bastidores suplemento

 

 

As pessoas não costumam olhar para os espaços digitais como um meio de produzir literatura capaz de movimentar as pessoas, conectar suas aspirações e entregar algum valor afetivo para elas. Emoções parecem ser complexas demais para o ambiente frio e mecanizado dos bytes.

Minha experiência com o mercado literário havia sido, até, bem frustrante. O mercado vive uma crise e as editoras que poderiam abrir as portas para receber novos autores não tinham mais aquela disposição para isso. Deparei-me com essa realidade, logo após um sucesso que me deixou muito esperançoso: em 2013, a empresa de tecnologia Intel escolheu um dos meus contos de ficção científica para representar o Brasil em uma antologia internacional, publicada em inglês. Mesmo assim, a jornada para me posicionar e ser reconhecido como autor estava exigindo um esforço sobre-humano. Tem um peso em ser um autor negro, as pessoas duvidam mais de quem não tem um nome estrangeiro, sabe-se do preterimento histórico que negros tem nas ciências e artes. O famoso filósofo Immanuel Kant tem uma afirmação que mostra esse pensamento racista em sua obra Observações sobre o sentimento do belo e do sublime (1764): “Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo. O senhor Hume desafia qualquer um a citar um único exemplo em que um negro tenha demonstrado talentos, e afirma: dentre os milhões de pretos que foram deportados de seus países, não obstante muitos deles terem sido postos em liberdade, não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já entre brancos, constantemente se arrojam aqueles que, saídos da plebe mais baixa, adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes. Tão essencial é a diferença entre essas duas raças humanas, que parece ser tão grande em relação às capacidades mentais quanto à diferença de cores.”

A sociedade ainda carrega o eurocentrismo que nos faz viver em um país tropical e manter alguns hábitos e visões que não correspondem à nossa realidade social e étnica. Isso é refletido no perfil médio dos autores: uma pesquisa da Universidade de Brasília (2017) revelou que 90% dos escritores publicados pelas grandes casas editoriais do nosso país são brancos, perfil que não muda desde 1965. Eu havia até desistido de entrar nesse meio, obviamente não me tornaria um escritor branco; mas entendo hoje que, se você não é o perfil padrão de um mercado, a sua jornada nesse ambiente também não deve ser.

Certo dia, sentei em meu sofá com o celular na mão e comecei a contar algumas histórias pelo Twitter. Foi despretensioso no começo, confesso. Sem nenhuma preparação, revisão. Apenas emoção, mas foi capaz de conectar algumas pessoas novas em meu perfil. Aquilo parecia promissor, então escolhi uma das histórias mais dramáticas que conhecia, o genocídio promovido na segunda metade do século XIX pelo rei Leopoldo II da Bélgica, no Congo. Então aconteceu, pela primeira vez, 36 horas de notificações intermitentes no meu celular, mais de 7,6 mil compartilhamentos e 14 mil likes que renderam 1 milhão de visualizações. Foi algo mais poderoso do que eu ou qualquer pessoa poderia prever. Entendi o Twitter como meu espaço, não apenas para dar vida aos meus textos, mas para enriquecer eles com a vida de outras pessoas.

Nas redes sociais as interações foram imediatas, é fácil perceber a intensidade das emoções que uma narrativa pode ocasionar quando as pessoas expressam através das menções e respostas diretas no meu perfil @savagefiction.

Foram essas experiências que mais me impulsionaram e até hoje são a luz das minhas ideias. Aqui tenho outra confissão de escritor que se embrenha nas redes sociais: houve medo daquilo ter sido um fenômeno isolado. Afinal, ninguém se torna autor por conta de uma thread - sequência encadeadas de tweets, que uso para construir pequenas narrativas. Então, comecei a me dedicar com mais propriedade para produzir a próxima história, fiz uma pesquisa mais elaborada, cruzei algumas fontes, recortei os trechos com maior potencial de impacto. Outro elemento entrou no meu trabalho durante essa segunda thread, a narrativa visual, passei a selecionar imagens e memes que possam contribuir para projetar minhas emoções no texto, complementando o entendimento de cada tuíte.

Mais uma vez, sucesso. Na verdade, foi até maior: a sequência sobre a Vênus Negra, Saartjie Baartman, virou notícia em um famoso site de cultura popular. Outros começaram a replicar e gerou-se uma expectativa sobre meu perfil, essa era a expectativa de que eu, enfim, havia alcançado o espaço que eu buscava na literatura tradicional.

A insegurança passou e diminuí a frequência de postagens – não para torná-las mais espaçadas, pelo contrário, para investir mais tempo em pesquisa e adicionar algumas revisões no meu processo. Pode parecer que é apenas uma postagem na rede social, mas as mensagens que passei a receber revelavam que o impacto das threads era cada vez mais sério. Professores, historiadores e todo tipo de gente queriam levar algumas das minhas pesquisas para sala de aula ou ambiente de trabalho. Foi quando aconteceu o inesperado: algumas editoras me procuraram para transformar todo esse trabalho em um livro.

Conversei com alguns editores, mas minha afinidade com a Panda Books foi quase que imediata. O livro está em processo de edição e nos próximos meses vou ter conseguido romper aquela barreira que ainda impede muitos autores jovens e negros de construir uma carreira no meio literário. As threads me levaram além, hoje eu colaboro com alguns veículos importantes como o Muito Interessante e The Intercept Brasil, também tenho uma coluna quinzenal na Vice Brasil, e para a revista Superinteressante.

Mas, claro, não deixo de trazer alguma história fantástica no meu perfil. Afinal, a gente tem que ser fiel a quem nos lê e nos constrói como autor: os leitores.

>> Alê Santos é escritor e colunista de revistas. 

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