Ilustra Educacao mai19

 

 


Com bastante frequência, o Suplemento Pernambuco busca no conhecimento produzido nas universidades públicas do país os subsídios críticos para que se pense e repense a literatura como campo de tensionamentos e disputas de narrativas. É possível dizer que a maior parte das pessoas que colaboram com esse jornal ou são diretamente vinculadas a alguma universidade pública ou já passaram por ela. De modo que, em função do movimento nacional pela Educação que acontece no país, fizemos o exercício de novamente buscar por professoras e professores que lecionam nesses espaços onde o conhecimento e a produção científica é um direito de toda e todos.

A pergunta dirigida a essas pessoas era uma só: o que podem os saberes acadêmicos fazer pelo Brasil e por que é fundamental lutar pela preservação deles? Eis as respostas:


“Mobilizar e participar parecem-me duas chaves essenciais à tentativa de recomposição da vida pública brasileira, avassalada pela aposta oficial na catástrofe das instituições. As fórmulas ocas do atual desgoverno da república, que misturam política estatal, demagogia e publicidade, derivam de uma estratégia estrangeira, apenas tornada aqui ainda mais brutal. Falseando a realidade civil pelo virtual das redes, procura-se criar uma ilusão de compartilhamento e consenso em torno do pior. Mas o que efetivamente se compartilha não é diálogo ou fala, e sim a atenção dispensada por gente ou robôs a programas de computador. Por mais tecnologicamente avançada que pareça, a rede tornou-se uma 'cidade' sem cidadania, que produz efeitos eleitorais.

A universidade pública corresponde a chaves de resistência. Por isso, é alvo prioritário de ataque por parte dos que estão comprometidos com o desmonte institucional, com o sequestro da fala comum por algoritmos e com a redução a zero do pensamento ponderado. Só o discurso com significado sustenta a ação dos fatos. O contrário disso é o dopamento coletivo ou a idiotia como governança. Neste momento, a defesa da universidade pública é a mesma da pátria.”

Muniz Sodré, professor emérito de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)


“Universidade é historicamente universitas. O estreito laço que une um grupo de pessoas, em um espaço determinado de uma cidade, com a finalidade de partilhar um horizonte comum de conhecimento, os modos de pensar que exigem territórios abertos e inconfinados, a imersão na busca do significado, na formulação e no debate de ideias. Nesse espaço – hoje chamado Campus – a universidade constrói um abrigo para seus ativos. O mais importante deles vem da força da imaginação. É ela que permite à universidade supor um mundo diferente do usual, extrair provocações para a teoria, forçá-la a dar um salto em direção ao novo. A imaginação confere à universidade vigor, paixão, capacidade de transformação. O segundo ativo resulta da complexidade do diálogo e da integração dos diferentes domínios do conhecimento – isso determina o modo de nos relacionarmos em um lugar onde as humanidades e as artes precisam estar em contato permanente com a tecnologia e onde a ciência não pode se apresentar dissociada do humano do homem. O terceiro ativo decorre de um compromisso público quando, então, a universidade assume a responsabilidade de viver na cidade que a abriga e no país que a criou, faz deles o seu bem maior e para ambos destina o melhor de suas ações, de suas ideias, de suas obras. Tudo isso pode parecer só uma utopia, eu sei. Mas para a universidade talvez seja suficiente. Retomar a utopia sob o signo da interrogação significa lembrar que a emancipação moderna e o desejo de justiça são os berços das criações utópicas e carregam consigo um sentido de transformação da realidade inclinando os homens a imaginarem ou a descobrirem novas formas de vida – busca sem fim de uma sociedade justa e boa, exposta à invenção e re-invenção permanente dos seus elos e fundamentos sociais. E convenhamos: esse é um bom motivo para sustentar a crença na universidade pública brasileira. Ou não?”

Heloisa Starling, professora titular de História do Brasil na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ex vice-reitora da UFMG

 

“As universidades públicas estão entre as poucas coisas do Brasil que a gente pode olhar e dizer que funcionam. Têm seus problemas, claro, mas cumprem o que pretendem. Oferecem formação de alta qualidade a milhares de jovens, que depois contribuem para a sociedade exercendo suas profissões. Fazem pesquisa de ponta nas mais diversas áreas. Desempenham um papel fundamental no esforço de pensar o país, de iluminar nossos problemas e de buscar soluções. Elas são um componente central de qualquer projeto de Brasil soberano, desenvolvido, igualitário. As universidades públicas sempre incomodaram por serem um espaço de pensamento crítico e debate livre. Sempre incomodaram também por serem uma demonstração viva de que o caráter público de uma instituição não impede que ela alcance excelência. E incomodam mais ainda porque, nos últimos anos, elas encontraram caminhos para corrigir muitos de seus problemas, ampliando suas vagas, democratizando o perfil de seu público, acolhendo mais filhos de trabalhadores, mais negros, mais pobres, sem com isso perder qualidade. É por isso que elas precisam ser defendidas: porque elas são um mau exemplo, um péssimo exemplo para quem deseja um Brasil atrasado, hierárquico e submisso.”

Regina Dalcastagnè, professora titular de literatura da Universidade de Brasília (UnB)

“Pouca gente sabe efetivamente o que produzem as universidades públicas brasileiras, elas que detêm 95% da produção científica do país. Principalmente há uma diversidade de conhecimentos sendo produzida e essa diversidade, a meu ver, é a maior riqueza dessas universidades. Muito fácil, penso eu, dizer que não precisamos de Filosofia ou Sociologia, por exemplo, mas o que propiciam essas ciências? Que perguntas elas fazem e tentam responder? Justamente se questionam sobre o homem e tentam entendê-lo, esse mesmo homem que hoje fenece como nunca de doenças psíquicas causadas, na maioria das vezes, por relações sociais opressoras, desiguais, movidas por um desejo insaciável de consumo, que despreza o próprio indivíduo. Assistimos a um aumento de suicídios entre jovens e não serão somente a Medicina, a Psicologia que trarão respostas mínimas para isso, sem se perguntar efetivamente sobre o homem. Não reconhecer a importância dessas disciplinas, mesmo na vida prática, é um absurdo.

Posso também falar sobre o conhecimento que produzo: quem mais estaria interessado em artes verbais ameríndias? Em registrá-las e entendê-las? Esse é um tipo de trabalho que só consegue amparo em universidades públicas e é extremamente relevante para os povos indígenas, porém, ainda mais para os não indígenas que podem e devem repensar suas práticas, respeitando a diversidade étnica existente no Brasil, respeitando a natureza, talvez esse o maior e mais urgente aprendizado ofertado diariamente pelos indígenas. Além do ataque direto sobre as humanidades feito pelo atual governo, a política pública do governo Bolsonaro está promovendo um desmonte na pesquisa por corte de bolsas; de investimento em projetos de pesquisa que, simplesmente, tiveram seus recursos não pagos; ou com a previsão do corte em custeio que, na UFRR, ultrapassa 40%.

A UFRR já vive situação precária, não há praticamente técnicos administrativos e seu funcionamento é garantido por alunos bolsistas; professores já não possuem apoio mínimo para pesquisa, como transporte; reparos em banheiros não são feitos por falta de recurso. Isso já ocorre. Com esse corte, as chances de ela não conseguir atender aos alunos é muito grande, por falta do básico, como energia elétrica, limpeza. Lutar pela universidade pública é reconhecer seu protagonismo na formação qualificada em todas as áreas, mas, também, defender a diversidade de conhecimento ali produzido, seu maior bem, sem a qual é impossível pensar um país democrático, um país que se conheça e se reconheça na sua pluralidade fundante.”

Devair Antônio Fiorotti, professor de literatura da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e da Universidade Estadual de Roraima (UERR)

“Sou professor aposentado da UFMG desde 2005, quando completei 38 anos de contribuição previdenciária. Trabalho desde a adolescência, mas minha primeira carteira de trabalho só foi assinada quando tinha 18 anos e atuava como office boy. Aos 20, já na Universidade, iniciei minha carreira no magistério e nunca mais parei. Hoje, chegando aos 70, atuo como professor voluntário, ministro cursos, oriento teses, dissertações e monografias, além de coordenar um projeto integrado de pesquisa com apoio do CNPq. É, portanto, a partir de toda uma vida dedicada à Educação que torno público meu espanto e minha revolta diante dessa escalada persecutória contra as Universidades Públicas e a pesquisa acadêmica. A cruzada contra a Educação levada a cabo pelo atual governo não só envergonha o Brasil mundo afora – professores e intelectuais do mundo inteiro não conseguem acreditar no pesadelo que estamos vivendo.

A perseguição à Universidade Pública compromete o futuro de gerações inteiras e do próprio país. Nenhum país pode almejar o desenvolvimento se não oferecer Educação de qualidade a seus jovens e a suas crianças. Já a pesquisa é fundamental em todas áreas, seja para chegarmos às vacinas contra a dengue, chikungunya e outros males recentes, que nos ameaçam com epidemias devastadoras nos próximos anos, seja em áreas tão relevantes quanto, a exemplo das Ciências Humanas, que vêm contribuindo admiravelmente para a superação de nosso persistente complexo de inferioridade. Somos a quinta maior população do planeta e não vamos permitir que o futuro de mais de 200 milhões de pessoas seja vítima de um retrocesso histórico capaz de nos levar de volta ao atraso cultural, social e econômico, como já nos levou de volta ao mapa da fome.

Neste 15 de maio todos às ruas contra o desmonte da Educação e da Previdência!”

Eduardo de Assis Duarte, professor adjunto aposentado de Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

 

“Estamos vivendo um período obscurantista, um movimento extremamente anti-intelectualista e por parte justamente das instituições que deveriam defender a educação e o conhecimento. A universidade hoje, portanto, constitui-se como uma reserva e uma defesa do conhecimento, da pesquisa e do desenvolvimento científico. É a partir da universidade que podemos construir uma resistência a esse obscurantismo, é a partir dela que podemos lançar as bases de uma defesa enfática do futuro desse país. O que acho mais crucial nesse momento é esclarecer para a sociedade esse papel da universidade para a construção do futuro do país.”

Angela Prysthon, professora titular de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

 

“Tentando pensar para além das respostas mais evidentes sobre a necessidade de uma mobilização pela educação - a formação para a cidadania, a defesa do patrimônio nacional, da luta contra as desigualdades sociais, raciais e de gênero, pela soberania nacional na produção de C&T, sob ataques do atual governo — temos que nos organizar para desmascarar pelo menos três projetos, três falácias cada vez mais entranhadas e disseminadas no imaginário sobre a educação no Brasil.

Primeiro, de que não se faz pesquisa de impacto e qualidade nas universidades públicas do país (o que vem sendo desmentido sistematicamente); que isto se daria por conta da consolidação de um suposto "marxismo cultural" na produção científica e acadêmica (o que vem sendo exibido como argumento-chave por trás de movimentos políticos conservadores mundo afora); e que a solução para este suposto problema estaria ou na aprovação do projeto Escola Sem Partido (uma proposta que regulamenta o cerceamento da liberdade de cátedra); ou na entrega dos estabelecimentos de ensino do país aos setores privados da educação, os chamados "empresários reformadores" como Todos pela Educação, que reúne Fundações, Bancos, Instituições que a cada dia revelam seu pouco ou nenhum compromisso com a Educação pública, gratuita e de qualidade.

Essas falácias, articuladas em um discurso vago e muitas vezes oportunista, tendem a criar uma percepção desfavorável à universidade pública com o intuito de criar campo político propício a atender às demandas dos grupos conservadores, tanto no estado como nas empresas. Objetivo final: a administração integral do Fundo Público destinado à Educação e neutralizar a soberania do país em termos de Ciência & Tecnologia.

Atos unificados e manifestações de rua, pressão junto aos congressistas em que votamos, articulações dentro dos sindicatos (fundamentais!), grupos de trabalho e militância dentro e fora dos estabelecimentos de ensino. Porém, como nas manifestações de 2016, os estudantes estão mais uma vez mostrando o caminho. Os atos nos colégios federais e universidades de todo o país foram um alento... O tempo que levaram para articular as manifestações foi extraordinário, mais articulados que as Centrais Sindicais, Sindicatos de Professores, etc. Nós, trabalhadores da educação e em geral, temos muito o que aprender com os estudantes. E não somente no que diz respeito às manifestações, mas também ao seu conteúdo: em 2016, me chamou a atenção uma das reivindicações feita pelos alunos incluía a necessidade de se pensar "outra escola", não mais de cunho disciplinar. O que eles enunciaram foi mais ou menos o seguinte: não haverá outra sociedade se não criarmos uma outra escola. Me parece um dado muito importante que esta reivindicação venha, justamente, dos alunos.

Me permita uma divagação: os saberes, o conhecimento, a produção de ciência e tecnologia, mas sobretudo as práticas da pesquisa, que são práticas de experimentação e invenção... esses elementos estão atrelados aos centros de pesquisa e a seus pesquisadores. Portanto, não estamos falando somente do Conhecimento com C maiúsculo, de artefatos, de saberes isolados de seus contextos, mas de vidas, de formas de vida... Um cientista, um sociólogo, um poeta, um percussionista, não importa, empenham suas próprias vidas em suas pesquisas... "A própria vida como prova", diria Foucault... Por isso, a inclusão promovida nos períodos do PT, uma espécie ampla de reconfiguração étnico-cultural, foi tão fundamental para repensarmos a educação e a pesquisa no país a partir de outros ares e personagens, da inclusão de negros e indígenas, da impressão de outras perspectivas culturais sobre a produção de conhecimento. Não foi à toa que a Extensão finalmente ganhou corpo na Universidade Brasileira. Obviamente, se este processo não tivesse sido sufocado pelo Golpe de 2015, teríamos hoje uma pesquisa acadêmica mais complexa e matizada, isto é, mais ampla do ponto de vista cultural. A própria atividade de pesquisa dentro da Universidade tem relação intrínseca com a realidade que vivemos e que queremos viver no país.”

Bernardo Oliveira, professsor adjunto da Faculdade de Educação/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

 

“Ao longo dos vinte anos que convivo nas universidades públicas brasileiras como aluna, pesquisadora e, mais recentemente, como professora pude constatar que a importância desses espaços de produção e circulação de conhecimento é vital, tanto para o corpo social brasileiro, quanto para cada cidadão/ã que deles fazem parte. O acesso e a permanência da população brasileira na universidade pública é um direito humano e deve ser garantido pelo Estado, de acordo com elementos fundamentais da Constituição Federal, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação e do Plano Nacional de Educação. Não podemos esquecer que tais documentos são pactos político-sociais estabelecidos não por um grupo partidário, mas por toda a sociedade brasileira ao longo dos anos de construção da democracia em nosso país.

Lutar pelos saberes acadêmicos é lutar pela liberdade, pela superação das desigualdades educacionais, pela promoção de desenvolvimento humano, científico, artístico, tecnológico no país e no mundo. Eu escrevo esse testemunho a partir da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB), localizada em Redenção, no Maçico de Bauturité, no Ceará. Criada em 2010, pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva, a UNILAB é comprometida com trocas de saberes, desenvolvimento científico, mobilidade acadêmica entre Brasil e parceiros da Comunidade de países de língua portuguesa (CPLP), sobretudo, países africanos que mantêm uma relação histórica com a formação da sociedade brasileira.

Nosso corpo acadêmico é formado, portanto, pela diversidade das culturas e dos povos do interior do Ceará e de outras partes do Brasil, além da pluralidade dos alunos internacionais, com sua riqueza étnica e histórica. Eu trabalho nessa universidade como docente, encontro no percurso de vida de meus alunos traços de minha própria história. Aquela que conta da menina negra e periférica, filha do metalúrgico e da faxineira, migrantes e sertanejos, a história da menina negra e pobre que se graduou na universidade pública, que viajou e aprendeu pelos países da diáspora negra, que acessou bolsas de estudos financiadas pelo Estado para sua formação, que se doutorou e se fez docente para ensinar os seus a defender o direito ao conhecimento científico e à vida que pulsa na universidade pública, enfim, a defender o que é nosso: 'Vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas'.”

Luana Antunes Costa, professora adjunta do Instituto de Humanidades e Letras da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB/CE)

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