Bastidores jul19 Hana Luzia

 

1. Levei seis anos, quatro meses e um dia para escrever Sombrio ermo turvo. Quando digitei a última linha do último texto do livro, nevava em São Paulo.

2. O Eduardo e minha irmã são, respectivamente, meus maiores muso e musa inspiradores. Minha irmã se chama Helena, mas, desde pequena, é, para todos nós, Lena. Foi ela quem me contou a história da suruba na cozinha.

3. Por via das dúvidas, nunca bebi o sangue da minha irmã. Mas já bebi sangue de porco.

4. Eu, o Eduardo e minha amiga de infância assumimos nossa antiga relação a três e seguimos tocando o bar juntos. Este só não fica do outro lado do Atlântico, mas em Sanga da Toca. Na semana passada, incluímos morcilha e galinha de cabidela no cardápio.

5. Depois que o Eduardo abateu o boi a tiro, prometeu que me daria de presente a kalashnikov banhada a ouro que eu tanto queria.

6. Faz tanto tempo que eu e o Eduardo estamos juntos que, quando o vi pela primeira vez, ele usava um tênis cuja língua ia até quase o joelho. Era moda. Gamei no mesmo instante.

7. Um dia antes de irmos a Évora, eu e o Eduardo tiramos uma foto com o Franklin no carro do papa. Foi uma rapariga que passava quem bateu a foto. Ela levou um susto quando o Franklin a abordou.

8. Foi o Marcelo quem roubou minha camisa vermelha num sonho. Hoje, ele é performer em Portugal.

9. Não é a primeira vez que aparecem anões em meus livros. Mas é a primeira vez que menciono o creme Nívea.

10. Nenhum nome é verdade.

11. O pequeno barco enfeitado de luzinhas coloridas que aporta ao lado da antiga ponte romana existe de verdade e baloiça pelos canais de Veneza todo ano, na festa do Redentore.

12. A festa à qual se dirigem o Leão e o seu padrinho não tem nada a ver com a festa do Redentore. Esta se passa nas águas, a outra no céu.

13. Uma vez, o avô do Eduardo o levou para ver um leão que era criado nos fundos de um curtume em Caxias do Sul. O Eduardo tinha seis anos e tirou uma foto do leão. Gosto de imaginar que foi a primeira foto que ele fez. Mas não foi.

14. Meus pais contam que, na primeira vez em que fui ao zoológico, não queria sair da frente da jaula onde o leão e a leoa trepavam. Eles também contam que nenhum outro bicho me encantou mais do que as formigas, que iam em fila de uma jaula para outra.

15. Quando o Eduardo visitou o Zoológico do Bronx, havia, dentro da loja de lembrancinhas, um elefante preso com correntes pelos pés. Assim que ele viu o elefante, este o encarou. Tinha o olhar mais triste do mundo.

16. No dia anterior à neve de 1984, fui com a minha família a Canoas para comprar um filhote de cocker spaniel. Ele viveu 12 anos conosco e se chamava Nero. Sua pelagem preta e branca lembrava a do boi abatido pelo Eduardo.

17. A música que sempre costumava ouvir quando me dedicava a um novo projeto era Clandestino, de Manu Chao. Agora, escuto Kátia Flávia, de Fausto Fawcett. Quando não quero trabalhar com música, ouço, bem baixinho, a Suite bergamasque, de Debussy.

18. Nunca liguei para o telefone dos anúncios de conserto de gaitas espalhados por Porto Alegre. Nunca tive uma gaita. Nunca fiz um aborto.

19. Nenhum coração é verdade.

20. Há sempre alguém rezando nos meus livros.

21. Quando fiz a primeira comunhão, a hóstia grudou no céu da minha boca. Achei melhor não mexer. Assim, ela ali ficou por semanas.

22. Nunca tivemos tupperware em casa. Só potes de vidro. Tampouco tínhamos margarina. Só manteiga. Como nunca consegui espalhar a manteiga dura no pão de forma, meus sanduíches ficavam sempre esfarelados.

23. Não sei quem são as pessoas que estão debaixo da caixa. Nunca as vi. Talvez as tenha inventado.

24. Joel, o herói, nunca mais foi visto e Veronica Stigger continua desaparecida.

25. Quando conheci o Eduardo, ele dirigia uma Parati vermelha, embora ainda não tivesse 18 anos. Ele tentou me ensinar a dirigir, mas desistiu quando perguntei, guiando a 60 quilômetros por hora, qual era mesmo o pedal do freio.

26. As poucas aulas de direção foram realizadas na praia. Mas nunca entrei com o carro na areia.

27. Num poema, João Cabral de Melo Neto conta que, um dia, Clarice Lispector e uns amigos trocavam histórias de morte quando foram interrompidos por outros amigos que voltavam eufóricos do futebol. Assim que estes últimos finalmente silenciaram, ouviu-se apenas a voz de Clarice: “Vamos voltar a falar de morte?”.

28. Outro dia, minha irmã viu Pedro e os três sujeitos escondidos debaixo da caixa. “Um deles era uma mulher”, me confidenciou ela. “Isso não é um bom sinal”, pensei.

29. Uma semana depois da morte do meu avô, eu e minha irmã o vimos diante da televisão em preto e branco que ele havia nos dado. Era madrugada. Minha irmã chorou muito.

30. Minha mãe, como a Consuelo, tem o costume de ver mortos no supermercado.

31. Hilda Hilst não só falava com os mortos, como também os gravava. E Caio Fernando Abreu, seu amigo, fazia mapas astrais em seus cadernos esotéricos. Embora fosse de um signo regido pela terra, o elemento que mais dominava seu mapa astral era o fogo.

32. O Victor queria fotografar a lava fervente quando o vulcão de nome esquisito entrasse em erupção. Não havia santo que o convencesse do contrário. Por sorte, o vulcão teve a decência de esperar que fôssemos embora da Indonésia para começar a cuspir fogo.

33. O Eduardo e o Franklin serão os protagonistas do meu próximo livro, que se chamará O Satanista. Não sei qual é o signo do Franklin, muito menos o elemento predominante em seu mapa astral.

34. Antes de nos mudarmos para São Paulo, eu e o Eduardo costumávamos assistir ao seriado Arquivo X. Este tinha uma epígrafe: “A verdade está lá fora”.

35. Nenhuma verdade é verdade.

36. O bilhete escrito à mão, numa caligrafia de volteios, continua a ser a única verdade.

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