MachadodeAssis ProjetoMachadodeAssis.2019

 

Há infinitos acessos possíveis para a obra de Machado de Assis (1839-1908). Hoje (21), data que marca os 180 anos de seu nascimento, escolhemos três contos em que o autor investiga e atordoa o “ser brasileiro” com altas doses de sarcasmo e sutileza. As histórias escolhidas foram escritas há mais de 100 anos, mas tematicamente ainda dizem muito sobre o país dos dias que correm.
 

A sereníssima República – Vivemos um momento em que a discussão sobre o que é a República torna-se fundamental. Machado escreveu A sereníssima República em 1892, alguns anos anos do golpe de estado que colocou fim ao regime monárquico. Sobre esse conto a historiadora Heloisa Murgel Starling (UFMG) escreveu para o Pernambuco: “A sereníssima República é uma sátira feroz da sociedade brasileira tal como Machado a percebia. Ao final do século XIX, o significado de 'República' foi remodelado entre nós a partir de duas pontas. A primeira, por força do conteúdo produzido pelas novíssimas doutrinas em voga desde a década de 1860: positivismo, evolucionismo, biologismo. Um típico erudito da época, como o cônego Vargas, não cultuava a ciência à-toa em sua chácara suburbana, com fé quase sagrada. Ele simplesmente enxergava na ideia de “República” uma espécie de ferramenta política capaz de fornecer aos brasileiros a confiança no potencial da ciência para equacionar os problemas sociais e políticos do país.”

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Teoria do medalhão – O conto é um diálogo entre pai e filho erguido como manual de sobrevivência numa sociedade em que a aparência é moeda maior. Sobre ele, o sociólogo André Botelho (UFRJ) escreveu no posfácio da nova edição de Uma literatura nos trópicos, de Silviano Santiago, relançada há pouco pelo Selo Literário Suplemento Pernambuco: “Em Teoria do medalhão (1882) Machado de Assis já deixava claro o prestígio simbólico e os proveitos objetivos desfrutados pelos portadores sociais do bacharelismo. Nesse conto, um pai experiente e zeloso orienta o filho recém-chegado à maioridade, Janjão, a cultivar o habitus de 'medalhão', o qual, independente da atividade profissional que viesse a escolher, apresentaria a vantagem incontestável de não deixá-lo ser 'afligido de ideias próprias', garantindo, assim, sua posição entre as correntes ideológicas em disputa pela hegemonia política.”

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O alienista – Esse é um dos contos mais famosos de Machado. A “Casa Verde” na cidade fluminense de Itaguaí é o local para onde são levados todos aqueles que demonstram algum mínimo desvio contra as regras do que deveria ser a sanidade, segundo o todo-poderoso Dr. Bacamarte. Com seus cidadãos apavorados com a possibilidade da catalogação de loucura, Itaguaí acaba se tornando então um caldeirão de intrigas. O alienista talvez seja hoje a grande alegoria de um país rachado por tags como “esquerdopata” e “direitistas”, onde ninguém mais parece se escutar.

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* A imagem que abre este texto é do Projeto Machado de Assis Real, da Faculdade Zumbi dos Palmares e da agência Grey Brasil. O projeto coloriu uma conhecida fotografia do autor para enfatizar sua negritude e expor o racismo presente na memória imagética de Machado. Conheça o projeto clicando aqui

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