Bastidores.ago18 Hana.Luzia

 

Abaixo, os bastidores da tradução de Que tempos são estes?, de Adrienne Rich, que a Editora Jabuticaba lança em setembro.

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A poeta e tradutora Rosmarie Waldrop, em uma entrevista para o pequeno jornal literário Fact-Simile, propõe pensarmos a tradução como uma atividade colaborativa, ao menos para quem traduz, se não também para quem escreve o texto original. Traduzir, ela diz, é uma oportunidade de tornar-se (co)autor de algo que você não poderia ter escrito sozinho. “Esta é a verdadeira razão para traduzirmos: você encontra um texto que admira – que você deseja ter escrito, mas que não poderia de maneira alguma tê-lo feito sozinho – então você o ‘escreve’ ao traduzi-lo.” Em 2018, depois de anos lendo sua poesia, resolvi finalmente traduzir uma pequena seleção de poemas da norte-americana Adrienne Rich (1929-2012), para a coleção de pequenos livros de poesia contemporânea em tradução das Edições Jabuticaba. O livro será lançado no mês que vem.

A poesia de Rich já deveria estar nas livrarias brasileiras há muito tempo, ainda assim o momento parece particularmente propício para publicarmos no país uma seleção dos seus poemas. Rich fala para o nosso tempo; para tempos de violência e retrocessos. Colocar hoje em circulação uma escritora que escolheu participar de forma ativa – como ativista e poeta – das lutas por direitos civis dos negros nos anos 1960 e 1970, do movimento pacifista contrário à guerra do Vietnã e da segunda onda feminista é uma maneira de historicizar desafios que continuam incompletos e prementes, como ficou ainda mais claro após o golpe de 2016. Não é preciso dar dados, basta abrir os jornais. Estes poemas, mais do que nunca, pertencem às nossas bibliotecas; são poemas que eu gostaria de ver compartilhados entre amigos e leitores de poesia e, por isso, eu escolhi traduzi-los.

Os versos de Rich exploram também outro aspecto da vida da poeta: a sua sexualidade. Ela é autora de poemas emblemáticos sobre o amor lésbico. Em alguns deles, incluídos no nosso volume, escreve tanto sobre suas companheiras quanto sobre o percurso até assumir sua sexualidade de forma pública. Fala do tempo que perdeu fingindo ser amizade o que era, de fato, amor profundo e entrega. Estes poemas, poemas líricos e de amor, também são poemas políticos que desafiam os retrocessos do nosso tempo e reforçam o que deveria ser óbvio: a diversidade é bem-vinda. Importante pensadora feminista, Rich batalhou para ampliar o que entendíamos por mulher. A experiência do feminino não se resumia a uma experiência branca, heterossexual e de classe média, como a retórica das primeiras feministas parecia indicar, mas era composta de uma grande gama de experiências de mundo: mulheres negras, mulheres latinas, mulheres pobres, homossexuais e bissexuais. Explorar de forma pública a sua própria sexualidade, neste contexto, também se revela uma tentativa de combater um sistema patriarcal e injusto que opera em diferentes níveis, moldando inclusive a percepção que temos de nós mesmos. Estes poemas, talvez pelo encontro delicado entre subjetividade e política, estão entre os mais fortes da poeta; testam os limites da própria literatura e nos convidam a mergulhar a fundo na nossa própria subjetividade, por mais complexas que elas sejam. São poemas transformadores.

Pensar a tradução como colaboração, como sugere Waldrop, também depende da nossa abertura à diferença. Traduzir é aproximar-se de um texto, e de uma experiência, de forma intensa e aberta. A capacidade de um tradutor, por isso, está fortemente ligada à sua capacidade de experimentar a alteridade da leitura, à sua capacidade de se aproximar do outro mesmo sendo diferente; isto é, de querer escrever um texto que você não poderia ter escrito sozinho. Rich também acreditava na alteridade da literatura. Além de poeta, foi professora de leitura e escrita para comunidades carentes na cidade de Nova York, tentando preparar seus alunos para ingressarem na universidade. As suas aulas eram centradas na leitura de textos literários, ponto de partida para discussões e exercícios feitos com os alunos. Parte desta escolha se dava pela crença da poeta de que literatura é um espaço onde se pode arriscar, mas também um espaço com potencial para ampliar mundos e sentidos. Um lugar onde diferenças podem ser negociadas, vivenciadas, ampliadas e discutidas: “pessoas ingressam na liberdade da língua através da leitura, antes mesmo de escreverem; as diferenças de tom, ritmo, vocabulário, intenção que encontramos durante nossos anos de leitura são, entre outras coisas, sugestivas de muitas maneiras diferentes de se existir”.

A tradução, não como atividade burocrática, mas como entrega, é uma atividade transformadora. O resultado para o leitor, claro, depende também de outras habilidades do tradutor: o seu domínio da língua, conhecimento da tradição, acerto do tom etc. Mas um bom tradutor que não se entregar ao que traduz dificilmente fará um bom trabalho; ou melhor, fará só um trabalho. E literatura nunca deveria ser só um trabalho. Espero que esta entrega, que minha vontade de me aproximar de Adrienne Rich, de me abrir às suas lutas e experiências transpareça na minha tradução; e que o leitor, seja ele quem for, também seja convidado a se aproximar desta poeta magnífica.

 

NOTAS

[nota 1] Rich, Adrienne. “Teaching Language in Open Admissions”, in On lies, secrets and silence: selected prose 1966-1978. Nova York: W. W. Norton, 1995. E-book.

 

* Marcelo Lotufo é editor, tradutor e doutor em Literatura Comparada (Brown University)

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