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O ensaio abaixo pertence à reedição de A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho (1916-1998), feita pela editora Autêntica em 2016 e que marca os 50 anos de existência do livro. Serão relançados mais três romances do autor. O texto abaixo é assinado pelo poeta e crítico literário Carlos Felipe Moisés e funciona como apresentação de uma obra que precisa ser mais conhecida pelo público. 

 
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Escritor maldito, inclassificável, ele sumiu da vida literária dos anos 1970 até falecer, em 1998, deixando um punhado de livros. E um mistério que precisa ser revisto.

Por Carlos Felipe Moisés

 

O armazém geral da coisa literária tem sempre um compartimento reservado a certa mercadoria de circulação problemática, a literatura marginal. Nele entram doses maciças de contestação, deboche, crítica destrutiva, niilismo, violência, loucura, pornografia, ateísmo, demonismo, etc. Já em doses moderadas, tudo isso passaria por pequenas liberdades, pequenas excentricidades, acomodando-se nos compartimentos usuais. Literatura marginal, para valer, pede liberdade total, excentricidade máxima.

A administração do armazém não está a cargo de uma só pessoa ou entidade, constituindo assim um feliz exemplo de trabalho em equipe, sociedade aberta e ilimitada: todos nós participamos dela. Basta ler ou escrever, seja o que for, ou apenas observar, de perto ou a distância, e pronto: já estamos dando nossa contribuição ao seu funcionamento. Por isso reina aí certa desordem. Por isso, também, de vez em quando, um crítico, um editor ou algum parceiro abnegado, inconformado com a situação, resolve assumir o controle da coisa, a fim de lhe impor o seu critério pessoal de uniformidade e coerência. Mas não dura muito. A força da inércia prevalece e tudo acaba voltando às mãos de todos.

Apesar da desordem reinante, a gerência dos negócios é conservadora. A médio e longo prazo, seu crité- rio é um misto de ponderação entre extremos, cautela e incongruência: o que não se enquadra é descartado, mas não jogado fora. Fica ali, num canto escuro do galpão, sob a placa que é uma punição e um aviso: literatura marginal. Então, perguntam os menos avisados, é marginal ou não é? Está fora ou dentro? Não é nem deixa de ser, ponderam os aficionados, está fora e dentro. E acrescentam: convém manter sempre ativada a seção dos marginais. A anomalia de hoje pode virar moda amanhã.

Sistema engenhoso e esperto! Faz questão de abrigar uma engrenagem que se recusa a integrar o sistema. Além disso, não é só uma central de abastecimento: inclui uma bolsa de valores, que só se interessa por resultados imediatos, não opera no mercado futuro. Em decorrência, o rótulo “marginal” tanto pode ser uma condenação como uma condecoração. É que há marginais e marginais. Aqueles não tomam conhecimento do armazém e sua bolsa; estes topam qualquer negócio para, se for o caso, exibir o prestigioso rótulo, na lapela ou na lombada.

Walter Campos de Carvalho, mineiro de Uberaba, nascido em 1916, faz parte da primeira categoria. Seu livro de estreia, Banda forra, foi escrito nos anos 1940 e passou despercebido; o seguinte, Tribo (1954), também. Nunca foram reeditados, por determinação do autor. A notoriedade aconteceu com A lua vem da Ásia (1956), narrativa em que um doido fala da vidinha ao mesmo tempo monótona e feérica que leva num hotel de luxo; aliás, um campo de concentração; aliás, um hospício. Por ser narrado em primeira pessoa, todos acharam que era autobiográfico, e o autor foi tachado de louco, imoral, deletério, pervertido, diabólico. Mas ganhou lugar de destaque no compartimento dos marginais. O livro deu o que falar, foi uma loucura. Sergio Milliet, um dos grandes críticos da época, discorreu longamente sobre um diálogo que mantivera, anos antes, com Buñuel, em Nova York, para provar que a loucura de A lua vem da Ásia não passava de artifício literário. E não passa mesmo. Aí o grande mérito do livro. Mas o crítico entendeu como demérito.

“Artifício”, no caso, é representação figurada, metáfora, lance genial do autor, que se serve do narrador (quem narra não é Campos de Carvalho, mas um certo Astrogildo) para mostrar ao leitor que a loucura do personagem e do seu enredo é só ficção. Loucura para valer é a que acontece na vida cotidiana de todos nós. Nos espaços que todos percorremos diariamente (o banco, o escritório, a repartição pública, o mercado, o bar, o lar doce lar, a escola, a igreja, as redes sociais, etc.), aí sim é que impera a lógica do absurdo. Há muito mais loucos fora do que dentro do hospício onde o simpático Astrogildo está internado. O autor revisita, rendendo-lhe homenagem, a obra-prima O alienista, de Machado de Assis.

Logo depois de A lua vem da Ásia, vieram Vaca de nariz sutil (1961) e A chuva imóvel (1963). Ali, um ex-combatente, obcecado com a morte, fixado em cadáveres e cemitérios, dilacerado por uma sexualidade naturalmente mórbida, passeia seu desespero pelas ruas de uma cidade hostil; aqui, um pequeno-burguês fracassado, imobilizado por uma angústia existencial impregnada de sentimento de culpa, religiosidade mal resolvida, libido incestuosa, autoexecração e autoadoração – com isso tudo a seu favor (!), o protagonista só podia terminar o relato com uma corda enrolada ao pescoço. Em seguida (1964), a grande jogada, O púcaro búlgaro, humor desconcertante e ferino, a realidade da vida reduzida a pó, ouro em pó, a golpes de fina ironia e sonantes gargalhadas. E isso é tudo. Repito: isso é tudo.

Esgotados, os livros que tinham feito sucesso ainda foram reeditados, no início dos anos 1970, mas sem o estardalhaço de antes. O autor chegou a frequentar as páginas d’O Pasquim como colaborador eventual, mas em seguida desapareceu. E desaparecido ficou, por mais de vinte anos. Na segunda metade dos anos 1970, a nova geração já não sabia de sua existência e a anterior não se lembrava de que ele tinha existido. Esgotadas as reedições, seus livros se tornaram raridade de colecionador.

Entre 1956 e 1964, o autor ocupou com galhardia seu lugar no compartimento dos marginais. Cansou de dar entrevistas, em que invariavelmente lhe perguntavam se era louco mesmo e se tinha parte com o diabo; foi traduzido para o francês; colaborou na refinada revista Senhor (não confundir com a contrafação que circulou nos anos 1970), ao lado de Clarice Lispector, Jorge Amado e outras unanimidades. Mas, de repente, passou de marginal a marginalizado. E não se falou mais dele, em letra impressa, até 1994.

Hoje se sabe que não ficou totalmente esquecido. Apenas retirou-se do mercado, parte por decisão própria (problemas de saúde, desencanto), parte por descuido alheio: mais de uma editora lhe fechou as portas nos anos 1980. Mas os mais velhos se lembram de que, no auge da repressão, “a lua vem da Ásia”, “púcaro búlgaro” ou “vaca de nariz sutil” eram frases entreouvidas nos corredores, mensagens que as pessoas trocavam, no afã de expressar o que não podiam. Às vezes nem sabiam que eram títulos de Campos de Carvalho.

Nessa época, e até recentemente, meu exemplar de O púcaro búlgaro passou por muitas mãos, não sei quantas vezes foi xerocado. Como eram mãos amigas, sempre voltou: até hoje está comigo, assim como os exemplares das primeiras edições dos outros livros, que circularam da mesma forma. Hoje se sabe que meia dúzia de pessoas, independentemente do que o armazém ia oferecendo nos seus quiosques, teimaram o tempo todo em cultivar a memória desse marginal dos anos 1960.

Em 1994, sem saber por onde andava o autor, realizei o que vinha ensaiando fazia mais de vinte anos: escrever um longo artigo que desse conta de toda a obra. O artigo saiu no Jornal da Tarde de 10 de setembro de 1994 e ajudou a reavivar a memória de alguns. Duas ou três editoras correram atrás, a José Olympio chegou primeiro e, em 1995, Campos de Carvalho voltou à circulação. Marginal, ainda?

Curiosa carreira a desse cidadão do mundo nascido em Uberaba. Durante oito anos, de 1956 a 1964, escritor marginal, com toda pompa, condenado e condecorado, com um lugar de honra no armazém geral; nos vinte e tantos anos que se seguiram, escritor marginalizado, riscado do mapa, como se nunca tivesse existido. De repente, ressurge reeditado sob a mesma chancela que o lançara para a glória efêmera. E volta a ser procurado por toda a imprensa. Por quanto tempo, era difícil prever. Naqueles vinte anos, o armazém ganhara uma agilidade inimaginável nos tempos de A lua vem da Ásia, cujos palavrões, que tanto irritaram os administradores de outrora, já eram ouvidos pelas criancinhas, diante da TV, hic et nunc, no horário plebeu ou no nobre. Angústia existencial? Fora de moda. Especular sobre a Verdade, o Amor ou a Justiça (onde já se viu tanta maiúscula junta!)? Não é senão jogar conversa fora. Lutar contra a morte, à procura de um sentido mais digno para a existência? Ah, por que perder tempo com bobagens? Mas deixar-se conduzir pela imaginação, sem perder de vista a capacidade raciocinante, continua a exercer sobre as pessoas, e cada vez mais, o mesmo fascínio de antes. E o humor não mudou: a vontade de rir e desopilar continua a mesma. Talvez por isso o autor considerasse O púcaro búlgaro o seu melhor livro.

O fato é que hoje, 2016, Campos de Carvalho continua a ser um marginal que, de fato, incomoda, pois escreve admiravelmente bem. Subverte, desmonta, contesta, desfigura, mas, ao contrário dos arrivistas da marginalidade, conhece a fundo o que está subvertendo, desmontando, etc. Nosso autor tem um notável conhecimento da tradição literária que ele almeja subverter, e subverte; e tem também, sobre a nossa língua, um domínio extraordinário, de fazer inveja aos clássicos. Por isso, aliás, foi “vítima de todas as injustiças e de todas as perseguições políticas, da direita e da esquerda”, como observou Jorge Amado. Se escrevesse mal, um dos lados o adotaria, sem reservas.

No início dos anos 1960, ele agrediu, chocou, escandalizou, melindrou suscetibilidades; hoje, o efeito já 15 não será o mesmo. A obra perdeu o impacto? Não creio. Talvez o impacto de agora seja ainda mais intenso. É só entender que chocar ou agredir não é, nunca foi, objetivo do autor. Como todo marginal autêntico, Campos de Carvalho esconde um moralista: é um escritor que alimenta a ambição de ensinar um pouco de humanidade ao leitor. O ponto de partida é eliminar todo disfarce e toda hipocrisia, e depois mostrar que enfrentar os porões sombrios da loucura, da morte, do desespero e da danação nos torna mais humanos. De quebra, nos ensina a rir de verdade. Com tais requisitos, perfeitamente válidos tantos anos depois, é de se esperar que o autor volte a ocupar, no armazém geral, o lugar que por direito sempre lhe pertenceu.

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