Arte sobre fotos de divulgação

 

Um estreito armáriode vidro com quatro modestas prateleiras. Esse é todo o espaço que sobrou na casa de Ricardo Lombardi para guardar os livros dos quais não consegue abdicar. Aqueles que ele pretende guardar para os dois filhos, os que vigiam a sala com o conhecimento do mundo em versão compilada. Ficaram a obra completa de Machado de Assis, todas as peças de William Shakespeare e alguns clássicos do jornalismo como Fama e anonimato, de Gay Talese, e A vida como performance, de Kenneth Tynan. Todos os outros milhares de livros que ornavam as paredes da casa, e acalentavam o sono de Ricardo em seus dias borgianos, estão agora à disposição e serventia do mundo aqui fora. Ocupam uma pequena garagem no meio de uma dessas ruas tranquilas do agitado bairro de Pinheiros, cidade de São Paulo, onde podem e devem ser abertos por novos olhos.

 

Em um processo de completo desapego de seu vasto acervo literário, Lombardi, jornalista e até hoje responsável por um blog de resenhas literárias no Estadão, decidiu este ano realizar um projeto que já vinha sendo pensado há pouco mais de um ano. Surge então o Desculpe a Poeira, um espaço que, em uma primeira mirada, se assemelha a um sebo naqueles moldes que os sebos tinham antes de se transformarem em pilhas desordenadas de livros. Após um passeio mais atento entre suas estantes, o local adquire uma atitude mais semelhante à de uma coleção particular à venda, com uma perceptível coerência de temas, linguagens e sabores. Se constroem caminhos ali entre Gabriel García Márquez, Charles Bukowski, Paul Auster, James Ellroy, James Joyce, Franz Kafka, J.D. Salinger, Guimarães Rosa, Machado de Assis e, por que não, J.K. Rowling. 70% desses livros, até bem pouco tempo, se encontravam na casa de Lombardi. Os 30% restantes foram doações de amigos e compras recentes feitas para incrementar a lojinha da rua Sebastião Velho. Ao todo, dispostos na garagem alugada a preço módico (o espaço pertence à mãe dele) estão 1300 títulos. Outros 3700 que também serão colocados à venda estão ainda guardados no apartamento acima da garagem.

 

A intenção, definitivamente, não é a de criar mais uma livraria ou de ceder aos modismos tipicamente paulistanos que facilmente classificariam tal empreitada como um tipo de “sebo gourmet”. As intenções do ex-diretor de conteúdo do Yahoo, ex-editor da falecida revista Bravo!e ex-portador de crachás de vários outros conglomerados de comunicação é tão simples que chega a ser novo. Ele quer vender livros porque acredita que as pessoas vão gostar de lê-los. Tal como um psicólogo de percepções instantâneas e intuitivas, desses que sabe manter uma longa conversa de boteco, Lombardi se sente hoje à vontade para identificar em seus interlocutores desejos e entusiasmos literários que eles até então desconheciam. “É preciso um pouco de traquejo para conversar com as pessoas. Muitas vezes, elas leem coisas não tão interessantes do ponto de vista literário apenas por falta de informação. Alguém que lê 50 tons de cinzapode muito bem ler um Reinaldo Moraes, Ricardo Lísias, Luiz Vilela, autores que escrevem de uma maneira simples, mas que são muito mais sofisticados no enredo, com histórias bem contadas”, acredita.

 

Não se trata, no entanto, de uma conversão ou evangelização literária. O desejo do proprietário do Desculpe a Poeira, segundo ele, é mesmo conseguir vender livros como um meio para conversar com as pessoas, e vice-versa, dialogar como o caminho da venda. “A lógica hoje, muito encorajada pela internet, é assim: eu já sei o livro que quero. Vou lá, digito o nome e compro. A ideia do mundo analógico é entrar no espaço físico para ver se você descobre alguma coisa que não sabia que queria. É um outro caminho para se chegar num livro. Quero abrir espaço para essa conversa e facilitar um pouco esse encontro do autor com o leitor”, afirma.

 

Habilidoso em criar conexões e preservar uma memória de quase tudo que leu ou ouviu falar, ele consegue facilmente identificar predileções e aptidões de quem ainda, em meio à automação de um mundo já posto e cotado pelas redes sociais, se dá ao luxo de ser surpreendido. “Já aconteceu aqui de, no meio da conversa, o cara falar alguma frase que eu consigo conectar com algum autor que tratou daquele tema de um jeito diferente. Por exemplo, dia desses uma amiga minha queria uma literatura de viagem que tivesse a Itália no meio. E daí que agora estou recebendo um Henry James só de relatos de viagens com um capítulo inteiro dedicado à Toscana. Claro que ela já pediu para eu guardar o livro”.

 

Uma matéria sobre o empreendimento de Lombardi, na intenção possivelmente de criar uma ambiência coolà ideia, o chamou de “sommelier de livros”. Ele, que depois desse texto amplamente compartilhado na internet, recebeu visitas encadeadas de outros jornalistas incluindo esta que vos escreve, diz que não é para tanto. “Como jornalista, entendo a tentativa de chamar atenção com uma palavra assim, mas o fato é que estou aqui apenas como um leitor interessado em compartilhar experiências de leitura e, claro, se possível, ganhar dinheiro com isso”. A se falar em dinheiro, as atenções dadas ao novo trabalho de Ricardo Lombardi excedem, em muito, o escopo literário de sua iniciativa. Afinal de contas, estamos falando de um homem que desistiu de uma vida confortável que tinha dentro de uma corporação para abrir um negócio cujo objeto de venda é considerado hoje como um investimento comercial de alto risco.

 

Esse movimento de desapego dos livros está sincronizado, portanto, com um desprendimento de vários outros itens que faziam parte do cotidiano de Lombardi, tais como carro (agora ele se locomove de bicicleta) e jantares em restaurantes caros. “Acho que o tempo é o maior luxo do mundo contemporâneo. É ele que eu quero ter de volta”, diz o jornalista enquanto conversamos numa mesa do lado de fora da garagem, onde o tempo de uma rua tipicamente domiciliar passa na contramão da velocidade dos prazos, relatórios e demandas de última hora. Na balança, pesa mais agora o contato direto com o completo desconhecido. “Dia desses chegou um cara que é operário de uma obra aqui perto. Disse que não estava muito contente com o trabalho, porque gostava mesmo de fazer jardinagem e perguntou se tínhamos algum livro sobre isso. Minha assistente trouxe um sobre os jardins de Burle Marx e daí que esse homem ficou um tempão aqui lendo e trocando ideias sobre aqueles trabalhos.”

 

Os relatos de trocas não param. “Comecei a criar relações com as pessoas na rua e começo a conhecer gente de lugares distintos. Dentro de um escritório, isso não acontece. É o rapaz que trabalha numa oficina mecânica, a professora que vive por perto. Aliás, essa semana descobri que a biógrafa do Monteiro Lobato, a Márcia Lagos, mora nessa rua. Há alguns dias ela passou, conversou um pouco e disse que era escritora. Perguntei sobre o que escrevia e ela meio que soltou essa história de Monteiro Lobato. Depois, fui dar um Google e descobri que ela não apenas é biógrafa dele, como é curadora de toda sua obra. Tales Ab’saber (psicanalista conhecido e prêmio Jabuti em 2005 com o livro O sonhar restaurado) também veio nos visitar e pegou cinco livros da coleção machadiana”.

 

A obra de Machado de Assis, aliás, é um dos trunfos do sebo/livraria de Lombardi. “Tenho uma boa coleção machadiana. Duas fileiras praticamente inteiras com crítica literária sobre ele. Coisas específicas como O olhar judaico em Machado de Assisaté edições históricas da Garnier de obras dele, passando por correspondências, algumas delas raridades”, enumera. Como se percebe, o bruxo do Cosme Velho está na gênese do interesse do jornalista pela literatura. “Minha leitura mais intensa começou com os livros que muitas pessoas da minha geração conhecem, aqueles da Coleção Vagalume. Depois vieram os policiais vendidos em bancas de jornal, do tipo Ellery Queen e, claro, Agatha Christie. Mas a primeira paixão mesmo foi Machado, era o momento que eu estava começando a virar um homenzinho. É ele quem te dá a real do mundo. Ali você perde a inocência. Machado de Assis te dá a sensação de que a vida é perigosa.”

 

Assumido colecionador voraz de outros artigos culturais como discos e DVDs (“mas não mais”, frisa), Ricardo Lombardi herdou boa parte de sua coleção — e nela estão clássicos como a enciclopédia Britannica e a História da literatura ocidental— do pai que, não por acaso, era dono de um antiquário (Freud manda abraços). Não fosse esse montante já gigante de livros, ele recebe de amigos títulos raros, como os 59 volumes da coleção Lenin, que um colega, então integrante do Partido Comunista, trouxe para o Brasil depois de uma viagem a Cuba. Trata-se de uma edição rara, impressa na União Soviética, mas toda traduzida para o espanhol.

 

Com uma pequena parte de seu acervo já disponível na Estante Virtual, Lombardi afirma que a intenção é usar sempre a internet como uma alternativa de venda, mas não como o objetivo final, que é de concentrar esforços nas interações analógicas de sua garagem em São Paulo. Pretende agora colocar mais algumas mesas do lado de fora do local durante os sábados e, quem sabe, chamar amigos para debater alguns temas de interesse comum. Acredita que o gosto pela literatura só pode ser agora construído e sedimentado por essas relações diretas entre pessoas que, seja no boca a boca ou via contatos em redes sociais (e Lombardi acumula milhares de seguidores no Instagram, Twitter e Facebook), adquirem novos interesses.

 

Autor de um blog que pertence a um grande grupo de comunicação, e tendo passado por várias redações onde trabalhava com jornalismo cultural, ele admite que os jornais e os meios impressos deixaram de ser a primeira referência para potenciais leitores. Por outro lado, crê que esse retorno dos espaços públicos (virtuais ou analógicos) para trocas e formação de opiniões são a única alternativa possível para gerar interesse nos livros de ontem, hoje e amanhã. Otimista quanto às possibilidades do Desculpe a Poeira, ele aguarda, com todo o novo tempo adquirido que dispõe, a pergunta mais popular da casa: “o que você recomenda?”. Entre Harry Potter e Capitu, certamente ele vai achar algo de seu agrado.

 

 

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