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“Aceitei esse convite como um chamado vindo de um lugar estranho. Foi uma surpresa, não esperava”, afirmou a escritora pernambucana Marilene Felinto em conversa com o Pernambuco, na última terça (30), por telefone. Ela participa da programação principal da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 10 e 14 de julho.

Felinto é autora de um dos romances mais importantes da literatura brasileira contemporânea, As mulheres de Tijucopapo, publicado em 1980, quando ela tinha 22 anos. Atualmente esgotado, sua última edição foi em 2004, pela Editora Record. Na orelha da obra, o crítico José Maria Cançado a descreveu como um dos últimos grandes livros da “questão nordestina”. Podemos pensá-la ainda como uma retomada bastante particular da tradição do romance de formação. Mas uma retomada com o corpo de um cão sem plumas. É que o passado nela é sucata. Ferro-velho. Temos a romaria de uma mulher só, de São Paulo para o seu Pernambuco natal. Uma jovem em mítico regresso para um Nordeste de índices de subdesenvolvimento alarmantes em pleno noturno da ditadura. Um Nordeste de mapa da fome. E há muita fome nesse livro.

Mas uma fome que talvez não seja de comer. “Não é uma vontade de fome. É uma vontade de sede”, descreve a narradora. Há também uma vontade de linguagem, uma linguagem que se autoproclama em frangalhos para o leitor. Uma linguagem mais ligada ao oral que ao escrito e que falha já nas primeiras linhas. O português sozinho não dá conta, é insuficiente, soa quebrado. Tudo já foi dito ou remoído na língua-mãe – “Quando eu chegar lá, depois de ter passado por canteiros de flores no meio das campinas, vou passar a carta para o inglês e enviar. Eu quero que o que eu fale se pareça com o inglês, outra língua que eu sei falar, uma língua estrangeira. Dizer ‘goodbye mother!’ ‘goodbye father! ‘Goodbye you’”.

A trama de As mulheres de Tijucopapo carrega tintas autobiográficas. De ônibus, aos 12 anos, Felinto seguiu com a família de Recife para São Paulo num longo trajeto de quatro dias (numa de suas crônicas a autora afirmou que, se tivesse nascido alguns anos antes, teria feito a mesma viagem não num ônibus, mas num pau de arara, tal e qual o ex-presidente Lula). “Essa é uma história (a do romance) muito estranha. É um romance de juventude, com todos seus exageros e defeitos. Eu estranho muito esse livro, é como se não fosse eu”, diz.

A sensação de estranhamento de Felinto com seu romance de estreia não é diferente da que sente diante dos escritos que a colocaram no centro de inúmeras polêmicas, quando da sua atuação por pouco mais de uma década na Folha de S.Paulo. Foi colunista do caderno Cotidiano. Em suas crônicas, infectou a rigidez dos manuais de redação com clarões literários e criticou os donos do poder de uma forma, hoje em dia, impensável. Numa dela, descreveu o velório do deputado Luís Eduardo Magalhães, filho de Antônio Carlos Magalhães, o famigerado ACM, como grande mostruário de que os brutos também choram. E acabou dizendo que políticos, como o falecido deputado, já “vão tarde”. Resultado: ACM mandou fax para a redação exigindo sua cabeça.

Felinto rompeu com o jornal em 2002, quando se declarou censurada por um texto em que celebrou a primeira vitória de Lula à presidência. Não aceitou a censura. Pediu demissão. “Aceitei participar da Flip por deferência à curadora Fernanda Diamant, que eu não conhecia, mas que é viúva do Otávio Frias Filho (então diretor de redação do jornal). Eu era amiga do Otávio, mas estávamos rompidos.”

Desde que saiu da Folha, Felinto deixou de ler o jornal e se afastou de vez do esquema dos ditos “jornalões”. Diz não ter interesse na grande imprensa golpista, marcada por um jogo de classes. Durante anos colaborou com a extinta revista Caros amigos. Atualmente, presta serviços de consultoria de texto e revisão para empresas e associações como o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

A escritora diz que o Brasil de hoje está “terrível como nunca vi antes”, pior até do que aquele descrito em seu romance de formação. Ainda assim, tem esperança nas lutas das novas gerações – “Eu acredito muito que chegamos a esse cenário terrível porque a resistência estava muito forte. Mas eu acredito muito nessa militância jovem que está aí”. Ainda sobre militância, falamos brevemente da polêmica curadoria feita pelo poeta Eucanaã Ferraz, que organizou uma mostra de poesia contemporânea brasileira para a sede carioca do Instituto Moreira Salles (IMS) sem qualquer autor negro – “Ter autores negros não é uma questão de cota. E, sim, de direito. Os negros têm de estar em qualquer lugar. Eu nunca levantei na minha literatura a bandeira de que faço uma literatura negra. Não me identifico com isso. Mas me identifico com a bandeira de luta para que ocupemos todos os lugares”. A mostra acabou sendo cancelada pelo IMS.

Sobre a Flip, disse que não vai lançar livro algum por lá. E, sim, que vai levar alguns livros novos, que vão sair por edição da autora. Alguns em papel, outros em e-book, que estarão à venda na Amazon. São eles: Autobiografia de uma escrita de ficção, sua dissertação de mestrado pela PUC-SP; a seleta Sinfonia de contos de infância (essa já à venda na Amazon); e Fama e infâmia, coleção de ensaios que discutem a crise do jornalismo brasileiro.

 

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