Bastidores jul19Luisa Vasconcelos

 

Meu primeiro contato com a prosa de Audre Lorde foi A poesia não é um luxo. O tom do texto me surpreendeu. Seus ensaios, muitas vezes apresentados em conferências, soam como conversas. Há uma cadência, imagens com as quais ela captura nossa atenção, sensibiliza-nos com sua franqueza e então apresenta suas ideias. Ao final da leitura, abri o Youtube para ouvir registros de Lorde lendo poemas, entrevistas, gravações de palestras. Suas palavras me instigaram a buscar sua voz. Eu ainda não sabia, mas era só o começo.

Irmã outsider é uma coletânea fundamental para compreender o pensamento feminista interseccional de Lorde, que se articula a partir das experiências de ser uma mulher negra, lésbica, mãe e feminista. Integrante de diversas minorias, a autora reforça em seus textos a importância de as pessoas se definirem com suas palavras, pois a sociedade já tem ideias pré-concebidas sobre corpos que estão fora de uma norma branca, magra e hétero. A poesia é uma necessidade, uma forma de encontrar as palavras que nos permitem ser honestas com quem somos e o com o que desejamos, e não apenas um jogo de linguagem.

Em vários momentos, perguntei-me se me tornei uma tradutora de Audre Lorde por causa das semelhanças e diferenças entre nós. A primeira edição de Irmã outsider foi lançada em 1984 – ano do meu nascimento – e Lorde morreu em 1992, quando eu descobria a poesia com Ou isto ou aquilo de Cecília Meireles. Cheguei aos seus ensaios em 2017, pesquisando poetas negras enquanto escrevia meu primeiro livro Talvez precisemos de um nome para isso. Nosso reencontro se deu pela tradução: duas outsiders pensando a realidade a partir das muitas maneiras como nossos corpos não se enquadram em determinadas visões de mundo.

Traduzir Irmã outsider não foi apenas um processo intelectual, a leitura atenta, as escolhas e a pesquisa. Era lidar com um texto que evocava lembranças, histórias de família, experiências para as quais eu ainda não tinha nomes, mas ela já tinha conceituado há décadas com muita clareza, embora a raiva de uma mulher diante da misoginia e do racismo não seja algo simples de articular com objetividade. Encontrar o tom da prosa de Lorde é um exercício de escuta. Aproximar a tradução de uma certa informalidade, da conversa, mas sem diluir o impacto de certas decisões da autora.

Lorde rejeita a ideia de privilegiar um dos aspectos de sua identidade de acordo com o papel que desempenha. Assim, a autora de Irmã outsider é uma poeta escrevendo ensaios, uma professora se dirigindo ao público, uma mãe dividindo suas experiências e uma mulher encarando a própria mortalidade depois de um diagnóstico de câncer. E, embora um texto ou outro evidencie uma face mais do que outra, todas se fazem presentes na forma como Lorde traça relações entre sua vida e as estruturas sociais, indo do particular para o geral, associando o pessoal e o político.

Um dos meus desafios na tradução era conciliar a poeta, a leitora, a jornalista e a mulher negra que se reconhece nas análises de Lorde e aceitar que todas essas identidades carregam saberes úteis para me aproximar de seus textos e fazê-los chegar ao português. Pelo menos uma vez por semana eu voltava ao Youtube para ouvir Audre Lorde e me perguntava: como vai soar essa tradução? Como encontrar um registro que acolha a vulnerabilidade e a força com que ela divide o que aprendeu lidando com o câncer e o conhecimento que provém do erótico, da poesia?

Nos EUA, a militância nos movimentos antirracistas e nas lutas pelos direitos civis levou as pessoas negras a se tratarem por brother/sister, evocando alianças e semelhanças de viver as consequências de uma diáspora forçada. Lorde se posiciona como uma irmã, tratando outras mulheres negras na primeira pessoa do plural, estabelecendo um território comum para depois nos lembrar que somos também indivíduas, que parte da lógica racista consiste em apagar nossas complexidades e particularidades. Reconhecer nossas diferenças e trabalhar por objetivos em comum apesar delas é a única forma de conduzir lutas coletivas contra machismo e o racismo.

A tradução envolve a consciência da perda, das limitações, da necessidade de escolhas e, neste caso, do meu desejo de me aproximar da voz de Lorde. Ler sua prosa sem esquecer que são textos de uma poeta me parecia relevante para preservar imagens e fazer escolhas que provocassem estranhamentos. Leitores de poesia estão acostumados com a experiência. No entanto, Irmã outsider é uma referência do feminismo negro e lésbico, uma obra que nos ajuda a compreender a importância da interseccionalidade e da descolonização. Como conciliar a tensão entre um pensamento sofisticado e um tom que recorre ao poético para abordar experiências extremamente políticas?

Quando a poeta afirma que mulheres negras são ensinadas a rejeitar a cor de sua pele, a textura de seus cabelos, tudo o que é associado à negritude e a ser mulher, penso em meus cabelos alisados na adolescência. Tantos rostos conhecidos me veem à cabeça. Nenhuma de nós veio ao mundo querendo ser outra coisa, mas os discursos, a ausência de mulheres negras em espaços de decisão e poder, a pouca oferta de histórias em que falamos de nós com nossas palavras servem como uma lição de que há pouco espaço para quem somos. Parte do processo é desaprender isso, preservar o que nos serve e descobrir como criar as mudanças que consideramos necessárias. As ferramentas do senhor não derrubarão a casa-grande.

Traduzir Audre Lorde foi um aprendizado como poeta, feminista e intelectual. Foi um processo de aceitar as minhas vulnerabilidades para que suas palavras chegassem a outras que, como eu, um dia, precisam delas e ainda nem sabem.

Soa diferente em português, mas gosto de pensar que minha intromissão como tradutora em Irmã outsider é a tentativa de transmitir a sensação de ouvir essa mulher que considero sábia. Se meu corpo e minha voz se impõem nesses ensaios é porque eu gostaria que terminassem o livro com a impressão que me acompanha desde a minha primeira leitura Audre Lorde: a de ter ganho uma irmã.

SFbBox by casino froutakia