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Todos sabemos, mas é sempre bom lembrar: a produção feita por autores de periferia ainda é bastante desconhecida do grande público. Várias são as resistências lançadas por essas autoras e autores contra os silenciamentos a que são submetidos. A novidade é que no dia 17 de janeiro será lançada mais uma iniciativa para dar visibilidade a essa produção. Trata-se da antologia online Letras e Becos – Literatura das Periferias de São Paulo. Disponibilizado em inglês e português, o trabalho reunirá textos de 18 autoras e autores da periferia da capital paulista neste link. O acesso é gratuito.

A antologia é produzida por Amanda Prado e Michel Yakini, com coedição da Elo da Corrente Edições e Avangi Cultural. A coordenação da tradução dos textos ao inglês foi feita pelo professor Vivaldo Santos, da Georgetown University (EUA).

“Nosso objetivo é fomentar a pesquisa”, afirmam Prado e Yakini, por e-mail. “Nos últimos dois anos, tivemos contato com muitos pesquisadores de literatura brasileira contemporânea interessados nas publicações das periferias, eles sempre comentam sobre a dificuldade de encontrar as obras, que não estão em grande livrarias ou disponíveis para compra on-line”, explicam.

Letras e Becos reúne textos em poema ou prosa de 25 livros e antologias publicadas nos últimos doze anos, com contato das/os autoras/es e bibliografia. São 9 mulheres e 9 homens. Assinam os escritos Akins Kintê, Alessandro Buzo, Allan da Rosa, Binho, Débora Garcia, Dinha, Elizandra Souza, Fuzzil, Lids Ramos, Marco Pezão, Michel Yakini, Priscila Obaci, Raquel Almeida, Sacolinha, Samanta Biotti, Sonia Bischain, Tula Pilar Ferreira e Walner Danziger. “É um bom começo para quem quiser conhecer mais da produção literária das periferias de São Paulo”, garantem os produtores.

A força de uma antologia da literatura feita nas periferias se mostra com mais contundência em um contexto político complexo como o atual – por exemplo, a cidade de São Paulo vive uma série de higienizações sociais. Mas quem escreve nas periferias se acostuma a adversidades, por sofrerem constantes silenciamentos ou serem invisibilizados.

“Estes momentos, ou situações de adversidade, são quando desponta a criatividade, essa é uma das formas de sobreviver aos problemas impostos às populações negras e das periferias. Neste processo, foi importante notar que existem, por muitos motivos, menos publicações de mulheres. Então a decisão de igualar a autoria masculina e feminina é também uma forma de ressaltar a presença destas mulheres que, mesmo quando não tem obras publicadas são articuladoras e autoras dessa cena literária de grande importância na história das artes e da cultura brasileira”.

A representatividade de minorias sociais nos romances de editoras hegemônicas é pequena. Ao divulgar a antologia, os produtores lembram dados reunidos no livro Literatura Brasileira Contemporânea — Um Território Contestado (Editora Horizonte/Editora UERJ), uma pesquisa de 15 anos feita por Regina Dalcastagnè e lançada em 2012, sobre as narrativas presentes na literatura contemporânea. De acordo com o estudo, pessoas negras são apenas 7,9% das personagens e têm pouca voz – são apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores. São constantemente representados como bandidos ou contraventores (20,4%), empregados(as) domésticos(as) (12,2%) ou escravos (9,2%).

Em contraponto, pessoas brancas são, em geral, donas de casa (9,8%), artistas (8,5%) ou escritores (6,9%). Na ficção, a maioria das pessoas brancas morre, na ficção, por acidente ou doença (60,7%). Pessoas negras morrem mais por assassinato (61,1%).

ESTÉTICA - São seis textos em prosa e 30 poemas. Prado e Yakini adiantam que, no caso da ficção em prosa, as obras se assemelham por trazerem espaços narrativos e personagens parecidos, que apresentam as ruas, becos, favelas e vilas e vielas. "Por exemplo, os contos de Sacolinha e de Alessandro Buzo apresentam espaços e personagens marginalizados através de um narrador que traz um olhar de dentro", citam. Há, também, textos sobre o futebol sob ótica "da torcida e da várzea".

Boa parte das produções em poesia trazem consigo temas que envolvem "ancestralidades, identidades, tranças, traços, denúncias e revides a partir do eu-mulher- negra, cada uma ao seu ritmo e ao seu imaginário". Noutras, há um claro teor metalinguístico. Por fim, há obras como as de Fuzzil ou de Binho, de difícil encaixe nas outras categorias. Elas nos mostram que "as letras da periferia rumam para onde bem quiserem".

TRADUÇÃO – A tradução dos textos ao inglês foi feita por estudantes da Georgetown University. Entre os principais desafios enfrentados pelos alunos no trabalho, sobressaíram-se a natureza coloquial das narrativas; a lida com temas específicos de alguns textos (como minúcias do futebol, por exemplo); a falta de experiência de alguns alunos com a tradução de textos literários e com a linguagem poética. Com o tempo, essas dificuldades foram superadas.

“É importante deixar claro que o trabalho dos alunos não é de tradutores profissionais e que, lançada a antologia online, sugestões e observações seriam sempre bem-vindas, visto que não é uma tradução, como nenhuma tradução o é, definitiva. Em outras palavras, é um projeto em andamento”, pontua o professor Vivaldo Santos. Ele ainda afirma esperar poder traduzir os textos também para o castelhano.

Santos ainda lembra que os ganhos da tradução da antologia não são apenas dos alunos, que desenvolveram mais aptidões, mas também de um público (acadêmico ou não) que deseje acompanhar a produção literária brasileira contemporânea.

PERSPECTIVAS – Por se tratar de um projeto ainda em construção, as possibilidades de expansão são muitas. Os produtores foram convidados a apresentar a iniciativa no 7º Encuentro de Escritores Latinoamericanos y del Caribe, que ocorrerá em São Paulo no mês de março. Também há intenção de lançar a antologia em versão impressa ou ebook, além de traduzir o projeto a outras línguas.

“Existe o desejo de ampliar este trabalho em muitas direções, traduzir em outros idiomas, aumentar a seleção de autores em São Paulo e também para o Brasil. A continuidade deste trabalho ainda depende de parcerias, como a articulada com o professor Vivaldo Santos e seus alunos, que possibilitou a criação da antologia a um custo muito baixo”, afirmam Prado e Yakini.

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