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Neste recorte político que provoca extrema urgência em nos questionarmos, como nação, sobre as formas de narrar a história brasileira, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) – maior evento literário do país – decidiu por homenagear Euclides da Cunha (1866 – 1909). Com formação militar e simpático à oligarquia, o jornalista e escritor carioca denunciou tensões territoriais ao longo de suas obras, em destaque, Os sertões, relatos sobre a Guerra de Canudos, na Bahia. Dessa maneira, a figura ambígua escolhida para o foco dos holofotes entrega à Flip uma oportunidade de reconfiguração de leitura e questionamento de poder que não ficou muito bem estabelecida durante a coletiva, na manhã desta quarta-feira (15), na qual foi anunciada a programação completa. O evento ocorre de 10 a 14 de julho. 

A abertura do evento será feita por Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da USP, que lança no evento, pelo selo literário Suplemento Pernambuco, a quarta edição do livro No calor da hora, centrado na abordagem jornalística da 4ª expedição militar a Canudos. Na obra, Walnice, uma das grandes estudiosas da obra de Euclides, investiga a presença de fake news nas notícias sobre o conflito. 

Apesar de certo balanço de gênero e raça presente na lista de convidados – como nomes importantes para tais debates, a ver, por exemplo, a autora e artista visual portuguesa, Grada Kilomba –, o que denota uma preocupação em manter a “pluralidade” vista nas duas últimas edições, faltam aproximações concretas para demonstrar a tensão que uma obra como a de Euclides pode trazer e o que, de fato, ela representa hoje para a formação da sociedade brasileira. O trabalho de aprofundar esses aspectos ficou na mão, diante da lista de convidados, da citada Walnice Nogueira Galvão. Outros nomes que rodeiam as temáticas euclidianas como Marilene Felinto e Aparecida Vilaça, também são destaques que podem levantar debates com focos interessantes, voltados à obra do autor.

Os temas das mesas – que, este ano, terão novos formatos, algumas com 45 minutos de duração, nomeadas a partir de espaços presentes no relevo baiano que permeiam a vivência de Canudos – estão, sim, interligados à multiplicidade de gênero e à literatura de viagem que são algumas características dos livros do carioca. Mas existe um ponto de diálogo entre os convidados que ainda parece solto, como fica explícito nessa fala da curadora, Fernanda Diamant, sobre a mesa Vaza-Barris [o Irapiranga dos Tapuais], que terá a participação do líder indígena Ailton Krenak e do importante nome para o teatro nacional, José Celso Martinez: “São culturas milenares, o teatro e a cultura indígena, ambas estão em perigo. Claro que as dimensões são bem diferentes, não estou equivalendo, mas existem relações. O Zé Celso ali, protegendo a sua terra no Bixiga, há anos lutando para aquilo não virar um shopping center. O Ailton com uma atitude bastante teatral, como no episódio em que se pintou durante a Constituinte...” A intenção da mesa é de necessidade atenta ao debate contemporâneo brasileiro, porém, ao equiparar, em algum nível, a luta indígena ao fim do Teatro Oficina, o debate torna-se confuso: há um extermínio em massa de um lado e, do outro, um processo de defasagem estrutural da cultura e do espaço urbano de uma grande metrópole, como é o caso da sede do Oficina. Resta saber de que forma as mesas e os convidados irão articular-se entre si para lidar com tais relações e paradigmas.

Com conversas voltadas a outras linguagens como jornalismo e cinema – o cineasta português Miguel Gomes, que está em processo de filmagem de Selvajaria, uma adaptação de Os sertões, estará presente – este ano não haverá performances ou mesas voltadas à poesia, como as apresentações dos Frutos Estranhos das últimas edições. Questionada sobre a mudança, a curadora sublinhou a presença de Jarid Arraes (poeta e cordelista, mas que lançará um livro de contos durante o evento) e de Grada Kilomba. Diamant afirmou que esteve preocupada em relacionar a literatura com esses outros campos e, assim, a poesia torna-se um tanto quanto apartada do debate literário ao longo desta edição. O que pode mudar esse quadro é a presença de séries de Slams que ocorrerão com apoio da Fundação Roberto Marinho e do Museu da Língua Portuguesa.

A principal novidade desta edição, que teve um pequeno aumento orçamentário em relação ao ano passado – foi de R$ 5 milhões (2018) ao estimado valor de R$ 5,4 milhões este ano – está na reformulação do site. Mais interativa, a página vai contar com as programações integradas às casas parceiras. Assim, o público poderá montar sua programação pessoal misturando as atrações das mesas principais com as dos espaços paralelos. A estrutura na Praça da Matriz, ao redor da igreja será mantida e os organizadores prometem mais mesas ainda sem muitos detalhes.

Os ingressos para a Flip começam a ser vendidos em junho, ainda sem data certa, no site do evento. O preço será o mesmo do ano passado (R$ 55 a inteira).   

  

Confira a programação Flip 2019

 

Quarta-feira, 10 de julho

19h - 20h | Mesa 1 I Sessão de Abertura - Canudos
Walnice Nogueira Galvão, autora de No calor da hora (selo Suplemento Pernambuco/ Cepe Editora)

 

Quinta-feira, 11 de julho

10h30 - 11h15 | Mesa 2 | Bendegó
Aparecida Vilaça

12h - 13h15 | Mesa 3 | Uauá
Adriana Calcanhotto
Guilherme Wisnik
Nuno Grande

15h30 - 16h15 | Mesa 4 | Sincorá
José Miguel Wisnik

17h - 18h15 | Mesa 5 | Bom Conselho
Kristen Roupenian
Sheila Heti

19h - 19h45 | Mesa 6 | Serra Grande
Maureen Bisilliat

20h30 - 21h45 | Mesa 7 | Quirinquinquá
Gaël Faye
Kalaf Epalanga


Sexta-feira, 12 de julho

10h - 11h15 | Mesa 8 - Mesa Zé Kleber | Cumbe
Marcela Cananéa
Marcelo D’Salete

12h - 13h15 | Mesa 9 | Angico
Ayelet Gundar-Goshen
Ayobami Adebayo

15h30 - 16h15 | Mesa 10 | Tróia de Taipa
José Murilo de Carvalho

17h - 18h15 | Mesa 11 | Jeremoabo
Karina Sainz Borgo
Miguel Del Castillo

19h - 19h45 | Mesa 12 | Mata da Corda
Grada Kilomba

20h30 - 21h45 | Mesa 13 | Vaza-Barris [O Irapiranga dos Tapuias]
Ailton Krenak
José Celso Martinez Corrêa


Sábado, 13 de julho

10h30 - 11h15 | Mesa 14| Cansanção
Marilene Felinto

12h - 13h15 | Mesa 15 | Monte Santo
Ismail Xavier
Miguel Gomes

15h30 - 16h15 | Mesa 16 | Poço de Cima
Grace Passô

17h - 18h15 | Mesa 17 | Vila Nova da Rainha
Carmen Maria Machado
Jarid Arraes

19h - 19h45 | Mesa 18 | Massacará
Stuart Firestein

20h30 - 21h45 | Mesa 19 | Cocorobó
Cristina Serra
David Wallace-Wells

 

Domingo, 14 de julho

10h30 - 11h45 | Mesa 20 | Santo Antônio da Glória
Braulio Tavares
Mariana Enriquez

12h30 - 13h15 | Mesa 21 | Livro de Cabeceira
participação especial: Amyr Klink

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