Popol.Vuh mai19 LuisaVasconcelos

 

Quando comecei a traduzir o Popol Vuh, no final de 2017, morava sozinha no sul da Ilha de Santa Catarina, para onde me mudei depois da morte de minha mãe. Potencializada pelo silêncio do luto e pela “castidade icônica” da praia deserta, como refere Alan Pauls, essa geografia insular pontuou meu percurso de tradução crítica do grande livro dos maias-quiché da Guatemala.*

Ao contrário de lugares como a floresta, com sua exuberância de detalhes que saltam à vista, a praia deserta, diz Pauls, é um “território livre de imagens” que, se resiste a figurar, é pródigo em inspirar figurações: “Os sonhos, com suas imagens virtuais, são para a praia o que as miragens são para o deserto: a outra cena de um espaço”.

Concentrada no trabalho, para o qual me muni, além do manuscrito de frei Francisco Ximénez, de seis das mais importantes versões, em várias línguas, feitas diretamente do maia-quiché, essa tradução se transformou, aos poucos, numa “aventura existencial”. Uma resenha sobre o lançamento do livro menciona muito brevemente meu assombro cotidiano ao descender nesse universo: “Fiquei obcecada. Via uma árvore e a relacionava ao Popol Vuh.” Só pra não parecer que era um assombro arbóreo qualquer que me tomava, conto aqui a historinha de uma dessas árvores míticas que encontrei perto de onde moro, maravilhada com as cabaças-cabeças solenemente penduradas, sob as quais há um banco de pedra onde passei a me sentar para leituras solares.

Hun-Hunahpú, filho de Ixpiyacoc e Ixmucané, viaja a Xibalbá (o inframundo maia) para jogar bola, acompanhado de seu irmão Vucub-Hunahpú. Vencido e sacrificado pelos Senhores do inframundo, é decapitado e sua cabeça posta “entre os galhos daquela árvore plantada lá no caminho”, no Pátio do Sacrifício do Jogo de Bola, por ordem de Hun-Camé e Vucub-Camé, os Senhores da Morte de Xibalbá: “Assim que puseram a cabeça entre os galhos da árvore, ela deu frutos. Antes de receber a cabeça de Hun-Hunahpú entre seus galhos, a árvore nunca dera frutos. E por isso, o que hoje se chama de cabaça é a cabeça de Hun-Hunahpú”. Logo depois do prodígio, o crânio/fruto/cabaça fala com a donzela Ixquic e engendra nela, com sua saliva, Hunahpú e Ixbalanqué, seus filhos heróis que irão vingar sua morte e as humilhações por que passou. Essa árvore é a Crescentia cujete, aqui chamada de cueira, cabaceira. Parafraseando o Mestre da Palavra quiché (que registrou o Popol Vuh em meio à tragédia de ver sua língua sendo proscrita, sua voz colonizada e seus livros antigos virando cinzas), a natureza dessa árvore calou fundo em meu coração.

Além de duas ou três pessoas que só me ouviam falar disso, passei meses em silêncio. No percurso, sonhei com deuses inscritos em códices de casca de figueira, como o Popol Vuh pré-hispânico. Lancei na tela rútila das pálpebras os grãos vermelhos da árvore Tzite, que os adivinhos maias utilizaram em sortilégio para ler de que matéria devia ser feito o ser humano. Pela janela, entrevi na figueira divindades maias, entre bromélias febris e barbas-de-velho. Rasurei na página em branco da areia a árvore em cujos galhos pousou o Gavião-Couã, mensageiro do Coração-do-Céu, entre o zumbido mudo que antecedeu a criação dos guardiães das matas. Entre neblinas e maresias, toquei as lágrimas da árvore que chora sangue ao ser cortada, a Árvore do Vermelho-Cochonilha, cujos “coágulos de seiva” substituíram o coração de Ixquic (a mãe de nossos gêmeos heróis), o qual deveria ser injustamente arrancado pelas Corujas mensageiras e levado numa cuia aos Senhores da Morte, que dessa forma tiveram seus olhos iludidos.

Numa outra cena, o Coração do Céu, ao perceber que os primeiros seres criados e formados viam longe e tinham entendimento, que seu olhar atravessava florestas e mares, montanhas e vales, e receando que viessem a se igualar aos deuses, embaça seus olhos – como se soprasse sobre a face de um espelho. Da fumaça da fogueira, dos papéis de casca de figueira onde arde o sangue da língua ferida por uma corda farpada, poreja em espirais a visão de tudo o que inspira e do que não se pode ver.

Essa é nossa fortuna. Traduzir o Popol Vuh é apanhar a tocha dos predecessores e, com sorte, passar adiante sugestões que possam iluminar as obscuridades latentes em seu inesgotável esplendor. E essa tocha imaginária não pode se apagar — como o archote-ocote (feito, aliás, de Pinus oocarpa) que os heróis gêmeos, para sobreviver à Casa da Escuridão em Xibalbá, simulam estar aceso com o fogo-artifício das penas vermelhas de uma arara, antes de ascenderem ao firmamento e (junto com 400 jovens que viraram estrelas) se transfigurarem em Sol e Lua.


NOTA

* O mais importante documento poético-político da antiguidade das Américas, o Popol Vuh guarda a cosmogonia, o amanhecer da natureza e da humanidade, a mitologia heroica, a história e a genealogia dos maia-quiché da Guatemala. Seu legado milenar estava vivo na tradição oral e em livros hieroglíficos até o final do séc. XV, início do XVI – quando um anônimo Mestre da Palavra, na tentativa de preservá-lo (cercado que estava pelas fogueiras reais e simbólicas dos invasores espanhóis), registrou-o em um manuscrito – em língua quiché, mas no recém-aprendido alfabeto latino. Antes de (ele também) desaparecer, esse original foi copiado e traduzido por frei Ximénez, no início do séc. XVIII, e esse documento quiché-espanhol é a versão mais antiga do Popol Vuh que temos disponível.

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