julian

 

O texto a seguir integra o livro Ficcionais 2, da Cepe Editora, organizado por nosso editor, o jornalista Schneider Carpeggiani. Disponibilizamos esse escrito como inédito para os leitores entenderem melhor os processos que guiaram o escritor Julián Fuks durante a criação de Resistência (Companhia das Letras, 2015), um dos finalistas do Prêmio SP de Literatura.

 
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Não sei se tive sonhos intranquilos, sei que um dia acordei convertido num ser improvável, um ser inverossímil: um escritor sem nenhuma criatividade, um escritor acometido por uma profunda incapacidade de inventar. Algo em meu rosto refletido no espelho revelava que aquela mente era pura prostração e inanidade, tornara-se infértil, e nem com muito esforço do pensar se criariam nela figuras tangíveis, cenas improváveis, imagens incríveis, tramas engenhosas. Quando deixei de me inquietar com o espelho e me sentei à escrivaninha, porque era tempo de trabalhar, o que me restava, percebi com aflição, era matéria bastante esquálida, resquícios indigentes da realidade, vagas noções de acontecimentos passados, a cada dia mais inacessíveis, mais inassimiláveis, lembranças ou retalhos de lembranças que eu sabia nada confiáveis.

Eu já não era capaz, como alguma vez fora, de idear figuras desconhecidas e lhes dar um nome, de fazer o que alguém chamaria de criar personagens. Esse ato, antes simples e prazeroso, mostrava-se nesse instante contagiado por algum sem sentido, alardeando com indiscrição sua extrema arbitrariedade. Eu já não era capaz de mentir, já não conseguia alinhavar sequências falsas, urdir em palavras fatos não acontecidos. Me via, em vez disso, tomado por uma estranha literalidade, me via a vasculhar aqueles resíduos de mundo em busca de alguma boa história, me via apegado, contra a minha vontade, ciente de quão ingênuo aquilo me tornava, me via apegado à verdade – essa ilusão que, apesar de toda consciência, insiste em se perpetuar entre nós.

Por uma necessidade de continuar a escrever, talvez, ou por um senso de responsabilidade, acreditei ter encontrado alguma verdade na minha própria vida, na minha própria história. Minto, perdão: acreditei ter encontrado alguma verdade na vida de um ser que me era muito próximo, na vida do meu irmão. Meu irmão foi adotado em 1976, na Argentina, e há nessa confluência de tempo e espaço algo de sórdido: era um tempo de repressões atrozes, era um espaço dominado pela injustiça. Nesse tempo e nesse país, ser adotado não era algo simples, como talvez nunca seja: ser adotado, se revelaria mais tarde, era adotar uma incerteza, temer ter sido sequestrado por militares, recear que alguém esteja a procurá-lo, incansavelmente, há algumas décadas. Essa é a história que eu quis contar, quando percebi que a invenção não me acudiria, quando senti que a ficção me desertava. Mas, para contar a história do meu irmão, tinha que contar também a história dos meus pais, argentinos perseguidos pelo regime militar, militantes que se exilaram em São Paulo. E, para contar a história dos três, tinha que explicar também de onde surgia aquela voz que narrava, tinha que me identificar – por mais indefinível que fosse essa identidade – tinha que contar algo da minha própria história.

Minhas páginas então se povoaram de seres sem nome: meu irmão, minha irmã, meu pai, minha mãe, eu. Minhas páginas se povoaram de fatos sabidos há muito tempo, histórias contadas à mesa em jantares familiares, histórias distorcidas pelo humor do momento, pela escolha imprecisa das palavras, pela falência costumeira da memória. Aos pontos finais mais comuns em narrativas sucederam as interrogações. À narração de fatos precisos, episódios límpidos, bem-constituídos no tempo e no espaço, substituíram as impressões vagas, suposições e suspeitas que me conduziam sempre à reflexão, nunca à fábula clara. Mesmo as minhas páginas mais assertivas se encheram assim de vacilações, dúvidas, perplexidades, irresoluções. Disso passou a se fazer, para mim, a história, história muito pessoal, íntima, que só por efeito do destino e da política se permeia da história maior de uma sociedade, da história de dois países.

Não demorei muito a perceber, porém, entregue às agruras sempre presentes na constituição de um texto, às infinitas inconveniências do exercício narrativo, às hesitações inevitáveis, aos muitos sacrifícios, à dura batalha diária com as palavras, a memória, a experiência, não demorei muito a perceber que aquela escrita não se distinguia em quase nada de nenhuma escrita a que eu me dedicara antes. Invenção e memória, fabulação e história, ficção e real se indiferenciavam. Não demorei muito a entender que uma coisa e outra eram a mesma coisa, que eu só podia inventar ao relembrar tantos momentos, que eu inventava a cada momento como agora ainda invento, e então pude voltar a me olhar no espelho e ver que em meu rosto se mantinham os mesmos traços de sempre.

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