Gráfico 2

Tradução de Maria Carolina Morais*

Se você trabalha no mercado editorial norte-americano**, existem boas chances de você ser uma mulher branca, heterossexual e não portadora de deficiência física. É o que constata uma pesquisa inovadora encomendada pela Lee & Low Books, editora de livros infantis cujos proprietários pertencem às minorias, eleita em 2014 a Editora do Ano pela revista Foreword.

A Pesquisa de Base de Diversidade, publicada no dia 26 de janeiro, busca estabelecer um ponto inicial de “números concretos” que mede a diversidade dos funcionários das editoras. De acordo com uma descrição em sua metodologia, a pesquisa foi disponibilizada para 1.524 críticos e 11.713 funcionários da maioria das mais importantes editoras, além de várias editoras independentes – no entanto, ao que parece, HarperCollins e Simon & Schuster não participaram do estudo. A taxa de resposta à pesquisa foi de 25,8%.

De acordo com sua introdução, a força motriz do levantamento foi a convicção da editora de que ele conseguiria “evidenciar um problema que pode, de modo geral, ser desprezado ou varrido para debaixo do tapete” e “avaliar se iniciativas para aumentar a diversidade entre funcionários de editoras estavam de fato funcionando ou não”.
Parece que tais iniciativas não estão funcionando. Os números totais do setor apontam para uma composição de funcionários que é 79% branca, 78% cis feminina, 88% heterossexual, e 92% não portadora de deficiência. Uma análise ainda mais detalhada mostra um setor que tem apenas 4% de negros, 7% de asiáticos/nativos do Havaí ou de outra ilha do Pacífico, e 6% de hispânicos, latinos ou mexicanos. E esses números deprimentes coincidem entre categorias do setor, com apenas uma pequena melhora, restrita aos funcionários asiáticos, no marketing.

Um ponto positivo nos resultados da pesquisa é a composição de gênero no setor editorial, que se afasta bastante dos homens cis em direção às mulheres cis (mais uma vez, o número total é de 78%). Ainda assim, todas as outras categorias (transmasculinas, transfemininas, intersexuais e gêneros não binários) perfazem 1% ou menos. E os números, apesar de ainda fortes, caem na categoria executiva, que é 40% masculina.

Uma categoria ausente na pesquisa, que poderia ser implementada (mesmo com imperfeições) nos próximos anos é a de nível socioeconômico e/ou de escolaridade. Sem resultados de pesquisa, é difícil determinar o número de profissionais de editoras que nunca terminaram a faculdade, por exemplo. A importância dessa categoria foi recentemente enfatizada por uma nova política da Penguim Random House do Reino Unido, que derruba a exigência do diploma universitário para os funcionários. Nada parecido foi implementado pela Penguim Random House dos Estados Unidos, mas Clair von Schilling, sua Diretora de Comunicações Corporativas, informou a Flavorwire que, apesar de a empresa de fato oferecer vagas de emprego que exigem formação universitária, ela “há tempos vem contratando funcionários que não são formados em todos os setores, o que nos permite empregar muitos profissionais excelentes que nunca receberam o diploma de ensino superior”.

A conclusão à pesquisa está em consonância com problemas similares em outras mídias, e certamente a relutância do ramo cinematográfico a se comprometer em produzir e reverenciar artistas e funcionários negros e não brancos vem logo à mente. “Agora que a Pesquisa de Base de Diversidade está completa”, conclui o relatório, “começa o trabalho de verdade para mudar o status quo”:

“Isso não vai ser fácil. Saber em que posição estamos e estabelecer parâmetros foi o primeiro passo. Conhecer a linha de base nos dá uma forma de medir o progresso a partir de agora, mas só nossas ações podem mudar as coisas para melhor”.

Apesar de a relação entre a esmagadora maioria branca nas editoras e os livros que produzem não ser diretamente explorada pela Pesquisa de Base de Diversidade, supor que mais livros feitos por escritores norte-americanos não brancos e internacionais encontrarão seu caminho até as estantes se o setor decidir realizar mudanças substanciais é provavelmente uma aposta confiável. O fato nu e cru de que nós agora estamos lamentavelmente publicando escritores negros a menos, para falar apenas de uma categoria, é posto em contraste durante um período histórico de curta duração que viu a publicação de A Brief History of Several Killings, de Marlon James, Citizen, de Claudia Rankine, e Counternarratives, de John Keene – para listar apenas três livros que se encontram no ponto mais alto de suas respectivas formas. O que não estamos lendo?

*Texto publicado originalmente no site Flavorwire.com
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* Gostaríamos muito que pesquisa semelhante fosse realizada no mercado editorial brasileiro

 

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