Conforme Billie Holiday contou depois, um único gesto de um cliente de um clube noturno de Nova York chamado Café Society mudou a história da música norte- -americana naquela noite do começo de 1939, a noite em que ela cantou “Strange Fruit” pela primeira vez.

O Café Society era a única boate de Nova York realmente integrada, um lugar que servia pessoas progressistas e de mente aberta. Mas Holiday lembraria que mesmo ali ela teve medo de cantar sua nova mú- sica, uma canção que atacava de frente o ódio racial numa época em que nem se sonhava com a música de protesto, e se arrependeu – pelo menos momentaneamente – ao cantá-la pela primeira vez. “Não houve nem mesmo uma tentativa de aplauso quando eu terminei”, escreveu em sua autobiografia. “Então uma pessoa começou a aplaudir nervosamente. De repente todo mundo estava aplaudindo.”

O aplauso ficou mais forte e um pouco menos hesitante à medida que “Strange Fruit” foi se transformando primeiro num ritual cotidiano para Holiday, depois em uma de suas gravações de maior sucesso, depois em uma de suas marcas registradas, pelo menos nos lugares onde era seguro cantá-la. Isso porque ao longo da curta vida de Holiday – ela morreu em 1959, aos 44 anos – a can- ção viveu numa espécie de quarentena artística: podia viajar, mas só para certos lugares. E, nos quarenta anos posteriores à sua morte, as plateias continuaram a aplaudir, a respeitar e a se comover com essa balada perturbadora, única na obra de Holiday e no repertório da música norte-americana, que deixou sua marca em gerações de autores, músicos e outros ouvintes, brancos e negros, nos Estados Unidos e por todo o mundo.

O famoso compositor E. Y. “Yip” Harburg chamou “Strange Fruit” de “documento histórico”. O falecido crí- tico de jazz Leonard Feather uma vez disse que “Strange Fruit” era “o primeiro protesto relevante em letra e música, o primeiro clamor não emudecido contra o racismo”. Para Bobby Short, a canção era “muito, muito fundamental”, um modo de trazer essa tragédia que era o linchamento da imprensa negra para a consciência branca. “Quando se pensa no Sul e em leis segregacionistas, naturalmente se pensa nessa canção, não em ‘We Shall Overcome’”, disse Studs Terkel. Ahmet Ertegun, o lendário produtor musical, chamou “Strange Fruit” – que Holiday cantou pela primeira vez dezesseis anos antes de Rosa Parks se recusar a ceder seu lugar a um branco num ônibus em Montgomery, no Alabama –, de “uma declaração de guerra” e “o começo do movimento pelos direitos civis”.

Holiday cantou a música inúmeras vezes em seus últimos vinte anos de vida. Muitas coisas sobre ela – sua aparência, sua saúde, sua vida pessoal, o som de sua voz – pareciam loucamente instáveis nessa época. Embora estivesse morrendo por causa da heroína e do álcool, ela teve também grandes momentos de triunfo. Mas quer a tivessem ouvido em disco, na rádio (onde era tocada de vez em quando por hesitantes djs negros ou djs brancos de alma negra) ou cantada ao vivo por Holiday ou por outra pessoa, todos que se deparavam com “Strange Fruit” ficavam com a música gravada na memória. Muitos passaram anos sem ouví-la, mas ainda hoje sabem recitar a letra de cor. “A não ser pela letra de ‘America the Beautiful’”, relembra Feenie Ziner, uma professora aposentada e escritora, “não sei se existe outra música ou outra cantora de que eu me lembre tão intensamente sessenta anos depois.” Por quê? Porque, como diz Ziner: “Billie Holiday nos deixava arrasados” quando a cantava. Fãs da música não dizem que gostam dela – como se pode realmente gostar de uma música sobre um tema desses? – mas reconhecem seu impacto duradouro. Creditam à mú- sica seu despertar para a realidade do preconceito racial e para o poder transformador e redentor da arte. O que quer que tenham feito, protestado em Selma, participado da marcha de Washington ou passado a vida como ativistas sociais, muitos dizem que foi ouvir “Strange Fruit” que desencadeou o processo. “Será que a empatia pelos injustiçados do mundo teria me atraído para os mesmos planos de carreira se nunca tivesse ouvido Billie Holiday? Duvido”, disse George Sinclair, um sulista que passou a vida trabalhando com os pobres e desfavorecidos. “Billie Holiday pode não ter acendido o estopim, mas inquestionavelmente alimentou a chama.”

E, no entanto, “Strange Fruit”, tanto como música quanto como fenômeno histórico, é surpreendentemente desconhecida hoje. Sem dúvida em grande parte por seu tema, a canção não é um dos muitos clássicos de Holiday sempre tocados nas estações de rádio ou nos alto-falantes de restaurantes, como “God Bless the Child”, “Lover Man”, “Miss Brown to You” ou “I Cover the Waterfront”. É uma anomalia, tanto dentro como fora da obra de Holiday.

“Strange Fruit” escapa a qualquer categorização musical fácil e se esgueirou por entre as fissuras do estudo acadêmico. É artística demais para ser música folk, politicamente explícita e polêmica demais para ser jazz.

Com certeza nenhuma canção na história dos Estados Unidos representa tamanha garantia de silenciar uma plateia ou gerar tanto desconforto. Joe Segal, que lidera há cinquenta anos o Jazz Showcase de Chicago, o segundo clube de jazz mais antigo dos Estados Unidos, ainda não consegue ouvir a música quando ela toca na rádio. “É muito dura”, ele me disse. “Não consigo aguentá-la.”

Lançada em 1939 – mesmo ano de …E o vento levou, um filme repleto de condescendência com os negros e com os artistas negros, e na mesma época em que “A-Tisket, A-Tasket”, de Ella Fitzgerald, era o que se esperava de cantoras negras –, “Strange Fruit” “devolve o elemento de protesto e resistência ao centro da cultura musical negra contemporânea”, escreveu Angela Davis em Blues Legacies and Black Feminism [Legados do Blues e Feminismo Negro]. Mais de setenta anos depois de ter sido cantada pela primeira vez, músicos de jazz ainda falam da música com uma mistura de estupefação e medo. “Quando Holiday a gravou, era mais que revolucionária”, disse o baterista Max Roach. “Ela expressou um sentimento que todos nós, negros, sentíamos. Ninguém falava daquilo. Ela se transformou em um dos guerreiros, essa linda mulher que sabia cantar e fazer você se emocionar. Tornou-se a voz dos negros, e eles a adoravam.” Quando a canção apareceu, a maioria das rádios a considerou provocante demais para ir ao ar; até hoje, mesmo os djs mais progressistas só a tocam de vez em quando. “É muito intensa, e eu quero divertir as pessoas”, disse Michael Bourne, que apresenta um dos programas de jazz mais populares de Nova York. Quem toca a música o faz quase hesitante (“é como esfregar o nariz das pessoas na própria merda”, disse Mal Waldron, pianista que acompanhou Holiday em seus últimos anos de vida), e muitas vezes só quando são obrigados; às vezes, ela é simplesmente pesada demais.

Poucos anos atrás, a revista britânica Q considerou “Strange Fruit” uma das “dez músicas que realmente mudaram o mundo”. Como qualquer ato revolucionário, a canção encontrou grande resistência num primeiro momento. Holiday e o cantor folk negro Josh White, que começou a cantá-la poucos anos depois de Holiday fazê-lo pela primeira vez, eram atacados, às vezes fisicamente, por clientes irados das boates – crackers,1 como Holiday os chamava. A Columbia Records, gravadora de Holiday no final dos anos 30, se recusou a gravar a música. E como acontece com atos revolucionários, a canção deu origem à sua própria cota de mitos, nenhum mais duradouro do que a declaração de Holiday, muitas vezes citada, de que ela própria escreveu ou encomendou a música. “Strange Fruit” foi um divisor de águas, elogiado por uns, execrado por outros, na evolução de Holiday de exuberante cantora de jazz para chanteuse da dor amorosa e da solidão. Assim que Holiday a acrescentou ao seu repertório, parte da tristeza da música parece ter se colado à ela; à medida que ia se deteriorando fisicamente, a música assumia nova pungência e imediatismo. O crítico de jazz Ralph J. Gleason chegou a vê-la como uma metáfora da vida de Holiday. “Ela só era feliz de fato quando cantava”, ele escreveu uma vez. “O resto do tempo ela era uma espécie de encarnação da canção ‘Strange Fruit’, pendurada não em um álamo, mas nos braços da vida em si.”

À sua maneira, “Strange Fruit” pode até ter acelerado o declínio de Holiday. Certamente, uma música que forçou uma nação a confrontar seus impulsos sombrios, uma música que ofendia grande parte do país, não lhe conquistou nenhum amigo influente que pudesse lhe dar uma mãozinha à medida que ela mergulhava no abuso de drogas e se envolvia em cada vez mais encrencas com a lei. “Fiz uma porção de inimigos, sim”, ela disse à revista Down Beat em 1947, logo depois de ter sido presa por uso de drogas na Filadélfia. “Cantar aquilo [‘Strange Fruit’] não me ajudou em nada. Eu estava cantando no Earle [Theater, na Filadélfia], e me fizeram parar.” William Dufty, o coautor da autobiografia de Holiday, tem certeza de que Holiday se apropriava de “Strange Fruit” porque sentia que a música só lhe trouxera dissabores – chegando ao ponto de fazê-la ser convocada por investigadores federais anticomunistas.

Depois de um ciclo inicial de popularidade, “Strange Fruit” caiu em desuso por muitos anos, vítima do conservadorismo de uma era, do idealismo e da esperança de outra e da desilusão de uma terceira. Josh White e Nina Simone estão entre os poucos artistas que a cantaram nos anos 50 e 60. Mas recentemente muitos outros músicos, de Sting a Dee Dee Bridgewater, de Tori Amos a Cassandra Wilson, do ub40 ao Siouxsie and the Banshees, gravaram “Strange Fruit”. Cada gravação é um ato de coragem, dado o domínio permanente de Holiday sobre a música. (Isso talvez não se aplique ao 101 Strings, que gravou uma versão orquestral.) Sidney Bechet fez uma versão instrumental logo depois da gravação de Holiday; mesmo sem a letra, a gravadora Victor preferiu não lançá-la por muitos anos.

Hoje a música aparece em muitos lugares. Leon Litwack, historiador da Guerra Civil e dos períodos de Reconstru- ção, vencedor do prêmio Pulitzer, usa-a em suas aulas na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e Stephen Bright a cita em “Pena de morte: raça, pobreza e desvantagem”, um curso que dá nas escolas de direito de Harvard, Yale e Emory. Don Ricco, um professor de Novato, na Califórnia, a toca para os alunos da oitava série quando estão estudando a Guerra Civil; enquanto repassam a dura saga das relações inter-raciais norte-americanas, eles aprendem também a força das metáforas. “Strange Fruit” é o que Mickey Rourke inexplicavelmente coloca no toca-discos para seduzir Kim Basinger em 9 ½ semanas de amor (como era de se imaginar, a música não funciona nem um pouco para criar um clima romântico). O juiz de uma corte de apelação federal a citou alguns anos atrás para demonstrar que a execução por enforcamento era inerentemente “cruel e desumana”. A música foi proibida nas rádios da África do Sul durante a era do apartheid. Khalid Abdul Muhammad, notório discípulo antissemita de Louis Farrakhan e organizador da Passeata de um Milhão de Homens,2 citou-a em discursos de ataque ao racismo contra negros nos Estados Unidos, aparentemente sem saber que a canção foi escrita por um professor judeu branco de Nova York.

O tal professor, Abel Meeropol, que escrevia sob o pseudônimo de Lewis Allan, não criou a canção para Holiday: vários outros, inclusive a esposa de Meeropol, Anne, a haviam cantado antes dela. E, no entanto, Holiday se apossou tão completamente de “Strange Fruit” que Meeropol – hoje mais conhecido por ter adotado os órfãos de Ethel e Julius Rosenberg após a execução dos pais deles do que por seus milhares de outros poemas e canções – passou metade da vida, a partir do momento em que a canção ficou famosa, a lembrar às pessoas que ela era realmente criação sua, e apenas sua.

Nem sempre funcionou: ninguém parecia aceitar que uma canção tão potente pudesse vir de uma fonte tão prosaica. Vários artigos atrelavam Meeropol a uma grande variedade de supostos colaboradores. Uma revista francesa o descreveu como diretor de uma escola para negros em algum lugar às margens do Mississípi. “Um certo Lewis Allen [sic] é citado como autor de ‘Strange Fruit’, mas ele compôs letra e música?”, escreveu o compositor e memorialista Ned Rorem, devoto apaixonado de Holiday, no New York Times em 1995, nove anos depois da morte de Meeropol. “Aliás, quem era ele mesmo? Ele era negro?” (Para os organizadores de uma homenagem a compositores negros no Museu de Belas Artes da Virgínia em 1999 a resposta era sim, pois eles incluíram “Strange Fruit” no programa.)

De certa forma, Meeropol selou seu próprio destino, seu status de nota de rodapé histórica, quando resolveu levar a canção para Billie Holiday: ela, mais do que qualquer outra artista, poderia torná-la efetivamente sua. “Quando você ouve Billie cantando, é quase como uma fita cassete da autobiografia dela”, disse Tony Bennett, que qualificou “Strange Fruit” como “magnífica”. “Ela não cantava nada que não tivesse vivido.”

Trecho do livro Strange Fruit, de David Margolick, publicado pela Cosac Naify

 

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