Reuben resenhajun19 Beatriz Sano Divulgacao

 

O artista que assina Um pensamento estranho atravessa o meu crânio e desce até as entranhas, Reuben, inscreve o conjunto singular de textos que forma o livro no universo do provisório e da transformação – “a verdade mutante de todas as coisas” (p. 14). Há nele, informando tantas imagens e assuntos, o elogio de tudo o que é impermanente: em primeiro lugar, o movimento (a passagem gradual de um estado a outro, o deslocamento paciente e estudado, e também a fuga). Tudo o que importa para a vida, o livro parece afirmar, sai de si, muda de lugar, se refaz: “Movimentar-se ajuda a dar leveza: abrir espaço” (p. 10). E é de vida, de vários tipos de vida (a do próprio poeta em particular, mas não só), de suas circunstâncias e possibilidades moventes, que esse livro vai tratar. Hierarquias se desfazem, limites são postos em xeque, as palavras e os objetos trocam de função e significado; tudo pode se deslocar. Até o vinho, lembra o autor a partir do poeta persa Rumi, não apenas produz o efeito que comumente se espera: ele “se embriaga conosco e não o contrário” (p. 10), quando as uvas (a Natureza) se modificam e, por isso, ganham intensidade, fulguram.

Num segundo momento, está no centro dos textos o corpo, “abismo lúcido” (p. 7) para o poeta – território perecível do sagrado e das sensações, palco de um saber selvagem e decisivo, ponto de fermentação para “uma centelha de rebeldia instintiva” (p. 9), que coloca toda a existência que se entrega ao seu controle (do corpo) à beira do desvio e do esplendor. Gaia ciência, afinal, parece ser o horizonte do livro: um modo de pensar que, antes de tudo, encontra seu sentido e sua potência na matéria bruta da existência física, na carne inquieta e viva da terra, no interior desconhecido das próprias vísceras. O pensamento se aloja nas entranhas, o amor é uma glândula: inseparáveis, espírito e matéria são uma coisa só, e de nenhum modo estão fixos no espaço, invariáveis: ao contrário, giram em ebulição constante, às vezes franca contradição.

Não se fixar num ponto, não se ater a uma linguagem só ou a um único referencial é manter-se livre, atento e insubmisso ao mesmo tempo: ao recusar os significados prontos, os valores pré-determinados, o artista que se reconhece no precário, como Reuben, deve poder experimentar permanentemente várias possibilidades, expressar-se e criar a partir de todas elas: caminhar por entre as formas e poder tocá-las, sem deixar-se apreender, em definitivo, por nenhuma. O “autêntico escritor é quem rechaça o servilismo”, afirma o poeta, nessa direção, em diálogo com Georges Bataille; é aquele que ultrapassa toda noção de “dívida ou disciplina” (p. 23), entregando-se a exercícios de escrita marcados pela deriva – da palavra e do pensamento, indistintamente.

Daí os textos que compõem o volume terem sido feitos entre o pequeno poema em prosa, a autobiografia, o ensaio breve e o aforismo, permanecendo em aberto, indecidíveis e inclassificáveis entre a poesia e o fragmento de extração filosófica. A porosidade da prosa inventiva, por definição uma forma em metamorfose, é essencial ao livro, pois traduz, no plano específico da composição, elementos recorrentes que concorrem para delinear a tênue estrutura sequencial (quase se pode dizer narrativa) sobre a qual se apoia o traço da escrita e a trama conceitual que nela cresce e se expõe. Daí também a presença incontornável do eu, do criador que se mistura e afirma em meio às reflexões que se sucedem no texto; o investimento autobiográfico era indispensável ao livro, bem como o despojamento que marca a linguagem e a abordagem de temas complexos. A mistura de cenas do cotidiano e de observações inusuais sobre arte e ética, sobre a percepção e os afetos, desdobra novas camadas do projeto heterogêneo que singulariza os poemas, sua natureza compósita. No limite, tudo neles é invenção e descoberta: o autor nos oferece um tipo muito particular de narrativa de si e de poética, segundo a qual o lugar da poesia e da arte é o cosmos, um espaço de totalidade infinito, ao passo que o artista deve ser um corpo em disponibilidade, expandido numa prática de liberdade extrema, aberto à possibilidade de reconexão física, num sentido arcaico e místico, com a carnalidade do mundo: “a obra [é] um índice da simpatia entre o artista e a matéria” (p. 24).

Os flashes do passado que emergem na superfície do presente textual apontam para a revelação, sempre parcial, dos elementos que, ao longo da vida, indicavam a mudança, a inconstância, a necessária entrega ao desconhecido que foram se afirmando como a única ética possível para o sujeito da escrita. Enquanto vai desvelando os dados de uma existência e de uma poética móveis, feitas da atividade concentrada da atenção extática e da prática dispersiva de um caminhar insistente, o poeta trata de lembrar também como o seu próprio nome, a assinatura que imprime nos trabalhos que faz, variou constantemente e ainda permanece em questão – como que a indicar a multiplicidade de vozes que o atravessa, a experiência da alteridade que lhe é fundamental. Cavalodada, um desses nomes, é, segundo o autor, “uma personagem semiótica” (REUBEN, 2018, p. 15) misturando em seu arranjo a figura mística da incorporação de outros espíritos e consciências (o cavalo), do corpo que é, em certos rituais religiosos, passagem e receptáculo, ao elemento aleatório e disruptivo do dadaísmo, da sua junção desestabilizadora de diferentes linguagens e atitudes criativas, postas em contínua suspeição crítica.

A recusa de uma identidade estável, burguesa e tradicional, que essa assinatura anômala sugere, mesmo que agora ela não seja mais repetida, guarda a chave de um procedimento poético e de uma concepção da linguagem e das possibilidades políticas da vida. O eu, como o texto ou o mundo, nunca é o mesmo, permanentemente igual a si; seria antes um “rádio onívoro girando solto entre todas as emissões” (p. 15), espécie de força descontínua sempre nova e distinta. Mais do que uma ideia definida e que se conhece de antemão, o eu é uma invenção incompleta, sempre por terminar, cenário por onde desfilam inúmeras máscaras. Ficção em curso, o sujeito (e o texto que produz) procuram não repetir ou confirmar algo que já estava antes dado. Conforme o próprio autor afirmou em outro lugar1, a poética que desenvolve e o nome que carrega são transitórios, muitos outros ainda surgirão para se desfazer, num jogo de acúmulo e apagamento, na medida em que nenhum deles se subtrai por completo, mas se projeta sobre os outros, em multiplicação que pode acolher igualmente o olhar externo, a palavra do outro.

Até o nome próprio, civil, ou parte dele, Reuben da Rocha, com que diferentes trabalhos do autor foram assinados, foi ofertado por outras pessoas – como sempre se dá, em alguma medida, com os nomes: ao mesmo tempo vinha do pai, como dom e herança, e de uma amiga (também poeta), anos depois, que sugeriu esse arranjo semântico-sonoro particular, utilizado pelo poeta, conforme assinala, como “emblema ou até mesmo como escudo” (p. 41) – mas nunca como cristalização de uma verdade essencial. Próximo a um gesto ritual de batismo e iniciação, o nome postulado traz junto a si a memória de seus significados e das associações do sangue, bem como ajuda a afirmar uma narrativa de origem específica, muito embora não seja unívoca ou linear. Ao autor caberá acolher essa palavra dada como um tipo qualquer de revelação provisória, capaz de iluminar partes do percurso criativo, mas não destinada à fixação completa, à transformação numa espécie de trademark. Ao contrário, a redução bastante drástica operada agora, no volume de 2018, a configuração do nome único, substantivo solitário a indicar a persona que se reinventa no coração do livro, indica mais um estágio da metamorfose, mais um passo dentro da experiência inquietante da linguagem empreendido pelo poeta. Movimento não-teleológico, isto é, que não tem um sentido e um ponto de chegada definidos de antemão, as mudanças de assinatura que o artista vai realizando apontam mais para o desejo de exteriorização do que para o retorno a uma palavra-verdade, a um nome oculto que o sujeito da escrita, a cada novo passo, estaria prestes a revelar.

Esse gesto de despossessão e saída de si, que renuncia à continuidade de um nome para abraçar “as incertezas que vicejam no chão” (p. 42), soa às vezes, para o leitor talvez desatento dos fragmentos poéticos de Um pensamento estranho atravessa o meu crânio e desce até as entranhas, como uma forma qualquer de contradição, talvez até de impostura. Pois se trata de um texto marcadamente autobiográfico que, no entanto, traz em seu bojo a negação da ideia de um eu que se instale confortavelmente nos limites da subjetividade, que se feche no idêntico, no mesmo, num processo de individuação convencional e conservador. Reuben deflagra, nos pequenos ensaios-poemas que compõe, uma operação paradoxal de grande significado político, especialmente se compreendida à luz do tempo presente, tempo de individualidades e identidades marcadas, fechadas sobre si, irredutíveis.

O poeta constrói, em perspectiva lacunar, um texto-constelação em torno de si e de sua poética, formado por estilhaços de imagens e ideias que se ajustam umas às outras sem se completar em totalidade monolítica. Esse texto, ao invés de confirmar uma identidade (em sentido necessariamente duplo: individual e coletivo, ou ainda narcísico e gregário) procura tornar fluidos os limites entre o eu e o mundo, aponta para várias origens possíveis e simultâneas, desfazendo, assim, qualquer ideal de pureza. As armadilhas que o artista quer evitar nessa autobiografia heterodoxa e disjuntiva, passam pelas noções de ipseidade e imunidade. Sabendo-se outro, afirmando-se pelo desvio e pelo contágio, ele busca colocar-se criticamente diante do tempo presente, marcando posição em questões agora explosivas. Se os agenciamentos coletivos do discurso identitário hoje se sobrepõem às vozes individuais, homogeneizando-as de algum modo, Reuben assinala com firmeza a sua singularidade difícil. Se, por outro lado, o poder central assevera, amparado em amplas doses de pensamento autoritário e excludente, a instrumentalização dos corpos, a funcionalização da linguagem e a supressão do dissenso, o artista vai oferecer, em seus poemas-ensaios, contraponto: a resistência ao trabalho quantificado e o elogio da contemplação; o desejo de opacidade e comprometimento, uma vez que “a fala mais neutra é a mais linear e a mais imunda, como ensina qualquer deputado ou similares no dia a dia da sabotagem, retórica e extorsão” (p. 32); a defesa, enfim, da vivência poética feita a partir das lições de William Blake e Arthur Rimbaud, para quem a poesia era (deveria ser) “o tesão e a revolta de todos os valores” (p. 38), iluminação súbita e fugaz na noite da palavra única, do pensamento unívoco.

Interessado em desfazer a trama do idêntico e do automático, daquilo que se faz, à pressa, sem que o corpo esteja de fato presente, em experiência, Reuben propõe, talvez, a criação poética assimilada à atividade sonora, o poema como música capaz de “dissolução da ênfase” (p. 13), isto é, da razão absoluta que submete às coisas ao seu método quase sempre instrumental, feito de impessoalidade e violência. Contra as imposições do já-dito e as brutalidades do tempo acelerado que disciplina e regula os fluxos, a lentidão. A paixão do objeto, a proposta que reaproxima ética e estética: “Não tocar as coisas com a mão da agonia” (p. 23).

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