Bastidores Filipe Aca junho2020

 

Trabalho e moro dentro do campus universitário Darcy Ribeiro, na Asa Norte, Brasília, Distrito Federal. O dia a dia aqui é difícil por uma série de razões, mas às vezes é bom lembrar que estamos vivendo dentro de um sonho. O sonho de uma universidade que pudesse pensar e melhorar a realidade brasileira. Um sonho de esquerda, que se fundava na ideia da autonomia universitária e envolvia nomes como Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e Oscar Niemeyer. Embora a construção de uma universidade estivesse nos planos de Brasília desde o início, conseguir se instalar neste local, tão perto da Esplanada dos Ministérios, foi uma luta de quase dois anos — porque algumas autoridades não queriam professores e estudantes ao lado do poder central. Continuam não gostando da nossa presença, é claro, e expressam isso com bastante truculência a cada vez que nos aproximamos dos gramados da Esplanada.

Temos muita história de luta pela democracia dentro da Universidade de Brasília. Enfrentamos uma série de invasões durante a ditadura, invasões que começaram no dia 9 de abril de 1964 e foram até o final do regime, perseguindo estudantes, funcionários, professores, demitindo o reitor, colocando um interventor em seu lugar. A UnB foi cercada, fechada, nossos estudantes eram encurralados aqui dentro e presos. Três deles, Honestino Guimarães, Ieda Delgado e Paulo de Tarso Celestino, foram “desaparecidos” no início dos anos 1970. O educador Anísio Teixeira — que foi o reitor afastado logo depois do golpe — foi encontrado morto em um poço de elevador em 1971. Alguns anos antes, em outubro de 1965, após a demissão de 29 professores, 80% dos docentes da UnB, em solidariedade, se afastaram também. Era um sonho interrompido pela ditadura.

Passadas mais de cinco décadas, com muitas conquistas na ampliação e na democratização do espaço universitário, nos vemos cercados outra vez pela brutalidade, pela irracionalidade e pelo negacionismo que, desde muito antes da chegada desse vírus, perturbam nosso cotidiano e assombram nosso futuro. Quase podemos ouvir, daqui, a maquinaria pesada do poder em funcionamento. Enquanto nos isolamos para proteger a vida, eles vão às ruas para pedir a volta da ditadura. Enquanto buscamos fórmulas para trabalhar à distância, realizando reuniões, bancas, encontros virtuais com alunos e orientandos, eles articulam o congelamento de nossos salários por vários anos. Enquanto escrevemos o próximo artigo, eles tiram os recursos das mais importantes revistas acadêmicas da área de Humanas no país. Enquanto seguimos arduamente em nossas pesquisas, eles acabam com nossas bolsas de Iniciação Científica, essenciais para o começo de qualquer carreira acadêmica. Em seguida, serão as bolsas de mestrado e doutorado, os apoios para participação e realização de eventos, o financiamento das pesquisas em geral. Sabemos bem que o objetivo deles é eliminar historiadores, sociólogos, cientistas políticos, filósofos, antropólogos, artistas, linguistas, críticos literários da vida nacional.

Somos nós, afinal, que pensamos criticamente o mundo, que oferecemos ferramentas para interpretá-lo e para agir sobre ele. Somos nós que acalentamos a dúvida sobre as certezas da religião, do governo, até mesmo da própria ciência. Somos nós que contribuímos para tornar mais complexa a leitura sobre o mundo que nos cerca. E quando nos juntamos à classe trabalhadora, aos moradores das periferias, aos pobres, às populações negras e indígenas, à comunidade LGBT, nos tornamos ainda mais indesejáveis aos olhos dos poderosos, que querem ser os únicos a dominar o discurso sobre a realidade brasileira. O anúncio do ministro da educação, em maio, de que não adiaria as provas do Enem, quando os alunos das escolas públicas não estão tendo aulas por conta da pandemia, é a explicitação disso. A universidade que passamos as últimas décadas tentando aprimorar e, sobretudo, estender a outros grupos sociais deve ser deles, ou ser privatizada de vez.

Em meio à pandemia, tensos com o número de mortos que cresce a cada dia e já atinge amigos e conhecidos, dormimos e acordamos desgastados com a necessidade de nos cuidarmos e cuidarmos da nossa universidade — o que significa, também, pensar em cada aluno/a que espera por nós para acabar o curso e seguir sua vida, ansioso/a por um futuro que já não consegue vislumbrar. Não é sem desânimo que olhamos para o lindo céu de Brasília nesse início da seca, sabendo que aqui do lado pessoas armadas e enroladas na bandeira do Brasil acampam diante do Congresso Nacional, fazendo ameaças e barulho, acolhidas pelo presidente da república. Mas daí recebemos uma mensagem carinhosa de uma aluna, um colega do exterior manda fotos engraçadas de seus bichos no isolamento, o filho termina de redigir seu primeiro projeto de Iniciação Científica para a UnB, você descobre que embora os prédios e estacionamentos da universidade estejam desertos, todos os gatos que vivem ali estão sendo alimentados e parecem felizes. E, assim, segue o sonho.

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