Bastidores ilustração

Os escritores de ficção sofrem de muitos males. A solidão e o pouco dinheiro são os mais conhecidos, mas há um bem pior. Nós nos dessensibilizamos. O senso comum imagina que é justo o contrário: quanto mais pensamos nos homens e na humanidade, mais sensíveis nos tornamos, porém não é assim. A cada narrativa imaginada, a gente fica um pouquinho mais anestesiado. Já encenamos todo tipo de barbaridade, já previmos os maiores desastres, encarnamos as pessoas mais vis. E o mundo tem o seu jeitinho de nos surpreender com coisas ainda piores. Dessensibilizar-se é um mecanismo de defesa natural contra a matéria-prima com a qual trabalhamos. Os ficcionistas deviam ganhar adicional de insalubridade.

Mas, claro, é impossível escrever qualquer coisa que preste quando se está anestesiado. No fundo, nossa tarefa é mesmo combater a dessensibilização, porque os indiferentes não veem beleza em nada. O amor dos homens avulsos é a minha tentativa de vencer, mais uma vez e sempre, a indiferença.

Há maneiras e maneiras de se opor à indiferença: pela raiva, pela ironia, pela teoria... N’O amor dos homens avulsos, decidi que o combate seria pela ternura. Eu mesmo, Victor, precisava de um respiro após muita raiva, ironia e teoria. O sujeito não diz “sou escritor” impunemente. Enquanto a maioria de nós trabalha para viver, eu sou para escrever. Se não fosse escritor, não seria ninguém. Nem Victor, nem Heringer, nem nada.

Então, rebelado contra os inimigos da ternura, eu me vi cheio de coração, transbordante de coração, com um superávit cardiológico que só não me matou porque ainda sou jovem. É isso que quero dizer quando digo, num poema que gosto de repetir, que “o meu amor está solto no mundo/ violento, semicego e ferido no ombro”. 

O amor dos homens avulsos é o eletrocardiograma dessa ternura. Desde os seus abismos até os alpes mais rarefeitos.

Lá está o subúrbio carioca da minha infância, que é quase todo inventado. Nasci no Rio Comprido e cresci deslocado pelo mundo. Se tivesse passado a vida no Encantado ou no Queím, talvez nem achasse tão bonito. Tudo o que sei dos subúrbios é mitologia familiar. O jogo do bicho como exercício de esperança, o provincianismo quase benévolo, a macumba cultural, os caboclos e pretos velhos que baixam para fazer profeciazinhas, dar conselhos práticos e curar espinguela. E o calor. O calor eu detesto.

Lá estão os pavores máximos. Lá está o ódio. O trauma. A brutalidade. As dores do crescimento. Os amores proibidos, mas tão naturais. A deselegância do mundo. A maldita indiferença. Mas está também uma espécie de redenção. E estão vocês.

Eu queria que O amor dos homens avulsos fosse de todo mundo. Que, de alguma maneira, os leitores pudessem fazer parte do livro, para que todos (eu e vocês) nos tornássemos menos avulsos e desmentíssemos o título.

Então pedi, publicamente. Abri um site e pedi ajuda para escrever meu romance. Perguntei qual era o nome do primeiro amor da vida dos leitores, e vocês, para a minha surpresa, responderam. Os nomes foram transcritos no livro. Levarei essa lista comigo para sempre, como o instantâneo de um tempo no qual realmente acreditávamos no amor. Se eu morrer hoje, esta é uma coisa boa que fiz.

O restante foi trabalho, escrita, reescrita, fotografia, edição de imagens, direito de imagem, revisão, conversas com o Leandro, com a Marianna... O ano de 2015 foi difícil para todos – durante esse abismo, O amor dos homens avulsos ficou lá quietinho esperando ser publicado. Foi minha tábua de salvação. Nos momentos mais duros, lembrei que esse livro existia, e esperei. Será lançado mais de um ano depois de vocês terem enviado os nomes dos seus amores. Imagino que a vida de vocês tenha mudado. A minha também.

Mas algo permanece. Algo levamos conosco. Nós acordamos de um sono muito longo, muito cansativo, e nos perguntamos “Onde alocar tanta ternura, meu Deus?”. Não tenho uma resposta, mas tenho uma historinha.

Quando eu era menino, já queria ser escritor, mas tinha dúvidas. Dúvidas práticas. Aí pedi para uma tia baixar um caboclo (quase todo mundo baixa santo lá em casa, eu também). Queria conversar com a entidade e perguntar se eu daria certo escrevendo, se não ia morrer de fome nem nada, se as pessoas iam gostar. Sabe o que o caboclo respondeu? “A gente tem que fazer o que gosta, meusim filho.”

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