitor, que diante de nós e em voz alta : […] lê Quesnay, lê Smith, lê Ricardo etc., [...] para se apoiar sobre o que disseram de exato e para criticar o que de falso disseram...”.

(Do ensaio O entre-lugar do discurso latino-americano, publicado em Ensaios Antológicos de Silviano Santiago)

 

“O lugar dos encontros: a enciclopédia e o cemitério. Não sei se já se disse que as enciclopédias – antigamente em papel e hoje eletrônicas – são o mais amplo cemitério universal de biografias das notáveis vidas privadas responsáveis pela história do homem na face do planeta Terra. Aliás, enciclopédia e cemitério empresarial (o adjetivo 'empresarial' é tomado de João José Reis e serve para distinguir o campo-santo moderno, em território público, do campo-santo em capela, ou arredores) têm a mesma data de nascimento: o século 18. Coveiro e biógrafo costumam não compartilhar o sentimentalismo que redobra e se desdobra na família enlutada e no admirador curioso. Ambos querem manter uma frieza distante, a daquele que apenas cumpre o ofício.

Vida e morte de cada indivíduo destacado renascer de modo sentimental nas poucas frases de responsabilidade dos familiares, inscritas na mármore da lápide, o revivem de modo exato e técnico na página do livro, e perpetuam – ou não – aos olhos do leitor de túmulos e de enciclopédias”

(De ensaio publicado na revista Serrote #19)

 

“Machado de Assis – podemos concluir – quis com Dom Casmurro desmascarar certos hábitos de raciocínio, certos mecanismos de pensamento, certa benevolência retórica – hábitos, mecanismos e benevolência que estão para sempre enraizados na cultura brasileira, na medida em que ela balizada pelo 'bacharelismo', que nada mais é, segundo Fernando de Azevedo, do que 'um mecanismo de pensamento a que nos acostumara a forma retórica e livresca do ensino colonial', e pelo ensino religioso. Como intelectual consciente e probo, espírito crítico dos mais afilados, perscrutador impiedoso da alma cultural brasileira, Machado de Assis assinala ironicamente os nossos desfeitos. Mas este é um engajamento bem mais profundo e responsável do que o que se pediu arbitrariamente a Machado de Assis. É pensar que se pode falar da filosofia de Machado acreditando que a base das suas ideias se encontrava no 'ressentimento mulato'”

(De Uma literatura nos trópicos)

 

“O ensaio chega num momento de cansaço das grandes teorias de análise e de interpretação da obra de arte. O cansaço advém menos da importância da teoria e mais da necessidade de renovar a escrita crítica dita objetiva por demais domesticada pela razão em virtude de ter de obedecer a padrões formais e autoritários de reflexão. O ensaio – qualquer que seja a etimologia que se busque – tem a ver com a tentativa, com a experiência e com a audácia de trilhar caminhos desconhecidos. Perdem-se a objetividade e a precisão. Ganha-se o à vontade dos novos tempos em que a indignação é peça-chave. Há, no entanto, um perigo no ensaio jornalístico (chamemos assim a crônica cultural que hoje se encontra nos segundos cadernos): a intromissão excessiva de mera descrição do cotidiano do ensaísta. Ao querer ser lido por público mais amplo, o ensaísta tem-se apoiado menos no ensaísmo clássico, que remonta a Montaigne, e mais no formato subjetivo e divertido da crônica tal como a escrevem Fernando Sabino ou Luiz Fernando Veríssimo. A força do entretenimento tem pouco a ver com a principal força do ensaio, a ironia, ainda que leve e descompromissada.”

(Em entrevista para o Pernambuco em agosto de 2013)

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