3 Bastidores A

 

Ter nascido nos anos 1980 é como ter nascido num limbo — tarde demais para ter vivido a liberação sexual dos anos 1970, cedo ainda para ter a visão de mundo globalizada da geração que cresceu com a internet. Lembro que andava na rua com minha mãe e via um adesivo estranho num carro: um sinal de proibido, como os de trânsito, com uma tarja vermelha sobre um boneco curvado frente a outro. A mãe explicou, desconfortável, que aquilo dizia respeito a gays.

Na capa da Veja, Cazuza agonizava de AIDS. Foi a primeira pessoa real que pude identificar como gay. As únicas representações na mídia eram figuras caricatas, feitas para gerar riso e serem ridicularizadas em programas que hoje, quando reprisados, geram um saudosismo que confunde submissão com complacência — “naquela época, ninguém se ofendia!”. Ah, os anos oitenta! Não havia literatura Young Adult, mas sobrava O cortiço, O Ateneu ou O Bom-crioulo, com seu viés naturalista de “patologias sociais” do século anterior, que nenhum professor se interessava em contextualizar. Na aula de português da quinta série, a professora dizia que homossexuais eram doentes, opinião corroborada pela professora de ciências na outra semana. “Mas, e os antigos gregos?”, alguém perguntou. “Mais doentes ainda”. Não havia filosofia no currículo escolar.

Em A vida é bela, o menino pergunta ao pai o que são aquelas placas de “proibido judeus” nas lojas da Itália ocupada por nazistas. O pai inventa uma desculpa para não dizer o seu significado real: aqui nos odeiam.

O ponto de partida de uma ideia nunca é uma inspiração súbita e epifânica. O ritmo é lento, do acumulo gradual até atingir o ponto de saturação, e então precipitar. As coisas começam a se conectar: uma leitura empolgada dos livros de Ian Fleming; a obra de Allan Hollinghurst, as produções Ivory/Merchant, em especial Maurice; a contextualização geopolítica do Brasil nos livros do Laurentino Gomes, os jogos metalinguísticos de Areia nos dentes, do Antônio Xerxenesky; músicas de Thiago Petit e Yoann Limoine, o Woodkid; games da série Assassin’s creed. O catalisador surgiu na leitura de um trecho de As horas, de Michael Cunningham, quando um ator pergunta a um produtor se o público estaria pronto para aceitar um filme de ação com um protagonista gay.

Quando conheci Londres, em 2013, tive o mesmo deslumbramento caipira que Érico, o protagonista de Homens elegantes. Old Compton Street com suas bandeiras de arco-íris, livrarias megastores com sessões inteiras dedicadas à literatura gay, publicações de moda e cultura como a Attitude, disponíveis em qualquer banca. Naquele ano, um mês após lançar Quatro soldados, comecei a escrever.

E porque ópera é um elemento cênico importante da história, decidi que usaria não só a estrutura de uma, mas também o seu estilo. Música apoteótica, cenários grandiosos e efeitos especiais de palco fazem dela, por comparação, a bisavó dos blockbusters modernos do cinema. Não queria necessariamente emular um filme de ação, mas a manipulação emocional de um, numa narrativa que, de modo consciente, explorasse causas e efeitos da linguagem de massa. E, se uma trama de aventura precisa de um vilão, um bom vilão precisa de um plano — que, no caso, envolve justamente a manipulação emocional do público através de panfletos com discursos de ódio, que fundem textos da época com outros, publicados na imprensa brasileira recente. Que as duas coisas sejam intercambiáveis é parte do nosso pavor moderno. Ao final, a construção do antagonista foi natural: James Bond teve o satânico Dr. No; d’Artagnan teve o Conde de Rochefort; Sherlock Holmes teve o Prof. Moriarty. Érico Borges, herói de Homens elegantes, teria o desagradável Conde de Bolsonaro.

Quando os direitos para o cinema foram adquiridos, o livro ainda estava na sua primeira versão e sem editora definida. Trabalhando no texto por mais um ano, deparei-me com a possibilidade, para mim inédita, de que o texto agora tinha chance de ser convertido em audiovisual. Não só a estrutura em três atos fazia cada vez mais sentido, mas eu conseguia visualizar quais partes do texto existiam para mover a história e quais não se convertiam em imagens. Foi como ver o livro num daqueles pop-ups de anatomia, em que a cada lâmina de acetato separa o que é esqueleto do que são músculos. O resultado, ao menos para mim, foi o de produzir um texto bastante pessoal dentro de uma lógica formalista. Se algum dia acusarem o livro de ser entretenimento, vou tomar isso como elogio. A pior coisa seria ter escrito um livro chato.

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