Ilustração por Karina Freitas

 

Quando você a conheceu ela já era tão veemente como é hoje, pergunta o documentarista a José Saramago. “Ela sempre foi assim, creio que ela nasceu veemente, não há nada a fazer contra isso. Não há qualquer interesse em fazer algo contra isso, ela é assim como é. Tem uma força interior realmente extraordinária”, responde o escritor português. “Tudo aquilo que ela se ocupa é como se fosse a coisa mais importante, ela coloca-se toda numa relação de amizade, num trabalho ou numa decisão”, completa.

 

A mulher de quem se fala é Pilar del Río, companheira do Nobel de 1998 por mais de duas décadas, e o depoimento colhido pelo cineasta Miguel Gonçalves Mendes para o documentário José e Pilar — que veio a público alguns meses depois da morte de Saramago — é apenas uma das muitas declarações de amor feitas pelo escritor à espanhola que no ano de 1986 entrou em sua vida e mudou-a. “Se eu tivesse morrido aos 63 anos antes de a ter conhecido, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora”, disse certa vez Saramago, que faleceu em 2010, aos 87 anos.

 

A história da união de ambos é conhecida e invejada. Encontraram-se em Lisboa, descobriram afinidades, corresponderam-se, moveram o mundo para que as vidas passassem a caminhar juntamente — primeiro em Portugal, em seguida, a partir de 1993, na ilha de Lanzarote, Espanha, após Saramago ter um livro vetado pelo governo português para representar o país em um concurso. Já um escritor consagrado, Saramago recebeu a coroação máxima em 1998, com o Nobel. Mas foi em 2010, alguns meses depois da morte do escritor, com a estreia do filme de Gonçalves Mendes, que a mulher que o acompanhou durante tantos anos passou a ser conhecida e admirada pelo grande público. Gonçalves Mendes, que durante quatro anos seguiu a pista do casal, acabou encantado com a força da espanhola. O filme foi finalizado, mas nasceu entre eles uma relação de amizade e confidências. “Ela é a mulher mais encantadora que eu já conheci”, me disse uma vez o diretor português. Também contou que a convivência com José e Pilar o fez mudar a maneira de ver a vida. “Acho que deixei de ter pena de mim. Não há tempo a perder, não podemos ficar deprimidos, é imoral. Temos a mania de achar que a vida é uma merda, que o país é uma merda. Acho que a maior lição que tirei foi: se o mundo é uma merda, arregaça as mangas e faça-o mudar”, completou o cineasta.

 

A queixa e a vitimização não fazem parte dos ingredientes que formam Pilar. A postura de enfrentar as dificuldades com a cabeça erguida ficou muito clara quando da morte de José Saramago, em junho de 2010. Embora a avançada idade e a saúde debilitada do escritor, quando ele “deixou de estar”, como costumava definir a morte, o pranto foi geral. Em público, Pilar não derramou uma lágrima, e no momento em que o corpo foi cremado, com sua maneira incisiva de falar, disse aos mais próximos: “Não devemos chorar, deixemos o choro aos que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo”.

 

Pilar antes de José

“Meu nome é Pilar del Río, nasci em Sevilha em 1950. Tenho quinze irmãos e sou jornalista”, assim se definiu a andaluza a Miguel Gonçalves Mendes. Primeira filha de uma família conservadora — o pai era admirador do ditador Francisco Franco — e classe média, Pilar frequentou um Colégio Teresiano e quase seguia a carreira religiosa. “Isso não é o mais importante da minha vida, e me deu um perspectiva diferente das coisas”, pondera. Na época da universidade Pilar passou a militante do partido comunista e durante a convivência com Saramago era difícil apontar quem era mais de esquerda — ainda assim na família é apontada como das mais moderadas.

 

Nos anos 1970 quando a Espanha começou um processo de renascimento após o fim da ditadura, Pilar já trabalhava como jornalista. Dirigiu um programa que marcou a história do rádio no país e no começo dos anos 1980 passou para a televisão, que abandonou para ir morar em Portugal. Nem a mudança a Lisboa, nem o trabalho de tradutora e secretaria pessoal de Saramago a fizeram deixar de lado o jornalismo. Manteve sua participação no rádio, continuou escrevendo para jornais e recentemente, preocupada com a situação do jornalismo na Espanha, entrou como acionista em um projeto chamado “Infolibre” que tem como lema: informação livre e independente.

 

Também é mãe — tem um filho de 36 anos, fruto do primeiro casamento —, e abomina ser chamada de viúva. “Sim, quando dizem que sou a viúva de Saramago eu saco a pistola. Nunca me defini pelos outros. Antes eu também não era a esposa, ou a filha. Temos o direito de sermos nós mesmos, sem estar com relação de alguém mais. Somos maiores de idade e independente”, responde Pilar. Hoje ela é a presidenta — e faz questão de que o cargo seja apresentado no feminino — da Fundação José Saramago, entidade sediada em Lisboa que cuida do legado do escritor português, mas não só isso. Costuma dizer que da obra se encarregam as editoras e os leitores, a entidade o que busca é intervir na sociedade guiada pelas ideias que Saramago defendia. “Hoje, eu trabalho e milito em Saramago, é isso”, resume.

 

Ideias para a vida

“Procura em um manual de neurose e copia: ali estará meu perfil”, me diz quando comento que me pediram um perfil seu. Nos conhecemos no começo do ano passado, quando fui a Lisboa para entrevista-la. Meses depois me mudei para a capital portuguesa e passei a frequentar a Fundação José Saramago. Primeiro como visitante, para acompanhar os atos e tomar um café, e de repente, meio sem perceber, me tornei um colaborador. Pilar tem uma incrível capacidade de prestar favores aos demais e fazer parecer ser ela quem está sendo ajudada. De maneira que não sou nem um pouco imparcial neste perfil: como muitas das pessoas que a conhecem, acho Pilar uma mulher extraordinária. É brilhante, simples e prática. Também é, às vezes, teimosa e acelerada. Nélida Piñón a definiu como uma “mulher de Bíblia”, alguém “sempre generosa, fiel, convicta”. Como boa andaluza, é dona de uma personalidade forte, e como boa espanhola, faz da discussão, sobre qualquer assunto, um passatempo. É normal que se exalte, que diga frases impactantes e definitivas, que podem ser sobre política, literatura, jornalismo ou qualquer outro tema. “Conversávamos sobre colocar ou não açúcar no café, e ela diz: o café é amargo, e ponto”, recorda Juan José, seu filho, ao citar apenas um exemplo de como é conviver com Pilar del Río.

 

Convicta, pragmática e tem um sentido de humor apurado. No documentário que conta a vida do casal, há um momento em que Saramago, em uma conversa com um jornalista, cita a esposa. Em seguida a chama: “Pilar, chega aqui. Acabo de dizer uma coisa linda. Que eu tenho ideias para romances e que tu tens ideias para a vida, e eu não sei o que é mais importante, que tal?”. Ela se aproxima, o abraça, e responde: “Desculpa, mas creio que é a vida”, responde e sai de cena sorrindo. Recentemente o cantor de rock espanhol Miguel Ríos lançou sua autobiografia. Nela, o andaluz diz que nos anos 1970 todos queriam namorar Pilar del Río. “E você só me conta isso agora”, respondeu com seu humor apimentado.

 

Pilar sempre tem razão

Em uma das entradas de seus Cadernos de Lanzarote, Saramago, ao comentar sobre o Evangelho segundo Jesus Cristo, escreve: “Pilar acha que é o meu melhor romance, e ela sempre tem razão”. Sempre tem razão mesmo quando está errada, dizem os amigos. Desde a morte de Saramago, há três anos e meio, ela não descansou um minuto. Colocou-se na linha de frente da fundação, mudou-se para Lisboa, mas manteve em Lanzarote a casa onde morava. Com a ajuda dos colaboradores, transformou-a num museu vivo. Comanda os dois espaços de perto, ninguém sabe como consegue. A tudo isso somam-se as viagens — muitas vezes intercontinentais — para participar de eventos literários, homenagens a Saramago e apresentações de livros. Quando lhe dizem para que diminua o ritmo, Pilar argumenta que o trabalho precisa ser feito agora, que não há tempo a perder, e que se a memória de Saramago não for cuidada neste momento, quando sua morte ainda é recente, no futuro pode ser tarde. “Ela diz que quando morrer terá muito tempo para descansar”, conta a amiga mexicana Marcela González.

 

A mexicana se soma ao grupo de pessoas que acreditam que Pilar, na realidade, é mais do que uma. “Havia uma época, quando eu trabalhava na televisão, que eu ia às festas de Sevilha e depois, de manhã, apresentava o programa. Um dia um cigano se aproximou e me disse: você não é humana, não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo”, diverte-se Pilar ao recordar. Receber o e-mail seu às cinco da manhã e outro à meia-noite do mesmo dia é algo mais ou menos comum. “Com sorte, durmo cinco horas, e com isso estou bem”, resume. “Descansar me parece algo indecente com o mundo como está, é coisa de pequeno burguês. Uma vez eu disse que meu sonho era que o mundo todo cheirasse a tomilho. Se fosse assim, seria melhor, porque significaria que todos temos uma casa e uma cozinha, e então eu poderia descansar”.

 

Mulheres de Saramago

Na ficção de Saramago as mulheres sempre tiveram papel de protagonistas. São elas que levam a trama, que têm a força para mover a história e são as donas das virtudes. “Humildes e leais, generosas e autênticas, nelas se depositam os méritos que Saramago mais valorizava e representam, em seu conjunto, a humanidade desejada”, apontou o escritor espanhol Fernando Gómez Aguilera sobre as criaturas do português. “Meus personagens verdadeiramente fortes, verdadeiramente sólidos, são sempre figuras femininas”, declarou certa vez o escritor, que também dizia que tinha como ambição “fazer da literatura vida”. Pois Pilar poderia perfeitamente ser uma dessas personagens literárias de Saramago, e talvez seja justamente por isso que acabou por cruzar seu caminho. Quem conheceu o escritor antes da chegada da espanhola em sua vida diz que ela foi responsável por torná-lo mais acessível e aberto quanto aos sentimentos. Foi a ela que ele dedicou todos os seus livros a partir do dia em que a conheceu. “A Pilar, minha casa”; “A Pilar, meu pilar”; “A Pilar, como se dissesse água”; “A Pilar, que não deixou que eu morresse”; “A Pilar, todos os dias”; “A Pilar, até o último instante”; “A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou em chegar”, ou simplesmente “A Pilar”.

 

“Tê-la conhecido foi o grande acontecimento da minha vida”, repetia Saramago, que também costumava dizer que sempre se apaixonava por suas personagens femininas. Com Pilar não foi diferente.

 

 

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