Janio Santos sobre foto de Divulgação

 

Ha muerto un hombre y están juntando su sangre en cucharitas,
querido juan, has muerto finalmente.
De nada te valieron tus pedazos mojados en ternura.

 

Em 1962,com apenas 32 anos e antes do exílio, da desaparição do filho, da nora e da neta, Juan Gelman escreveu os versos que servem de epígrafe para este texto. No poema intitulado Final, ele conta a história de um tal Juan que não é salvo da morte, apesar da ternura que carrega e cujo sangue é recolhido a colheradas. Diz, ainda, que o homem fora comido pela raiva do mundo e que depois da morte a terra treme à espera de que suas mãos, empurradas por sua “raiva imortal”, brotem.

 

Juan Gelman morreu no dia 14 de janeiro de 2014, muito depois de ter escrito esse poema e, apesar de todas as perdas que teve de administrar na vida, não foi consumido pelo ódio. Morreu em sua casa da Cidade do México, ao lado da mulher, “numa paz que não teve em vida”, sublinha o escritor brasileiro Eric Nepomuceno, amigo do poeta e autor do provavelmente mais belo texto escrito em sua homenagem. “Foi o poeta da solidão, do amor e da esperança, da ira contida e da fé permanente, do abandono e do encontro; o poeta do tempo perdido e do tempo recuperado. O poeta da urgência permanente. Ou seja, foi o poeta da vida. Escreveu alguns dos poemas mais dilacerantes e belos do idioma castelhano”, diz o texto escrito pelo brasileiro e publicado nos jornais La Jornada, do México, e no Página 12, da Argentina.

 

Eric e Juan se conheceram em Buenos Aires, em 1973. Dois anos depois, o poeta viajou a Roma, enviado pela organização em que militava para denunciar internacionalmente violações de direitos humanos praticadas pela extrema Direita. Durante a viagem, foi surpreendido pelo golpe militar na Argentina. Perambulou por várias capitais do mundo (Madri, Manágua, Paris, Nova Iorque) até chegar à Cidade do México, onde se estabeleceu. “Nosso reencontro depois de Buenos Aires se deu em Barcelona, com o Eduardo Galeano, no começo de 1977. Depois passamos anos sem nos ver, tendo notícias através de amigos, uma que outra carta. Estivemos juntos em Manágua, em 1981, e em Havana, e depois no México, em 1983. Voltei ao Brasil em 1983 e passamos a nos escrever mais”, conta Nepomuceno. “Em 2001, ele veio ao Rio e a Brasília, para o lançamento de Amor que serena, termina?, livro dele que traduzi. Nos últimos nove ou 10 anos, vimo-nos principalmente no México. Ainda consegui trazê-lo a Brasília em 2012. Foi um irmão que tive”, recorda.

 

Juan Cruz, escritor e editor espanhol, escreveu que Gelman era o poeta dos olhos tristes. Pergunto a Eric Nepomuceno se também o recorda assim. “Juanito Cruz me roubou a ideia”, diz em tom de brincadeira, antes de mostrar a primeira frase do obituário que escrevera: “Tinha olhos claros e eternamente tristes, mas quase sempre com um fulgor de malícia. Era uma mistura rara, um paradoxo tão estranho, que jamais deixei de me impressionar por esse olhar do Juan.”

 

Essa tristeza que carregava era fruto, sobretudo, da desaparição do filho (que tinha 20 anos à época) e da nora (que tinha 19, e estava grávida de sete meses) em agosto de 1976 - os militares invadiram a casa do poeta e, como não o encontraram, levaram Marcelo e María Claudia. Juan Gelman nunca se cansou de procurá-los e de denunciar perante órgãos internacionais as atrocidades praticadas pelas ditaduras do Cone Sul. Em 1990, o corpo do filho foi encontrado. Quanto ao paradeiro da nora, sabe-se apenas que foi levada ao Uruguai, onde deu à luz. Continua até hoje desaparecida. Em 1978, em Roma, o poeta recebeu uma mensagem em inglês, vinda do Vaticano, que informava apenas do nascimento de um bebê (“a child was born”), sem mais detalhes. Foram mais 23 anos de procura – por isso foi chamado de “órfão universal” – até que, em 2000, após uma campanha internacional, conseguiu finalmente abraçar Macarena Gelman, que havia sido criada por uma família simpática ao regime militar uruguaio. Uns anos antes, escrevera uma Carta a meu netoem que manifestava a fé de que um dia encontrar esse descendente: “Os sonhos de Marcelo e Claudia não se cumpriram ainda, menos tu: que nasceste e que estás quem sabe onde e com quem. Talvez tenhas os olhos cinzas esverdeados do meu filho ou os olhos castanhos da sua mulher, com o brilho especial e terno e astuto. Quem sabe como serás, se és varão. Quem sabe como serás, se és mulher. Talvez possas sair desse mistério para entrar em outro: o do encontro com um avô que te espera”.

 

Filho de imigrantes ucranianos, ainda pequeno conheceu a poesia, graças a um irmão. A leitura era em russo, e embora fosse incapaz de compreender o significado das palavras, Gelman ficou encantado com a sonoridade. Aos 9 anos, escreveu os primeiros versos, dedicados a uma vizinha uns anos mais velha. Uma paixão não correspondida que o fez descobrir-se poeta. Escreveu poesias de amor e de combate. Durante o exílio, calou-se por alguns anos. A partir de 1980, voltou a publicar (já havia escrito quase uma dezena de livros e era apontado com uma das principais vozes da nova poesia latino-americana) e manteve a constância até a morte. Escreveu mais de mil páginas de poemas em algumas dezenas de livros. Temas como a revolução e o amor somaram-se à experiência do exílio (de los deberes del exilio: no olvidar el exilio), a dor do desaparecimento de seus seres queridos “vuelves y vuelves / y te tengo que explicar que estás muerto), e uma constante referência à memória (la memoria es una cajita que revuelvo sin solución), ao passado (el frío tiembla en puertas del pasado que vuelven a golpea), e à solidão (tu pelo habrá crecido”/canto en mi soledad/y lo acaricio).

 

Sobre a distância da pátria, anotou em Bajo la lluvia ajena:

 

No debiera arrancarse a la gente de su tierra o país, no a la fuerza. La gente queda dolorida, la tierra queda dolorida (…) Soy una planta monstruosa. Mis raíces están a miles de kilómetros de mí y no nos ata un tallo, nos separan dos mares y un océano. El sol me mira cuando ellas respiran en la noche, duelen de noche bajo el sol.

 

Tentou voltar à Argentina com o retorno da democracia, mas não foi capaz. “Um dia, entrei num bar, diante de mim estava um senhor com cara de policial. Comecei a pensar: terá sido esse filho da puta que matou o meu filho? Percebi que na Argentina eu tinha poucas alternativas de vida. Ou viver amargurado, ou pegar numa metralhadora e matar alguns, ou me acomodar à situação. Fui embora”, contou em uma entrevista.

 

Sobre “seus” mortos, com quem conversou através da poesia, escreveu em Notas:

muertos que hablo y que me hablan

en las palabras que palabro/

estas mismas palabras que

cierran mi voz como una noche/

 

“A vida do Juan foi marcada pela tragédia”, resume Mempo Giardinelli, outro escritor que conviveu com o poeta no México. Ambos argentinos, ambos exilados, conheceram-se nos anos 1980, trabalharam em algumas publicações. Mempo se lembra de Gelman como um homem elegante, “um gentleman”, sempre com um cigarro na boca e dono de um humor e ironia afiados.

 

Ao receber em 2007 o Prêmio Cervantes, o principal galardão literário em língua castelhana, Juan Gelman disse que era admirável que, em tempos “tão mesquinhos”, de tanta “penúria”, a poesia fosse premiada. Para que servem os poetas num mundo onde a cada três segundos e meio uma criança morre de doenças curáveis, de fome ou pobreza, perguntou o poeta argentino diante das autoridades presentes. “Mas aqui está a poesia: de pé contra a morte”, acrescentou. Ainda antes das tragédias em sua vida, escreveu o poema Confianzas,em que questionava a utilidade do poema, e deixa sentenças como: “Com esse poema não tomarás o poder/ Como esses versos não farás a revolução/ Esses versos não servirão para enamorar a ninguém/ não entrarás grátis ao cinema. E ainda assim, diz, o poeta se senta à mesa e escreve”.

 

De pé contra a morte, e mesmo sem ter certeza da serventia do seu ofício, Juan Gelman escreveu até os últimos dias de vida. Antes de morrer, entregou ao amigo e músico espanhol Joaquim Sabina um poema que começava da seguinte forma:

 

Cada día / me acerco más a mi esqueleto.

 

Em 2011, a justiça argentina condenou quatro militares à cadeia perpétua pela morte do filho do poeta. Suas palavras sobre o caso foram: “Quando disseram a sentença, alguns jovens que nem sequer tinha vivido a ditadura pularam de alegria. Mas eu não senti nada. Nem ódio, nem alegria, nem nada. E me perguntei o porquê, e isso levou-me a escrever, para me explicar o que havia acontecido”.

 

Acha que escrever foi uma maneira que ele encontrou para não enlouquecer?, pergunto a Eric Nepomuceno. “Acho não, tenho certeza”, responde-me o escritor brasileiro.

 

O poeta dos olhos tristes morreu em paz, lúcido, e sem que a raiva e o ódio conseguissem derrotá-lo. Em 2008, ao El País, Gelman afirmou que muitas vezes ignorava a letra de um tango que dizia que um homem não deve chorar e que terminava com os olhos inchados. “Ainda choro, há momentos em que não consigo evitar. Acho que aquele que não consegue chorar está mutilado”, acrescentou.

 

Arrancaram-lhe um país, muitos sonhos, amigos e uma família, mas não lhe cortaram as mãos, e continuou escrevendo.

 

*No final de 2013, viajei para o México e tentei entrevistar Juan Gelman. Uma pessoa próxima fez o contato. A resposta veio rápida: “Estimado Ricardo Viel, gracias por su propuesta. Hace poco tomé una decisión: no más prólogos, no más presentaciones y no más entrevistas. Mi tiempo es escaso y estoy convencido de que usted comprenderá. Saludos cordiales. Juan Gelman”. Nunca vi os seus olhos tristes, mas quando leio seus poemas sou capaz de imaginá-los.

 

 

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