letrux

 

 

 

“Já vai começar”, ouço alguém dizer e não posso identificar quem é, pois estou num estado de máxima suspensão, em que poderia tanto acertar um alvo que apenas atletas olímpicos conseguem ou esquecer quanto é qualquer número vezes zero. Em cinco minutos, entrarei no palco pela primeira vez e cantarei todas as músicas de Letrux em Noite de Climão.

Trechos das letras, que ainda julgo que errarei, povoam minha mente. Sinto vontade de ir ao banheiro. Sinto vontade de entrar no palco e falar “Que besteira tudo isso, hein, voltem para as suas casas”. Quero ir embora, quero ter um ataque de riso, depois de choro. Acho que esqueci meu nome. Não consigo mais respirar.
Meu avô tocava violão, meu pai tem um ótimo ouvido e brinca tanto no violão, quanto no piano, mas a vida é real e de viés, e o primeiro foi fazer direito e meu pai foi trabalhar em banco. Vê só que cilada o amor me armou: com seis anos, li um conto de Hans Christian Andersen e, quando acabei de ler O Rouxinol, estava tão eletrizada pela inundação de sensações, que me deitei e comecei a inventar uma música. Cantei o que sentia. Caiu um raio.

Quando era jovem, delirava ouvindo Janis Joplin e ali compreendi algo que levaria para vida toda: cantar também vem da barriga, eu sentia. Tem que rasgar qualquer coisa. A corda vocal, a cara, a cara dos outros, o céu. Não sei. Mas rasgar.

Com 19 anos, entrei na faculdade de Letras, jurando que o clima seria Sociedade dos Poetas Mortos. Ledo. Em um ano, estava completamente entediada e sentindo minha força criativa desaparecer. Minha mãe me matriculou na CAL, um curso de teatro aqui no Rio de Janeiro. O curso era longe da minha casa, cheguei atrasada. Para minha surpresa (e porque não, para minha confirmação cármica, para meu espanto com o cosmos), a primeira aula do primeiro dia, era Música. Entrei meio sem graça, que é minha maneira de chegar aos lugares com quase dois metros de altura. O professor gritou: “Você aí, atrasada, canta pra gente!”. Pensei em vomitar (a escatologia sempre acompanha meus amores também, a vida é curiosa), mas decidi que aquilo não teria volta. Cantei Oh Lord, won´t you buy me a Mercedes Benz?, da Janis. As pessoas fizeram qualquer cara que não lembro porque fiquei cega, surda, muda e imóvel. Só depois de um tempo aquilo foi bater. Ao longo do teatro, quis aprender a tocar violão. Na internet, mesmo. Sentei em frente ao computador e espiei tudo. Dó é assim, ré é assado. Fui aceitando, fazendo caretas e, quando sabia um punhado de acordes, não quis tocar Legião Urbana. Quis abrir os diários, meus pequenos lixos, meus pequenos tesouros e, em um mês, fiz 20 músicas. Péssimas, claro, mas comecei a fecundar um embrião, ali.

Tive muitos encontros musicais bonitos na vida, um deles se chama Letuce, onde junto a Lucas Vasconcellos, pude compor absolutamente tudo que estava sentindo e isso me valeu anos de análise e felicidade. Tive outras bandas, infinitas jam-sessions, passeei um bocado, inventei personas. Mas O Rouxinol nada de voar mais alto.

Em 2015, Arthur Braganti, meu amigo complementar e excelente pianista, começou a me instigar para eu criar algo meu, fora do Letuce. Em algum dia de divã-praia, ficamos rindo de alguma besteira com a palavra CLIMÃO. E começamos a nos deliciar em pensar que eu poderia ser “Letícia de Capricórnio em Noite de Climão”. Adorávamos os títulos das peças antigas de teatro, época de vedetes em que a preposição “em” era utilizada. O De Capricórnio caiu. Risos. Letrux pipocou. Já era meu apelido pós Letuce. Sendo Letícia, meus apelidos sempre terão esse radical: LET. To allow something to happen. Deixar acontecer. Deixo.


O climão nasceu no momento exato em que me reconheci errada. Estranha, inadequada. Sempre tentei a harmonia, a luz da beleza, mas uma hora o outro lado bateu forte. Deixei de querer ser quem não sou. Outro raio. No momento em que relaxei e as rugas apareceram fatais (porém belíssimas porque cada gargalhada que me faz ser sã e amar a vida está contida nesses traços na minha cara), senti o climão que é existir. Estar preparada para atravessar essa vida, que insiste em ser misteriosa e ao mesmo tempo capitalista. Como conciliar o sono e a paixão, a dor e a dança, o dinheiro e os sonhos? Clima superlativo. Convocamos Natália Carrera, Lourenço Vasconcellos e Thiago Rebello para adentrarem na névoa climática e tinha dia no estúdio em que eu chorava, que tirava a camisa pra cantar melhor, que passava mal de rir, de duvidar, de jurar. Éramos umas crianças brincando, mas eu criança consciente de que todo mundo morre em determinado momento, todo mundo mente, todo mundo é traído, todo mundo trai. Tenho natureza solar, mas achei forte observar minha sombra, meu clima pesado. Percebi que sou mais engraçada do que pensava. Aceito atravessar a noite. Pois pelo riso, eu volto. Em Noite de Climão, sou eu após anos de apneia, decidindo voltar à superfície e dividir o que eu vivi no mundo abissal, com todos que estão a fim do desvio.

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