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A cor vermelha (krásni), para os russos, tem um significado cativante e abrangente, uma vez que em sua raiz etimológica ela também significa o adjetivo “bonito” (krassívi). Diante dessa informação, um dos símbolos nacionais da Rússia, a Praça Vermelha, ganha nova simbologia ao sabermos que por séculos sua tradução ostentava o singelo nome de Praça Bonita, adornada no século XIX por tijolos brancos. Não é difícil imaginar o fascínio provocado pela cor mais quente num país mergulhado, por quase meio ano, na monocromática paisagem invernal. No século XX, com a adoção da cor pelos bolcheviques, o vermelho se tornou símbolo de tudo o que, no mundo da política se associasse ao comunismo. A literatura russa, que crescia em popularidade entre o público brasileiro desde seu advento na década entre as décadas de 1870 e 1880, viu-se envolta numa redoma política que a colocava numa posição de perseguição e mistério. A sedução da cor soviética permeou os movimentos de afastamento e aproximação da crítica literária e produção editorial brasileira com o texto russo durante o período varguista.

Em Dostoiévski na Rua do Ouvidor, Bruno Barretto Gomide continua sua jornada a fim de mapear detalhadamente a recepção do texto russo em terras brasileiras, desta vez contemplando os 15 anos de governo ditatorial de Getúlio Vargas (1930-1945). O pesquisador, tradutor e professor da USP tem se lançado à missão de estudar a recepção da literatura russa no Brasil, além de ser uma figura de destaque na retomada de uma “febre” editorial que se desencadeou a partir de 2000, quando a Editora 34 publicou a tradução de Paulo Bezerra para Crime e castigo [nota 1].

A pesquisa deste livro prossegue com o minucioso trabalho iniciado em Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936), lançado em 2011, no qual o autor investiga o desembarque das primeiras naus literárias russas e sua familiarização entre nossa intelectualidade. Se no primeiro estudo a longa viagem entre portos periféricos da cultura novecentista trazia o exotismo e o encantamento dos intelectuais brasileiros diante dos afrancesantes Pouchkines (Púchkin) e Tourguenieffs (Turguêniev), neste segundo livro, o protagonismo geopolítico da estabelecida União Soviética será o fiel da balança da repercussão do texto russo dentro de um totalitarismo tupiniquim escorregadio.

Durante a década de 1920, a literatura russa gozou de uma liberdade editorial e de uma curiosidade que permitiram rápida popularização de seus gigantes entre os intelectuais locais; um misto de exotismo provocado pelos arroubos da enigmática “alma russa”, pelos cenários orientais das estepes e montanhas caucasianas, somados à ausência de censura ao texto vermelho e a curiosidade pelo novo sistema de governo socialista. Isso permitiu o surgimento de uma verdadeira “febre” literária no Brasil. Bruno Gomide divide esse movimento em três partes: uma primeira “febre”, que traz esse período de liberdade para a divulgação e debate sobre textos literários russos; um interstício em que a censura varguista, tendo o comunismo como seu inimigo preferido, interdita ou coage qualquer tipo de associação à cultura vermelha; e uma segunda “febre” motivada pela entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, tendo a União Soviética como aliada, o que acarreta uma forte reaproximação cultural do Brasil com a pátria de Stálin. Em suma, os movimentos literários foram vigorosamente impactados pelos interesses políticos do governo Vargas.

A primeira febre (1930-1936) é marcada por um entusiasmo editorial em torno de autores russos clássicos, somados à chegada de soviéticos como Gladkóv, Fadéiev, Pilniak, Ehrenburg, Avdeenko, que formavam um panorama eclético para o leitor brasileiro, diversificando o cardápio cultural geralmente tão afrancesado. Avolumara-se a ideia de que Dostoiévski era peça-chave na formação de caráter do jovem brasileiro: foi nesse período que nomes como Josué de Castro, Clarice Lispector, Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues entraram em contato com o romancista russo. Também a crítica literária produziu seu primeiro fruto: Dostoiewski, de 1935, escrito por Hamilton Nogueira (1897-1981). Havia, outrossim, entre a intelectualidade brasileira a expectativa do surgimento do Dostoiévski tropical, o escritor brasileiro que condensasse uma enorme capacidade de sintetizar o sofrimento pessoal e universal dentro de uma perspectiva local. O romance Angústia, de Graciliano Ramos, publicado em 1936, parece atender, segundo Bruno Gomide, a essa ânsia da crítica nacional por um texto dostoievskiano. 

Porém, os intercâmbios literários entre o texto russo e a cultura brasileira foram abruptamente interrompidos pela censura varguista, que elegeu Moscou como inimigo maior. Uma onda de russofobia que retirou das estantes quase a totalidade de textos literários que ganharam espaço na primeira febre. Carlos Drummond de Andrade, jocosamente, responde que “estavam nas prateleiras, mas um vento as levou”. [nota 2] Uma caça que não poupou nem os clássicos! Diante da incapacidade dos censores em julgar se os conteúdos eram pró ou anticomunistas, optaram por banir todos. Dostoiévski e Tolstói, por exemplo, tiveram apenas três livros publicados, entre 1938 e 1941. Embora a produção de artigos e resenhas não tivessem diminuído tão drasticamente, o olhar sobre Dostoiévski, por exemplo, era de abordar sua cristandade mística, evitando qualquer associação política explícita.

Para a felicidade da literatura perseguida, os rumos políticos do Estado Novo reaproximaram o Brasil da União Soviética, no mesmo panteão dos Aliados, e uma ressignificação do texto vermelho desencadeou uma segunda febre editorial (de 1942 até depois do fim do Estado Novo), que mostrava o país soviético sob um ponto de vista positivo, influenciado pelas encarniçadas notícias vindas de Stalingrado. Os escritores e/ou personagens eram frequentemente retratados como cientistas, intelectuais, nacionalistas, valentes. “O russo era, antes de tudo, um forte”, como bem sertaneja Bruno Gomide. A segunda febre também marca o surgimento da primeira coletânea de obras completas de Dostoiévski, pela editora José Olympio, em 1944. Aliás, este foi o ano do escritor russo no Brasil, em que três edições de Os irmãos Karamázov saíram por editoras diferentes – uma delas, a da Vecchi, contava com uma tradução direta de Bóris Solomônov, pseudônimo do iniciante tradutor que posteriormente assinaria com seu nome real, Bóris Schnaiderman (1917-2016). Importante crítico e tradutor, Schnaiderman também foi responsável pela chegada, neste período, dos primeiros poemas soviéticos, que tinham em Maiakóvski a sua figura mais importante.

Para além da influência política sobre os matizes vermelhos dos textos russos, Gomide explora o interessante intercâmbio cultural entre intelectuais brasileiros, como Jorge Amado e Tarsila do Amaral, com o tradutor, crítico e poeta David Vygódski (1893-1943). Uma via de mão dupla, um abraço transoceânico que permitiu que nomes improváveis da literatura russa desembarcassem por aqui e que levou poetas como Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Murilo Mendes, entre outros, para coletâneas de literatura brasileira na União Soviética, além de permitir a tradução de novelas e romances de nomes como José Lins do Rego e Jorge Amado na Rússia stalinista.

Dostoiévski na Rua do Ouvidor também assinala a presença inquebrantável do autor de O idiota em todas as fases do período varguista. Por sua múltipla possibilidade interpretativa e psicologizante, os textos que pensavam a obra do autor conseguiam driblar a censura estadonovista ressaltando os aspectos religiosos e místicos de sua narrativa, mesmo nos períodos em que a censura tornara-se mais férrea: “Dostoiévski podia conduzir a Lênin, a Cristo ou ao romance brasileiro”, diz Bruno Gomide. A centralidade do escritor no Brasil não se equivalia ao interesse em sua terra natal. O regime soviético classificava-o como “perigoso” e desconfiava de seus temas que conduziam aos calabouços da alma ou à conversão por meio da fé, tanto que nas trocas de materiais entre Vygódski e seus interlocutores brasileiros, a ausência de material sobre o gigante russo causava estranhamento: não havia um texto sequer sobre Dostoiévski na revista Literatura Internacional [nota 3], em que Vygódski trabalhava e enviava exemplares para a América Latina, a fim de divulgar os estudos literários de sua terra.

Bruno Gomide divide o interesse pelos autores russos em três grandes blocos: o primeiro devotado a Dostoiévski, Tolstói e Górki, os mais traduzidos e comentados; num segundo escalão, temos a presença de Turguêniev, Púchkin e Gógol, além da chegada notória de Tchékhov durante a segunda febre; num terceiro grupo, temos todos os outros publicados durante o período – e a lista é imensa! Críticos literários como Jaime Adour da Câmara, Valdemar Cavalcanti, Brito Broca, Costa Neves, Álvaro Lins e Otto Maria Carpeaux fomentaram o interesse editorial e criaram uma familiariazação tão grande da intelectualidade brasileira com os escritores russos, que a distância geográfica e cultural aparentava ser muito menor, como se os russos estivessem entre nós, caminhando pela machadiana Rua do Ouvidor.

O Estado Novo termina em plena segunda febre, deixando no leitor a curiosidade pela continuação deste estudo de recepção da literatura russa no Brasil, ainda mais com a importação das políticas macartistas para os trópicos no período posterior ao Estado Novo e na ditadura militar. A julgar pelo início dos estudos em Da estepe à caatinga, imaginamos que Bruno Gomide algum dia nos presenteie com a consolidação dos estudos eslavísticos no Brasil, em que o próximo capítulo traga o amadurecimento daquele que é o farol dos estudos sobre literatura russa no Brasil, o professor Bóris Schnaiderman.

 

NOTAS

[nota 1]. Bruno Barretto Gomide é professor do resistente Departamento de Literatura e Cultura Russa da USP, fundado graças ao enorme esforço de Bóris Schnaiderman. É o único curso de pós-graduação do Brasil na área de eslavística, responsável pela formação de vasta rede de tradutores e pesquisadores. Sua existência está seriamente ameaçada pela falta de investimentos públicos e de autonomia.

[nota 2]. Carlos Drummond de Andrade, Livros assassinados, 9 jun. 1945.

[nota 3]. Internatzionálnaia Literatura foi uma revista soviética que buscava divulgar escritores da URSS para o mundo. Na América Latina, os textos eram traduzidos para o espanhol – muitas vezes pelo próprio David Vygódski.

 

>> Odomiro Fonseca Filho é historiador e crítico literário, com doutorado e Literatura e Cultura Russa (USP)

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