Bastidores mar.19 karina.freitas

 

    • Escrevo com uma lanterna, sem wi-fi, de calcanhar rachado, com tendinite, com a bicicleta encostada numa sarjeta, ao redor da cidadela de Hué, fumando thuoc lao numa praça, à base de arroz, pimenta, repelente, canetas roubadas, mímica, tiger balm, fisioterapia e 90 documentos de Word. Tenho medo de perder minhas notas, passo para o e-mail em lanhouses e na biblioteca pública de Luang Prabang.

    • Entre cheiro de alho e madeira queimada, suor e mosquitos, anoto. Penso enquanto rego as hortaliças sozinha. Esta noite somos só nós – eu, Wat, Pó e as crianças – vendo uma novela tailandesa (sei quem é o vilão, o mocinho, sem beijo na boca). Pela primeira vez depois de um mês, organizo minhas notas. Rego e canto em português músicas que ninguém entende.

    • O bloco sobre a língua karen dissolvido na máquina de lavar de Sinchai. Ele não gosta de escritores (a filha mora com um romancista estrangeiro). Sinchai me ama, fica me chamando de galo campeão. Diz que a comida no meu país deve ser boa porque me acha leve e forte. Conto que banquei a viagem escrevendo (bolsa do ProAC nº30/2012). Ele parece mudar de ideia, diz para eu escrever outro livro e voltar.

    • Nas montanhas, incêndios em ângulos agudos. Sem hóspedes, fui dispensada por Wat e passei a tarde lendo Moby Dick no Relaxing Corner, suja de carvão e cimento. A ferida está branca e feia. As bactérias me amam. O livro parece impossível.

    • Tenho uma crise de choro depois de comer porco cru. “Miss mummy? Miss pappa?”. Foon me consola com um espetinho de porco. Escrever vencendo a hipocondria.

    • Trabalhar a terra dos outros. Lucidez da exaus-tão. Sem bebida, não há relaxamento muscular. Trabalho manual como ponto de partida da escrita. Minha tendinite piora se digito, melhora se trabalho. Escrever a partir do que fortalece.

    • Para viajar trabalhando em fazendas: World Wide Opportunities on Organic Farms.

    • O projeto está quase mais bonito que o livro. É para quem avaliar não conseguir dormir sem me dar a bolsa (ProAC no 31/2015).

    • “Same, same, but different”, se diz na Tailândia. Escrever é multiplicar a viagem, seguir os signos.

    • Júlia se esforça para não serrar tábuas tortas. “It’s because your heart is not straight”. A construção de um bangalô na terra de uma minoria étnica. “Criar novos valores é um processo em espiral, mais simples seria construir um bangalô”. Onde não falam sua língua, não há dissidência. Ou se está duplamente à margem, em Shangri-lá, como no caso das meninas. Um bangalô em babel. “Quero voltar e falar minha língua em nossa cama”. O prazer de ser em outra língua, o gosto das palavras impronunciáveis. A violência do turismo, o risco do encontro – “Ajudei a senhora Bôn a preparar o chá que vende na esquina, usando um conjunto idêntico ao dela”; “Esse menino, que viola outros meninos, pode tornar-me menino”.

    • Só agora percebo que há uma tensão entre arquitetura e fragmento. A busca de Júlia por uma forma é corrompida pela estrutura fragmentada do livro. A pulsão de unir opostos concomitante ao impulso de dispersão, multiplicação. O livro se constitui ao mesmo tempo como um ímpeto para a unidade e algo que a evita. Júlia e Joana não se poupam. O amor de Joana permite à Júlia atravessar as formas de si, tornar-se estrangeira, ao mesmo tempo lhe impõe a evasão, a ausência de limites.

    • O dêitico “assim” repete o sim.

    • A coesão no retorno de expressões que formam trilhas próprias como “língua” e “assombrar”.

    • “Nada deseja” (1ª parte), “Nada falta” (2ª parte), “Nada sobra” (3ª parte). Pode-se ler também “Tudo”.

    • “Só a mente tranquila espelha a totalidade”, me disse um mestre do Tao. O trabalho na fazenda de Sinchai é mais leve.

    • Como fazer sticky rice: deixe o arroz mergulhado em água da noite para o dia. Coloque o arroz numa cesta afunilada. Coloque a cesta sobre uma panela. A panela deve ter água tocando a ponta da cesta e algumas folhas de pandan. 10 min. Desenrole o arroz numa caixa de madeira. Faça grandes bolas enquanto ainda está quente e ponha no cesto de palha com tampa.

    • Na revisão final, acrescento as cenas de humor. Imito meu próprio estilo: não subordinar as orações, pensar as frases uma a uma, curtas, secas, é na estação seca que as meninas chegam.

    • Na revisão final, experimento passar o texto todo para o feminino, mas não é à toa que a palavra marceneira aparece só no final.

    • Eu e o Marcelo debatemos sobre o título. Para vencer uma discussão: masque tamarindo e cuspa, como uma oração a Buda. É salgado e o sal limpa, diz Sinchai.

    • O Germano vai fazer cem livros à mão. Descobriu um alfabeto karen para o projeto gráfico! Em busca do miolo perfeito. A serigrafia das guardas é deslumbrante. As nagas entrelaçadas – meio mulheres, meio bestas – em sua dança marcial, em seu amor tentacular, simétricas, fálicas e não fálicas, são um emblema do livro, um astrolábio, uma lemniscata.

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