Bastidores mai.18 HanaLuzia

 

 

Uma construção narrativa, todo mundo sabe, se faz a partir de escolhas. Para escrever o Enquanto os dentes, tive que fazer as minhas. Há inúmeras possibilidades de leitura para cada uma dessas escolhas, incontáveis, ou possibilidades de interpretação (e é esse o grande barato da literatura), apresento algumas.

O primeiro elemento sobre o qual me debrucei foi o narrador. Precisava encontrar uma voz que conduzisse tudo. A questão era definir se seria o Antônio contando a sua própria história ou se faria mais sentido utilizar um narrador em terceira pessoa. Acabei optando por alguém que vai junto, que acompanha o protagonista por todo lugar (e, assim, talvez trazendo com ele o leitor), alguém que sempre esteve colado nesse protagonista, que sabe tudo que ele pensa e sente. Um narrador que observa e, apenas, relata. Ele até traz para nós algumas de suas opiniões, claro (afinal, temos acesso somente ao que ele escolhe para jogar uma luz em cima), mas não me interessava que ele fosse uma espécie de apresentador de programa-dramalhão-da-tevê.

(O livro toca em assuntos relevantes, e que, felizmente, estão sendo discutidos em diversas arenas contemporâneas: o lugar, ou lugares que os negros ocupam em nossa sociedade; a questão, ou questões relativas aos deficientes físicos; a pauta, ou pautas relacionadas à intolerância. Mas seriam todos esses assuntos pertinentes para o registro romance? A intenção era escapar do panfletário, fugir das soluções prontas (que nem existem e, se existissem, eu não saberia reconhecer, tenho certeza). Entendo que determinadas bandeiras, que pessoalmente são bandeiras minhas, precisam vir por cima de tudo, na comissão de frente, mas por baixo delas deve haver uma série de outras camadas, camadas que apontam para o que há de comum a todos, que apontam para as questões universais. Um pouco por isso escolhi não nomear nenhuma rua que aparece no Enquanto os dentes, nenhum bairro, nenhuma praça (ninguém percebe, mas o livro descreve lugares sem nomeá-los), porque talvez algo que ocorra no Rio também ocorra em Manaus, a Baía de Guanabara talvez caiba em outras baías. Um outro motivo, esse relacionado às questões internas do protagonista, é que Antônio se torna cadeirante em determinado momento de sua vida, mas ele sempre teve uma relação de movimento e contato com a cidade, e quer seguir com essa relação, só que agora a cidade é outra, seus pontos de referência mudaram. É diferente andar pelas calçadas, é diferente frequentar os lugares. Então, se o Antônio é outro e a cidade é outra, os lugares não podem ter o mesmo nome, já são outros lugares. Acredito que a ficção, por uma potência estética que ela tem, pelo uso de símbolos – que são símbolos, sim, mas nem por isso são menos reais –, a ficção possui um caráter altamente transformador da realidade. É minha aposta.). 

Certa vez, enquanto eu passava em frente ao terminal das barcas, na Praça XV, pensei: e se o cadeirante Antônio tivesse que cruzar a Baía para chegar ao seu destino? Fazia sentido, já que eu tinha me proposto a fazê-lo circular pela cidade usando diferentes tipos de transporte público, trabalhando uma realidade que é minha também, de todo dia, propondo uma investigação de como nos relacionamos com os centros urbanos de hoje, uma investigação que está sendo revista o tempo todo. Ainda tinha que o mar tem seus movimentos, suas instabilidades, e isso se encaixava muito bem no que eu procurava. O livro acontece no período de algumas horas de um dia no Rio de Janeiro, quando Antônio precisa (mas não quer de jeito nenhum) ir para um lugar determinado. É possível imaginar que ele tenha tentado se manter em movimento enquanto pôde, por isso talvez seja possível também que esse trajeto se dê de maneira truncada, avançando e recuando, avançando e recuando. Procurei traduzir essa vacilação na forma: o Enquanto os dentes é um livro contínuo, sem divisões em capítulos ou partes, numa tentativa de exprimir formalmente esse desejo de se manter em movimento, e essas vacilações, esse “vou, mas não quero”, de Antônio. Se num parágrafo ele está seguindo em frente (tomando contato com as coisas e com as pessoas com quem ele esbarra no caminho), no próximo pode ser que ele seja transportado para o passado (movido por gatilhos que encontra nessas mesmas coisas e nessas mesmas pessoas com quem ele esbarra), sem aviso, num fluxo próprio do pensamento mesmo. E os obstáculos físicos da cidade também espelham seus obstáculos emocionais, quando um rebaixamento no meio-fio está de um lado da calçada, facilitando a circulação, mas não está do outro, forçando um desvio improvisado.

Uma outra escolha, quem sabe relevante, é a da construção meio apagada dos personagens. Jogar muita luz, por exemplo, nas características físicas de um personagem ou de outro, às vezes faz cegar. Podia ser, em alguns casos, que esmiuçando muito eu acabasse direcionando demais a leitura. Eu sempre procuro optar por uma condução mais discreta, deixando umas sombras (que, sim, são partes integrantes da composição e das motivações de um personagem) para o leitor. O próprio Antônio, novamente para exemplificar, só fala em discurso direto uma única vez, a última palavra do livro. E foi muito nessa linha que cheguei àquele final, um final de interjeição, de dúvida, de um silêncio que talvez contraste com esses nossos tempos ruidosos.

 

* Carlos Eduardo Pereira é escritor e recentemente lançou seu primeiro livro, Enquanto os dentes  (Todavia).

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