Bastidores FEV16

Nunca li David Foster Wallace. Lembro de quando Hermano apareceu com Infinite jest debaixo do braço, aquela capa horrorosa à guisa de souvenir, outro, duas malas, mais um réveillon em Nova York com os pais. Avancei com On the road atochado no sovaco da esquerda. Nove anos se passaram e eu sempre de carona num sofá com os beats. Hermano, enamorado por DFW (mais Eggers, Franzen, Easton Ellis). Não falava de outra coisa. Embora os tópicos me soassem familiares, foi inevitável: criei birra. Nove anos se passaram antes que eu caísse em tentação e, folheando a Piauí num frio de cerâmica, acabei lendo o trecho de This is water, publicado na edição do mês seguinte ao suicídio. Quarenta e seis anos. Eu, 27.

Que tempos, aqueles. Líquidos de verdade. Tempos que foram se cristalizando sobre minha cabeça, uma iCloud negra que me seguia aonde quer que eu fosse, granizando considerações, chanfrando opiniões cada vez mais absurdas na razão, um processo de fato inconsciente. Eu era um cara criado no século 20, afinal. Não precisava do DFW me dizendo como era duro viver numa sociedade hipermoderna em que a dúvida da ironia paira até sobre um how do you do? corriqueiro. Percebe-se, portanto, que, mesmo desdenhando a obra do moço, não resistia aos “periféricos”. A birra, no fundo, era empatia. E não queria me deixar influenciar pela birra alheia. Nova desculpa pra banir de vez DFW da estante e fenomenologicamente permitir que minha história se escrevesse nas nuvens. Uma vez pronta, faltava só botar no papel.

Na primeira oportunidade, peguei duzentos quilômetros de estrada até Salinas, no litoral paraense, cidade fantasma quando fora de época, onde tinha de andar mil e quinhentos metros pra comprar cigarro, e passei duas semanas escrevendo os treze primeiros capítulos. Contato quase nulo com os nativos, fora os alunos da banda marcial evangélica ensaiando britanicamente às 17h todas as tardes na casa em frente, ocasiões em que aproveitava pra dormir (em turnos de 3h intercalados por 9h de escrita). Éramos os cigarros, cerveja, um panelão de arroz com feijão e carne enlatada numa só gororoba requentada dia após dia, a sacada, os carapanãs, o mar e eu. Finda a “folga”, retornei ao “trabalho”. Quatro meses depois, o patrão faliu e, sem emprego, percorri três mil quilômetros até o Rio, onde me tranquei num quartinho de empregada em Copacabana por mais duas semanas e escrevi os quatorze capítulos restantes. Isso, em 2009. No ano seguinte, tentei a primeira revisão. Nascia o “capítulo paulista”, como batizei o décimo primeiro após reescrever metade. E aí: bloqueio. Não conseguia passar da vigésima página a cada nova tentativa de revisar o texto. O cowboy do Guilherme Pilla, a essa altura, já estava desenhado. Um livro com rosto, desmiolado.

Foi quando li as “Cinco notas sobre a franqueza” do Daniel Pellizzari. “A sinceridade é um caminho de duas vias”, assim começava. Foi quando passei a me dar conta de e aceitar quem era Carlo Kaddish, ou melhor: o que de fato eu compartilhava com Kaddish, por pior que fosse. Um mal-estar doméstico bem bernhardiano. A consciência em formação ao longo de quatro anos me distanciando, afundado num sofá de frente pra TV. Criou limo. Do limo, deslizei. Sem mais nem porquê, dormi, acordei, dei bom dia ao espelho e botei o pé na estrada. Outros sete mil quilômetros ao volante de Belém a Buenos Aires. Sem estepe, nem extintor, quanto menos carta verde. Num Chery QQ 1.1 (18km/l, média de 123km/h, máxima de 154km/h) que só foi derrapar a 600km do destino final. Apelei pro Fernet. Em dez dias, saiu a revisão no terraço de um P.H. em San Telmo. Primeiro capítulo 70% reescrito.

Irônico pensar que precisei percorrer quase vinte mil quilômetros no total pra conseguir terminar um livro cujo protagonista não sai do lugar, sempre preso a uma tela, a uma teia. Talvez porque, enquanto autor, eu tenha precisado escapar desse personagem pra criar um universo paralelo, quiçá expandido, onde eu pudesse ir de encontro a mim mesmo, deixando o personagem livre pra escolher entre seguir meu rastro ou trilhar seu próprio caminho.

Mas nada disso importa. Importa é que, quando enfim publiquei o Eu, cowboy, seis anos após escrevê-lo, me senti autorizado a deixar os beats de lado e ler DFW. Como bom tautista, porém, resolvi ver o filme antes, um aperitivo. E bum:

“There’s nothing more grotesque than somebody going around saying ‘I’m a writer. I’m a writer. I’m a writer’ (...) To have written a book about how seductive image is, how easy it is to get seduced off of any meaningful path because of the way our culture is now. What if I become a parody of that very thing?”

Estalou. Eu, juiz no banco dos réus. A consciência da paródia não poderia ter surgido senão como consequência do processo (“Não consegui passar da terceira página”, disse a leitora número um após a penúltima revisão). O que teria sido posto em xeque caso tivesse lido Although of course you end up becoming yourself por considerar o livro de David Lipsky como mais um “periférico”. Não é. Nem foi cinema. Sentado no mesmo sofá, acabei lendo David Foster Wallace pela primeira vez na TV. Nunca é o mesmo sofá.

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