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Comecei a escrever Um dia toparei comigo no verão de 2012, enquanto revisava outro romance, Desnorteio. Na época, costumava frequentar uma oficina de encadernação, onde uma senhora restaurava livros antigos para mim. Era um recanto esquecido de São Paulo, na rua Machado de Assis, e eu considerava aquele endereço um local secreto, só meu, muito embora houvesse sempre um legítimo entra e sai no balcão de expediente. Uma vez por semana, pelo menos, me debruçava sobre aquele balcão com um livro para costurar ou para colocar uma guarda e, assim, emendava um pouco de conversa fiada no meio da tarde. Foi numa dessas ocasiões que dona Helena me sugeriu a encomenda de um álbum de viagem. Ela prometeu fazer tudo às antigas, com miolo costurado, capa dura e cantoneiras para as imagens. Seria uma aquisição como outra qualquer, não fosse o tom desinteressado com o qual ela se dirigiu a mim, os olhinhos fechados como se estivesse a profetizar: “Por que você não escreve legendas para as fotografias?”

Encontrava-me exaurida com o término de Desnorteio e não queria de modo algum iniciar outro livro. Escrever legendas parecia-me um passatempo ingênuo e relaxante. Aceitei.

Entretanto, confesso que me traí. Na semana seguinte já estava com uma crônica sobre a mesa, preparando-me para recortar frases para as legendas. Mas a crônica se estendeu.

Mudei de ideia. Faria um diário. Sim, um diário, como minha mãe não havia me permitido na infância, ao vasculhar gavetas para em seguida propor perguntas com respostas já incluídas.

Foi assim que me detive na atividade de escrever um diário de viagem durante meses. No entanto, quando me dei conta, já não lembrava exatamente dos lugares que havia conhecido, das pessoas com quem interagi. A memória falhava. A invenção do que vivi sobressaía. Os vestígios eram, sobremaneira, algo com o que eu teria de lidar com mais acuidade, caso pretendesse voltar aos fatos. Mas já me era impossível reviver a verdade. Foi quando surgiu a oportunidade de inscrever o trabalho para um programa de ação cultural do Estado.

Revi minhas anotações e conjecturei. Poderia escrever um romance que mesclasse as paisagens visitadas aos livros que haviam me impressionado durante a vida ou, simplesmente, que tivessem para mim uma relação afetiva com aqueles lugares. Suponho que fui bem-sucedida no meu intento, pois ganhei uma das bolsas disponibilizadas. Mas a partir desse momento, trabalhei contra o tempo. Teria dez meses para finalizar o projeto. E assim o fiz. Mas ao final ainda não estava satisfeita.
Um dia toparei comigo permaneceu três meses descansando sobre o fundo da gaveta, quando houve uma reviravolta na minha vida. Estávamos no final de 2013, outro verão despontando, e chega a notícia do Prêmio São Paulo de Literatura para Desnorteio. Naquele momento, o mercado editorial interessava-se por um novo livro de minha autoria. E por sorte eu tinha o romance pronto. Assinei contrato com uma editora carioca, a Foz, mas o texto ainda não me agradava. A essa altura, as pessoas me questionavam se eu não estaria neurótica devido à cobrança sobre o segundo livro. E eu respondia que não costumo escrever de modo descompromissado. Ora, sem compromisso faço aulas de ginástica ou lavo meu tênis. Porém, minha insatisfação foi salva por uma pergunta aparentemente feita ao acaso.

Qual a história que você não contou aqui?

Isa, minha editora, soltou a pergunta durante um encontro, enquanto fazia o gesto de folhear os originais e não olhar pra mim. Suspeito que ela soubesse o poder daquelas palavras, mas disfarçou para que eu me sentisse livre para mentir, se fosse o caso. Mas não era.

Sem dúvida, aquelas viagens todas, as fotografias, tudo, tudo era para contar e ao mesmo tempo esconder.

Meu pai havia morrido de câncer e por um longo tempo carreguei a culpa de ter-lhe abreviado a vida. Ou talvez de lhe ter consentido a chance de não prolongá-la demasiado. Essa questão, há muito debaixo do tapete, emergia nas linhas da trajetória da protagonista. E eu deveria revelá-la, de uma vez por todas.

A partir desse momento elaborei a trama da ficção que gostaria de contar, a narradora ganhou um timbre afetado talvez, alguns episódios foram inventados, e outros, reais, como histórias que ouvi ao longo da vida, foram incorporados ao texto. Esse processo durou mais outro ano e, quando percebi, já era verão novamente. Porém, a revisão, com os últimos retoques, somente seria concluída no outono. Havia uma coincidência um tanto bucólica e irônica entre aquela estação do ano e a primeira frase do livro: “Hoje o primeiro velhinho morreu. E eu começo a envelhecer”. No entanto, da janela localizada alguns palmos acima da mesa onde escrevo, avisto diariamente uma árvore. No inverno, para meu espanto, suas folhas ainda não haviam caído. Ademais, Um dia toparei comigo será lançado em plena primavera, e dona Helena considera outubro um mês auspicioso.

 

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