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A cultura literária como conhecemos vai acabar em 20 anos. Ela já está agonizando. Obras de ficção não despertam mais interesse dos jovens, e tenho a impressão de que não são mais lidas. Hoje, a atenção é voltada para o mais novo celular, o mais novo tablet. Daqui a poucas décadas, a relação do público e do escritor com a cultura será muito diferente.

Philip Roth

 

Sempre achei que “literatura de provação” fosse um bom epíteto para o conjunto – mais que respeitável – da obra do judeu americano Philip Roth. (Esqueçam que eu falei em “conjunto da obra”: tornou-se uma expressão de injustiça clamorosa.)

Irei explicar melhor a “provação” – e mais alguma coisa – logo adiante, porém é importante lembrar que a menção a “judeu americano”, aqui, pretende também lembrar que é impossível entender as várias camadas de significado dos romances de Roth sem ter em mente o fato de ser ele judeu como Saul Bellow, Bernard Malamud e tantos outros luminares da prosa (e da poesia e do cinema) dos EUA. Pois essa origem racial faz quase toda a diferença no caso de tantos artistas que trabalharam contra ou a favor dela, ou, pelo menos, imbuídos dessa identidade, para bem ou para mal. Não precisa de nenhum estudo aprofundado para se perceber isso. Talvez baste ler (ou ver, pois também é um filme) o América, América do turco Elia Kazan para fazer uma boa “acostagem” do tipo de “cidadão” que alguém é – ou se torna – a partir, antes de mais nada, do olhar para a origem racial (ou para a cor da sua pele) mesmo através de sucessivas gerações que viram o tal “Sonho Americano” se ir desfazendo como neve, na perda de inocência à leste do talvez mais duvidoso dos Édens.

Kazan era turco de origem grega e foi ainda pior porque corria nele o sangue mais vermelho de esquerdista levado a depor (em toda sua fragilidade de “estrangeiro”) perante a fascista Comissão de Investigação de Atividades Antiamericanas que promoveu a tristemente célebre “caça às bruxas” de senadores de direita, apenas um pouco menos ridículos do que os nossos atuais representantes no famigerado Congresso que estamos tendo de aguentar (por não muito tempo, eu espero).

O romance autobiográfico do cineasta e escritor contém um grau a mais de deslocação, que se ocultava já naquele “complexo de Portnoy” (quase medíocre) que deu título ao livro de 1969 de Roth. Fez muito sucesso, entretanto, na “terra do sonho distante” na qual ou você tem êxito ou, então, tem simplesmente nada.

Mesmo um relativo sucesso pode ainda decidir o destino falsamente igualitário sob o facho da estátua de pernas fechadas Eleutheria (“liberdade”, em grego), com o braço levantado no ar rarefeito que os chefes da Revolução americana sonharam para o país futuramente individualista – e imperialista – demais para corresponder aos ideais do século XVIII, chegando a profetizar, nas suas melhores almas, um amanhã (?) de prosperidade e justiça.

O que deu errado?

Philip Roth – do seu gueto sem muros varsovianos (pelo contrário: com Wall Street aberta para companheiros de raça, credo e narizes menos ou mais aduncos) – tentou, desde o início, encontrar uma resposta para as taras que entraram como ingredientes do pesadelo americano consumado após a Segunda Grande Guerra. Sim, as palavras são essas: taras e pesadelo medidos principalmente por romances de judeus e não judeus da literatura, já velha, de denúncia de um obscuro “pecado grave”, investigado em obras de Herman Melville, Nathaniel Hawthorne, Sinclair Lewis, Scott Fitzgerald, William Faulkner, John Steinbeck, Horace McCoy, Carson McCullers, os já citados Bellow e Malamud e ainda Nathaniel West, Arthur Miller e outros e outros que desancaram a América autodestrutiva no fundo da sua personalidade nacional alimentada nos campos de ódio, competição, egoísmo, etc.

ODE CONTRA O EGOÍSMO

A América do Norte (não é nenhuma novidade) há muito que entrou na angst de ter “perdido a alma”, quando – segundo Steinbeck – sacrificou qualquer coisa ainda mais valiosa do que o duvidoso “Paraíso” dos pioneiros. E Roth se dedicou a demostrar que isso se deu em nome da doutrina do lucro acima de tudo, do vencedor por sobre todos, isto é, do individualismo exacerbado em lugar da perseguição (mesmo que perigosa) de uma espécie de “messianismo” presente já nas entrelinhas de uma constituição básica como uma tabuada democrática cujo primeiro resultado já fosse: dois vezes dois, cinco.

É a partir daí que se desenvolve a Pergunta que atravessa os muitos romances do autor de Indignação (ao qual voltaremos daqui há pouco): “o que deu errado?”

Para começar, a imprescindível compreensão do Outro – coisa impedida pelo olhar-para-o-próprio umbigo desse gigantesco país deformado. Quer dizer, começou a “dar errado” pela razão, prioritariamente, do “Outro” ser só uma projeção do Eu, para cada americano que perverteu o último Jardim do Paraíso e, nele, construiu o que um filme de Henry Hathaway chamava de “Jardim do Pecado” (Garden of Devil – milagrosamente mantido na tradução brasileira de um faroeste da melhor qualidade). A raiz calvinista e\ou a judaica – quase que tanto faz – está presente nisso, e esta linguagem “meio bíblica” não soa nada imprópria, aqui, para se tentar fazer a sociologia das desgraças que se abateram sobre o ogro do Norte, como se fosse a “mão do macaco”, a “vingança da Baleia Branca”, ou, menos misticamente, a fatura da conta apresentada pela política que agora chegou ao fundo do poço Trump. Vale dizer: ao surgimento do Grande Irmão do Ódio em carne e osso.

Voltemos à ficção de Roth. Ela começou por amadurecer no seu “Pastoral...” referindo a Grande Decadência da América a partir do título indireto. Decadência que se acelera do mesmo modo como, na vida do “Sueco”, tudo começa a desmoronar a partir de uma filha inicialmente muda, parecendo o “fruto” de um “pecado de origem” que vai se transformar num grande equívoco (com a menina mais tarde transformada em foragida por um erro, uma paranoia, uma busca de bodes expiatórios em bairros supostamente tranquilos)... Ou não mais. Porque não há mais bairros tranquilos no país do “Sonho” desfeito, agora que os americanos “WASPS” parecem executar aquela premonitória performance final da Dança Guerreira dos fantasmas, prometida pelo último profeta indígena (!) das antigas planícies livres, quando o chefe Chaleira Preta foi miseravelmente abandonado por soldados, na neve, enquanto Kit Carson, David Crockett, William Cody e os demais heróis se demitiam da matança, rumando para os Felizes Campos de Caça há muito desaparecidos, junto com os Édens de uma suposta “inocência” que provavelmente nunca existira.

“HERÓIS”?

Não há heróis nos romances de Roth. Há, neles, só gente comum que quer deixar de ser comum – e não o consegue – e amores e futuros frustrados ou truncados como por maldições de sabbaths dos quais se torna impossível voltar para uma “vida limpa”. E o que seria “uma vida limpa”?

Roth parece acreditar – com Brecht – que é maldito um povo que necessita de heróis... justamente na “terra-do-nunca” da Marvel e seu desfile de titãs que não precisam de acordar cedo para pegar um trem, um ônibus e um metrô a fim de chegar, todos os dias, no trabalho massacrante que exaure o ânimo de pensar e a vontade de trepar com uma esposa descolorida como uma mesa de tecido quadriculado. Mesmo os personagens “ricos” de Philip Roth – e não são muitos – olham pelas janelas de escritórios de Bartleby, com uma vidraça imensa dando para as docas tristes, as ruas sujas ou, mesmo, para o Nada da “parede” melvilliana.

O nada, de novo. Não adiantam – mais – a oração esquecida, o sexo apressado ou lento na cama da morte do pai que nunca morre para quem se assustou, na infância, com o Deus todo-poderoso, criador do céu (que não nos protege) e da terra que não tem jeito.

Philip Roth se desviou desse “nada” pelo menos literariamente: ele conquistou, ao longo de sua carreira, os mais diversos prêmios literários, dentre os quais o mais prestigioso foi, certamente, o Pulitzer, por esse romance – Pastoral americana – que não me agrada tanto assim. Alguns anos depois, ao prosseguir com livros que mexeram com as consciências (sem incomodar muito), ele se tornou o único autor americano que, em vida, viu a sua obra publicada pela prestigiada editora (“sem fins lucrativos” ) Library of America.

Sinceramente, eu gosto do estilo um tanto grosso de Homem comum e também do já citado Indignação, um passo além mais refinado, ainda que em narrativa no mesmo diapasão do modo “simples”, ou linear (para não dizer tradicional). É como Roth prefere escrever, pois ele já afirmou querer chegar, urgentemente, ao maior número de leitores, sem arquitetar teias de tarântulas armadilhosas para a sua escrita direta e eficiente. No Homem, era a velhice que estava em cena. Em Indignação, é a juventude que parece ser a maldição do personagem Marcus Messner, rapaz de dezoito anos, que é o narrador (atenção “oficinas literárias”: ISSO ainda existe!), judeu-americano nascido em Newark, a mesma cidade onde veio ao mundo o nosso autor às voltas com um pai tão difícil quanto o açougueiro kosher do seu (para mim) melhor livro. Kosher significa carne oferecida segundo a lei judaica, que recomenda – na verdade, exige – retirar todo o sangue dos animais, diferentemente dos abatedouros não kosher, nos quais podem matar os bichos que não morrem unicamente “devido à perda de sangue”.

Marcus Messner irá perder o seu – sangue vital, pelo menos – até se encerrar, abruptamente, a narrativa de uma vida jogada fora porque o paraíso ficou para trás, nunca existiu e, provavelmente, nunca existirá... enquanto a nossa história for a história do sangue e estivermos imersos nele por desconfiança e ódio, conforme – aqui no Brasil – agora estamos, talvez em preparação (inesperada) para o derramamento dele, em pastorais evangélicas (?) de pregação da morte. Para os “outros”.
Philip Roth é atualíssimo – aqui, inclusive – e é pena que tenha anunciado que abandonou a escrita. Quem sabe, esse autor – por muitos considerado como o mais importante dentre os romancistas americanos vivos – não esteja precisando de recobrar o ânimo em alguma oficina de “escrita criativa” rsrs?...

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