Bastidores Eduardo Azeredo jan19

Prosa Pequena foi escrito em exatos seis anos, de abril a abril, 2006 a 2012. Nasceu de um convite dos amigos Fernanda Verissimo e Bob Fernandes. Não para escrever o livro, mas uma coluna quinzenal para o Terra Magazine, a revista online que eles estavam criando, hospedada no portal Terra. Aceitei, achando que aquilo não ia durar mais do que alguns meses; não a revista, mas a minha capacidade para escrever textos a cada duas semanas para uma publicação.

Não havia restrição nenhuma quanto ao tamanho, nem ao tema, forma, nada. E acho que consegui manter a coluna por tanto tempo porque rapidamente os textos encontraram sua própria forma. Tirando algum raro comentário sobre um ou outro autor ou livro, na quase totalidade das vezes escrevi ficção, o que, no fundo, é só o que sei fazer.

Pois foram estas ficções que viraram o livro Prosa pequena.

Não eram contos, um gênero em que eu já estava treinado (havia publicado já três livros de contos), embora fossem textos curtos, com a subliminar aspiração a serem breves.

Curtas ficções, instantâneos, narrativas mínimas, considerações sem importância, fragmentos de coisa nenhuma, esse pouco mais de nada que preenche os grandes espaços de silêncio entre os (às vezes raros) eventos fortes do curso de uma vida, cheguei a escrever (no intuito de dar ao leitor o tom da coluna) no primeiro texto que publiquei lá no Terra Magazine, um texto que se intitulava justamente Prosa pequena. Minha ideia era buscar, naquele espaço que me davam e que me obrigava a uma produção constante, um texto mais livre, mais espontâneo (na verdade, eu estava cansado de escrever contos, cansado de seus artifícios, suas estratégias, que embora façam o texto eficaz, nunca deixam de ser amarras). Sem ser cronista – e sobretudo sem querer ser cronista –, eu desejava partir da observação das coisas menores, desimportantes (é uma espécie de fascínio que tenho: o pequeno, o desprezível, o despojo, aquilo que normalmente a gente esquece, embora se saiba que nada desaparece e que sempre fica um resto), usá-las como gatilho para textos que pudessem fixar alguma coisa. Em síntese: chegar ao resto, fazer do despojo o principal.

Esta era a ideia, mas as ideias nunca são seguidas à risca. O desvio quase sempre se impõe ou pela nossa incapacidade de seguir as ideias ou porque elas, afinal, não se revelam tão boas. O certo é que pelo desvio se chega a outra coisa. Este livro é um pouco essa outra coisa.

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A questão da observação. A imagem como ponto de partida para o texto. Tenho a dizer que por trás disto (desta ideia), estava o sentimento, ou mesmo o reconhecimento, de que a minha escrita é imagética. Não no sentido de que o meu texto crie imagens, ou faça o leitor enxergá-las. Ao contrário, depois de vários anos escrevendo, posso afirmar com certa convicção que é a partir de imagens que o meu texto se cria. Então, se a questão é o processo criativo – e me parece que é disso que Bastidores procura tratar –, uma coisa é clara no meu processo: ele é este caminho entre a imagem e o texto, o caminho da imagem ao texto.

Não se trata, obviamente, de descrever uma imagem, mas de pôr palavras nela, fazer com que ela, a imagem, se ative por meio das palavras. Uma imagem apenas, assim como uma palavra isolada, não são nada, não fazem nada. Mas quando elas se dispõem (são dispostas) umas em relação às outras é que alguma coisa começa a acontecer. 

Então a ideia de base (mais uma? ou a mesma?) era esta: a partir da imagem, o texto. E, nisto, dois gestos: o olhar e a escrita. E talvez o mais importante: entre os dois, o germe da ficção, é ali que ela nasce, e é ali também que reside o seu poder.

Uma ficção pensa, isto é claro, é evidente, e se ela não pensa ela não vale a pena. Mas é uma forma de pensar que não está nem na imagem (no olhar) nem no texto (no escrever), mas no que resulta do encontro entre estes dois gestos fundadores. Também escrevi, desta vez no texto final do Prosa pequena, que de alguma forma explica a gênese do livro e é uma espécie de Bastidores inserido no próprio livro: De repente, um entendimento que não é racional nem buscado se desprende deste texto fabricado pela imagem. E num movimento de refluxo, o texto transforma a imagem, ativa-a, faz dela uma imagem em ação: imaginação, enfim, o que nos permite ver o invisível, tudo aquilo que não aparece mas que está lá, ou melhor ainda, o que faz aparecer de outro jeito o que a nós parece ser sempre a mesma coisa.

Pela imaginação, a ficção. A ficção, portanto. No fundo, ela é também resto. Quando um escritor se dispõe a pensar sobre um tema, quando ele pretende escrever um texto sobre alguma coisa, a ficção só vai aparecer, potente, se ele aceitar a distração do tema, se o sobre em algum momento se perder, for esquecido, desviado. O caminho da ficção não é reto, não é o do pensamento lógico e suas cansativas sucessões de causas e efeitos. Se há algo de poderoso na literatura de ficção – e há – isso se deve ao fato de que ela nos dá acesso a um tipo de conhecimento que não é alcançável pelas vias racionais. E ela só é justificável, só será literatura, só será ficção, se oferecer esse tipo de acesso.

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Por algum tempo, sempre que me referia a estes textos (os da coluna, depois os do futuro livro, e agora os deste livro que já saiu, que aqui está e que de agora em diante deve falar por si), falei de instantes ficcionais, expressão roubada do João Gilberto Noll (que falta fazem à literatura brasileira a coragem e ousadia literária desse cara!), falei de bolhas de ficção, e finalmente falei de prosas.

Falei de prosas para deixar mais ampla a gaveta das classificações, ou pelo menos fazer dela uma gaveta meio defeituosa, dessas que não fecham completamente. E também para resgatar o caráter prosaico daquilo que, afinal, estava na origem desses textos.

Mas no fundo acho que o que me levou a pensar esses textos em termos de prosa e a nomear o livro como Prosa pequena, foi uma forma (uma tentativa) de trazer para o meu lado um (no fundo dois) dos meus santos. Em 1917, Robert Walser publica uma coletânea desses textos tão marcadamente seus, pequenas joias despidas de toda a solenidade, o olhar quase amoroso dedicado ao minúsculo, e a intitula Kleine Prosa, pequena prosa, prosa pequena. Um pouco antes, por volta de 1912, Franz Kafka, em seus diários se refere, nestes mesmos termos, kleine prosa, a uma série de textos que mais tarde foram publicados sob o título (para nós) de Contemplação.

Gostaria que a sombra destes dois gigantes pairasse sobre meu livrinho.

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