Arte sobre foto de priscilla campos

 

 

I

Antes de chegar até uma primavera francesa na qual eu decidi buscar (ou seria traçar?) qualquer limite entre a ficção e a realidade, tem uma coisa que não me sai da cabeça: talvez eu tenha demorado demais para ler Enrique Vila-Matas. Quando me deparei com seus livros, no início de 2012, o catalão já havia estado no Brasil, estampava a capa de diversos cadernos culturais, escrevia com frequência colunas, ensaios, tinha boa parte de sua obra traduzida pela Cosac Naify. Mas ele passou incólume por mim, durante tanto tempo. O que o Dr. Pasavento acharia disso? Hoje é inevitável que eu me faça essa pergunta. Acredito que, assim como em toda a obra de Vila-Matas, as respostas seriam muitas e nenhuma delas definitiva. A escrita do catalão deixa em evidência a literatura como bússola desnorteada que ela é. Vila-Matas sabe que os pontos cardeais não têm importância: em seus livros, as coordenadas literárias estão (ainda bem) em constante desarmonia. O que merece atenção no universo intertextual construído pelo espanhol é a procura contínua delineada por escritores e leitores. Vila-Matas afirma, em cada texto que escreve: tal expedição caçadora é motivo irrevogável para a literatura.

 

Em um ensaio dedicado à análise estruturalista do conto balzaquiano Sarrasine, Roland Barthes escreve “Quanto mais plural o texto, menos ele vai ser escrito antes de eu lê-lo; (....) este eu que se aproxima do texto é já em si mesmo uma pluralidade de outros textos, de códigos infinitos, ou mais exatamente perdidos (cuja origem se perde)”. O trecho despenca como alicerce da escrita de Vila-Matas. Os livros do catalão não existem antes de serem lidos. A sua literatura nasce quando o eu leitor ocupa espaço e traz consigo “uma pluralidade de outros textos, de códigos infinitos”. Esse convite tão insistente à apropriação literária é uma das mágicas mais corajosas que um escritor pode empreender.

 

Neste ponto, Doutor Pasavento aparece como núcleo central de sua obra. Ora, o desaparecimento é a temática germinativa do catalão. É nela que o escritor encontra seu fundamento primeiro, “escrever para se ausentar”; tornar-se ausente para escrever. E qual maneira mais certeira para realizar um desaparecimento se não assumir várias personalidades, dar voz à multidão que nos espreita?

 

II

Aterrissar em Vila-Matas é respirar fundo diante da extensão do caminho e anuir, sem reservas, a função de pedestre literário. Mesmo seu caderno pessoal, pretenso diário, publicado em Portugal com o título Diário volúvel, tem como origem a leitura. “Encontro um grande amigo, muito transtornado, porque acaba de ficar ao corrente de que o êxito dos romances de Agatha Christie se baseia no uso de técnicas literárias semelhantes às utilizadas pelos hipnoterapeutas e psicólogos, segundo um estudo publicado no Reino Unido”, escreve. A morte, a solidão, o abismo, a estabilidade emocional, o amor: tudo em Vila-Matas é literatura.

 

Com a intertextualidade não seria diferente. Como parte de sua dissipação, Andrés Pasavento converte-se e, ao mesmo tempo, invoca Kafka, Emmanuel Bove, Bernardo Atxaga, Thomas Pychon, Robert Walser. Além de encontros com escritores fantasmas, aspirantes à escrita, professores fracassados no campo literário. Em Doutor Pasavento, tudo repousa na busca incansável pelos tópicos que envolvem, da forma mais direta a mais remota possível, a fronteira entre realidade e ficção. “Eu disse que escrever é um desapossar-se sem fim, um morrer que não se pode frear”. Vila-Matas leva tal frase ao extremo quando coloca seu suposto personagem principal na angustiada posição de leitor em trânsito. Nas andanças (geográficas & pessoais) desenfreadas de Pasavento culmina o despojamento literário infinito do catalão. Aqui, não existem linhas tênues. A expansão do real e do imaginário atinge proporções que se fundem a cada linha, a cada citação que não sabemos (e precisa saber?) se é verdadeira. Andrés Pasavento foi atrás do escritor Robert Walser em Herisau. Eu fui procurar o Doutor Pasavento na Rue Vaneau.

 

III

“Há episódios de nossa vida ditados por uma discreta lei que nos escapa.’ Assim eu poderia começar minha fala daquela noite em Sevilha e passar a contar ao público da cartuxa a história de minha recente expedição pela Rue Vaneau de Paris. Tinha a impressão de que não dispunha de história mais adequada para ilustrar até que ponto a ficção e a realidade se fundiam em minha vida”. Enquanto o taxi deixava para trás a Gare de Lyon, meu pensamento foi tomado por uma perplexidade já conhecida: a beleza de Paris dói até os ossos; não importa se você esteve lá antes, tudo aquilo é de novo arrebatador de um jeito insolente. Eu estava a caminho do número 31 da Rue Vaneau, o Hôtel de Suède.

 

Assim como Pasavento conta no início do livro, eu também iria passar três dias na rua conhecida pelo seu silêncio ameaçador. Naquele instante primeiro, a coisa toda parecia maluca e com pouco sentido – transformar boa parte da minha curta estadia em Paris numa hipotética investigação sobre personagens de um livro; afinal, qual a importância de saber se tudo aquilo é verdadeiro? Ou ainda: fazia diferença esbarrar nos elementos reais e confirmar os imaginários? – mas ao observar pela primeira vez a Rue Vaneau, a alquimia vila-matiana fez mais sentido do que nunca: o que importa é a procura, a busca por qualquer verdade (o real nunca foi uma questão aqui!). Como afirmou o catalão em uma entrevista concedida à Paris Review, na época do lançamento de Paris não tem fim: “O mundo parece estar cheio de mensagens escritas em algum tipo de código secreto. Nós procuramos – eu procuro – por qualquer coisa que perdemos, mas não podemos definir o que é”.

 

IV

Decidi então por adotar uma postura mais ausente (apesar de estar ansiosa para saber em qual quarto ficaria). O pequeno saguão, o aconchegante jardim no qual é servido café da manhã, a escada em caracol. Estava tudo ali. A combinação entre timidez e ausência foi essencial para que eu não perguntasse à recepcionista no momento do check in se ela conhecia um escritor espanhol chamado Enrique Vila-Matas (ou era Andrés Pasavento?). Quarto número 25, de costas para a Rue Vaneau. Entendi essa aleatoriedade como um sinal para que eu continuasse à parte.

 

Do metrô Vaneau ao hotel é possível observar boa parcela da rua. Talvez por ter sido avisada diversas vezes pelo Doutor sobre a tensão que paira naqueles quarteirões, não consegui senti-la tão forte. A calmaria da Rue Vaneau causou-me curiosidade, um tanto de conforto antigo e alguma inquietação sem razão de ser. “Os livros e os escritores são parte da realidade, são tão reais quanto esta mesa diante da qual estamos sentados”.

 

A verdade é que, durante as caminhadas, não consegui identificar com precisão nenhum dos locais citados no livro. Eu ficava em constante estado de impressão. Presumia ter visto o antigo apartamento de Karl Marx (o nome do socialista permanece vivo nas paredes de várias edificações comerciais da Rue Vaneau. Viva la revolución!), a casa do primeiro ministro francês e a farmácia Dupeyroux. No entanto, durante os três dias eu permaneci atenta à mansão que fica em frente ao Hôtel de Suède. Queria confirmar se estava mesmo abandonada. Na minha última caminhada diurna, resolvi chutar o balde da realidade por completo e atravessei a rua. Por meio de um buraco no portão, olhei o jardim. Folhas secas voando, plantas crescendo de maneira desordenada, paredes com aparência suja. Mas se tudo ali era esquecido, por que uma das três janelas estava com a cortina aberta? Coloquei meus óculos, apertei um pouco a vista. Não sei se aquela sombra estava mesmo ali ou se foi só literatura.

 

V

“Eu não escrevo porque existe um público, escrevo porque existem os livros.”, afirmou em uma entrevista Susan Sontag. A frase soa como uma das inúmeras e contraditórias observações feitas pelo Doutor Pasavento durante seus devaneios. Se no livro, a questão da notabilidade que circunda um escritor aparece também como impedimento para a verdadeira literatura, deste outro lado Enrique Vila-Matas parece subverter sua própria ordem. O catalão escreve porque existem os livros e o público existe porque ele escreve.

 

A partir do momento em que se entende: “escrever é um morrer que não se pode frear”, fica mais fácil realizar uma caravana tão dispendiosa como a literatura. E Vila-Matas parece saber disso como nenhum outro escritor contemporâneo. “Entrar na vida normal é entrar na suspeita de que aqueles que realmente estavam destinados a viver aqui se extinguiram há anos, pois não é possível imaginar que tenham podido sobreviver num planeta feito para nos conter. Não somos daqui. E só a literatura parece se ocupar com seriedade do nosso espanto”.

 

VI

Foi primavera mais falcatrua dos últimos anos, de acordo com um taxista parisiense. Fazia frio, chovia e franceses vestidos de cinza e preto estavam a caminho de mais uma quarta-feira de trabalho. Decidi que era a hora: precisava sair da minha atitude de desaparição antes de ir embora. Perguntei à recepcionista se ela já tinha ouvido falar de um escritor espanhol chamado...

 

“Claro que sim, todo mundo o conhece por aqui! Ele estava agora mesmo fazendo o check out também. He is a really nice person. Calmo e discreto”, me respondeu com um sorriso e um inglês mambembe. “Era como se de repente nós dois estivéssemos justo na mesma hora, nem um um pouco tardia, precisamente. Na hora exata. Como se tivéssemos acertado os ponteiros e também, finalmente, tivéssemos sabido ver algo. Eu precisava tanto acreditar nele, ainda que não acreditasse nem um pouco! Pensei bem e, valendo-me de certo cinismo, disse então para mim mesmo que, de fato, acreditar ou não acreditar nele não fazia diferença (...)”

 

Enquanto o taxi se afastava do Hôtel de Suède, compreendi que não havia andando em toda a Rue Vaneau. Talvez por isso eu não tinha, até então, avistado a embaixada da Síria. Lá estava ela, tão perto, tão óbvia. Tirei uma foto, talvez no intuito de poder observá-la melhor. Nestes minutos, o universo paralelo das palavras deu uma estremecida. A literatura fez ali, na Rue Vaneau, mais uma vítima.

 

“Depois, de uma forma um tanto desatinada, tentei me colocar no lugar exato de Walser. E de dentro do carro olhei fixamente para o relógio que acabava de fotografar, encarei-o com uma estranha obstinação, mas sem conseguir o que buscava, sem conseguir que com esse olhar me fundisse com Walser, por mais que, pela primeira vez na vida, estivesse vendo algo desse mundo que eu tinha certeza fora visto também por Walser”.

 

 

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